Combate à homofobia na universidade: entrevista Coletivo Batalho

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Como trabalhar a favor da diversidade nas escolas? As universidades respeitam, como deveriam, a diversidade? Tudo Bem Ser Diferente convidou Paulo Dias, do Coletivo Batalho,  para um bate-papo sobre homofobia e inclusão.

Como surgiu a ideia do Coletivo? E por que esse nome?

A razão fundadora do Coletivo Batalho vem de ações cotidianas por vezes banalizadas. Conversas de cunho homofóbico nos corredores, nas cantinas e restaurantes universitários saíram deste espaço físico e se intensificaram no espaço simbólico – página do Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas (ICSA) em uma rede social, em novembro de 2011. Neste momento, as agressões verbais, ameaças e ataques diretos tornaram-se públicos, o que foi determinante para uma mobilização dentro da Universidade. Alguns alunos se reuniram em um protesto no restaurante universitário, carregando placas com os dizeres: ‘Eu, fulano, batalho contra a homofobia na UFOP’. O protesto chegou às redes sociais e se transformou em uma campanha mais consistente. Pessoas de diferentes lugares do mundo criaram suas placas,e mais de 200 fotos foram publicadas em um perfil virtual gerado para a iniciativa. O Coletivo Batalho ganhou este nome numa alusão ao sistema de batalha de vagas nas repúblicas federais de Ouro Preto. Algumas repúblicas impõem um processo de seleção para escolher seus novos moradores, sem critérios sócio-econômicos definidos. Os estudantes que pretendem as vagas são obrigados a carregar placas com os dizeres: “Sou ‘bixo’ fulano, batalho vaga na república X”. Não obstante as práticas abusivas, a orientação sexual dos novos estudantes é determinante na fase de aceitação. Ao se apropriar da tradição da batalha de vagas nas repúblicas, a campanha utilizou duplamente o objeto da crítica, dando visibilidade ao tema e posicionando os indivíduos no questionamento, mostrando-se os rostos, as falas em apoio ao protesto.

377010_102648713187470_607485479_nQuais são os objetivos do Coletivo?

Neste contexto específico de tradição e conservadorismo, o Batalho surge na contramão, pretendendo um questionamento e promovendo um lugar de diálogo com este contexto cultural. Através das suas ações, o Coletivo busca reverberar nas comunidades (acadêmica e local) e criar uma abertura de perspectiva, no sentido de ampliar a discussão e os questionamentos sobre assuntos que, em um primeiro momento, não possuem um lugar de fala ou encontram-se à margem do que é comumente problematizado dentro do contexto de ação do grupo. Acreditamos que fazer circular a informação e promover atividades que questionem paradigmas erigidos pela sociedade normativa é fundamental na formação de indivíduos críticos e atuantes.

E a partir daí quais foram as principais ações realizadas pelo Coletivo?

Depois da campanha online “Batalho Pela Diversidade”, os professores do no ICSA-UFOP organizaram o Ato Sim à Diversidade, com a presença de professores, representantes da reitoria e do GUDDS (Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual). Em seguida, foi criada a Semana de Integração, em diálogo com outros grupos de inclusão social, como o NEI – Núcleo de Educação Inclusiva, pensada para receber os novos estudantes e incluí-los nos debates e proposições do Instituto. Na programação da Semana, o Coletivo organizou e ofereceu a oficina temática “Teia das opressões – Batalhas contra a homofobia”, buscando abordar de que forma as manifestações homofóbicas interferem nas relações em sociedade.

No dia 17 de maio de 2012, Dia Internacional do Combate à Homofobia, organizamos uma marcha pela cidade de Mariana, com adesão de estudantes, professores e marianenses, dando visibilidade aos ideais do Coletivo na cidade. Em função da greve que paralisou toda a UFOP em 2012, só retomamos nossas atividades no fim do ano passado, no I Ciclo de Jornalismo da UFOP, com o debate “Diversidade Sexual e Cidadania: aspectos jurídicos, os media e a Universidade no contemporâneo”, com a presença de convidados aptos a falarem dos temas. No início desse ano, durante a SECOM (Semana de Comunicação da UFOP), exibimos o documentário “O Riso dos Outros”, seguido de uma discussão. Em parceria com a Revista Vírus Planetário (RJ), realizamos a campanha virtual “Fora Feliciano”, reunindo imagens de pessoas com suas placas em repúdio a ocupação de Marco Feliciano (que fez declarações públicas de cunho homofóbico, racista e machista) ao cargo de Presidente da Comissão de Direitos Humanos.

O Coletivo Batalho encontra-se em fase de estruturação. No próximo mês nosso site entra ao ar, e diversas outras ações estão sendo pensadas para receber os calouros e trazer mais gente pra essa luta.

428610_167284530057221_1119932207_nO Coletivo limita-se à discussão dentro da universidade ou consegue extrapolar os limites do ambiente acadêmico?

Ampliar a discussão para fora do ambiente acadêmico é um grande desafio. No meio universitário temos o apoio dos estudantes, professores, o que não acontece muito fora dali, nas ruas. O Batalho é visto como um coletivo da UFOP, não de Mariana e Ouro Preto. Percebemos que ainda temos muito por fazer na Universidade e mais ainda fora dela, conciliando ações que causem impacto nos dois ambientes.

Qual a receptividade do Coletivo dentro e fora da universidade?

O Batalho conta com o envolvimento direto de dez pessoas, graduados e graduandos da UFOP nos campi de Mariana, onde nossas ações atraem um número expressivo de participantes. Nosso grupo busca oferecer um espaço para identificação dos estudantes com o coletivo; um local de estímulo ao pertencimento e ao processo de enfrentamento diante da exclusão. Essa combinação corresponde e se relaciona com a qualidade de vida dos estudantes e com a promoção de um lugar de deliberações no sentido de melhorias sociais.

Estamos caminhando para que a discussão chegue de fato à Ouro Preto, nos campi e repúblicas da cidade, investindo no diálogo dentro do ambiente acadêmico, para, logo mais, excedê-lo, abarcando também a comunidade local.

Quais os principais desafios do movimento de combate à homofobia?

A homofobia se manifesta de várias formas. Há uma visão generalizada de que a homofobia é só a agressão física, mas não é só isso. Há formas sutis e tidas como naturais que também agridem e excluem aqueles indivíduos que não se encaixam nos padrões sociais. Comentários e “brincadeiras” preconceituosas passam, por vezes, despercebidas por aquele que pratica, mas não para aquele que é agredido. O desenvolvimento de comunidades está intimamente atrelado à liberdade das expressões individuais. Nesse sentido, o estudante privado da fala e da convivência respeitosa dentro da universidade, se configura como um sujeito inoperante, não produtivo diante do ambiente em que se insere.

O grande desafio no que se refere ao nosso campo de atuação (sobretudo a Universidade) é dialogar com essas pessoas que manifestam, muitas vezes quase que mecanicamente, esse preconceito arraigado, enraizado, e fazer com que entendam que compartilhamos da mesma condição humana e que a nossa igualdade é justamente a valorização de nossas diferenças, inegociáveis e invioláveis.


404754_112554035530271_1152944569_nO Coletivo usa muito as redes sociais para ampliar o movimento? De que maneira?

Sim, o tempo todo. A ação que impulsionou o Coletivo foi criada e desenvolvida nas redes sociais, contribuindo para a reflexão do que acontecia no espaço físico. Da mesma forma, o dispositivo na web proporcionou a inserção de pessoas que não poderiam participar presencialmente. A rapidez e eficácia desses veículos possibilitaram que a campanha ‘Batalho pela Diversidade’ recebesse mais de 200 fotos em poucas semanas, dando visibilidade aos propósitos do grupo. A divulgação e a cobertura dos atos, oficinas e debates também se realizaram através desses meios.

Vocês utilizam algum tipo de conteúdo e/ou de linguagem especial para conscientizar a população ou desmistificar a temática da homofobia?

A estratégia mais consistente do Batalho é a divulgação ampla na web. Além dos perfis nas redes sociais mais acessadas – twitter e facebook -, um site já foi criado e entra ao ar em breve. Em nossas ações, além da confecção das fotografias e placas, utilizamos elementos gráficos e material impresso para fotomontagens, painéis nos campi e folhetos anexados de divulgação do coletivo.


O Batalho trabalha em conjunto com outros movimentos contra a homofobia e/ou a favor de educação inclusiva nascido nas universidades?

 O Batalho faz parte da Rede Universitária de Diversidade Sexual (RUDS), que abrange coletivos de diversas cidades de Minas Gerais, como Belo Horizonte (Gudds! e Glos), Uberlândia (Shama), Lavras (Grupo Urucum), Viçosa (Primavera nos Dentes), Juiz de Fora (MUDD*Se), Uberlândia (Odara) e Alfenas (Diverges). O combate à homofobia é realizado através de várias ações (eventos, campanhas, mobilizações sociais) que envolvem todos esses coletivos, compreendendo e trabalhando com as especificidades de cada ambiente onde se inserem os grupos, reiterando a todo momento um espaço de troca, formação e consolidação de cada coletivo, para interferirmos conjuntamente e cada vez mais no estado.

Para conhecer o Coletivo Batalho clique aqui. 

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