A manifestação que eu vi e a que fiz

1016578_10201380776587334_394653575_nPor Sônia Pessoa

Eu não havia planejado participar da manifestação da segunda-feira, 17 de junho, na Praça 7, em Belo Horizonte.

Deixei meu filho na escola e o carro parecia seguir um rumo próprio. Vi vários policiais em motos, nas proximidades do Palácio das Mangabeiras, sede oficial do Governo do Estado de Minas Gerais. As ruas e praças próximas ao palácio e que dão acesso ao centro da cidade estavam com policiamento reforçado. Fui passando, aos poucos, por várias viaturas da Polícia Militar.

Desci a avenida Afonso Pena e tinha certeza que cairia em um engarrafamento e de lá não sairia tão cedo. Mas essa certeza não parecia fazer a menor diferença. Parecia não ser impedimento. Lá no fundo, uma voz me lembrava a todo momento: “você não pode demorar… está sozinha na cidade, não há mais ninguém para buscar o filho na escola… vá, mas volte rapidamente”…

Consegui me livrar do engarrafamento e, por sorte, encontrei um estacionamento aberto. Os jovens estavam ali, no coração de BH, com caras pintadas, cartazes, bandeiras, faixas, tudo como manda o figurino de um bom protesto. Eu não estava preparada… fui sozinha, sem adereços…

O pirulito da Praça 7 se tornou palco de atores animados, com propósitos sérios. Os tais 20 centavos de aumento da passagem de ônibus em São Paulo foi a gota d’água, como muitos já disseram. Decidiram potencializar ao máximo o efeito dessa gotinha, muito bem vinda. Ela caiu como uma luva, apenas para usar mais um clichê.

972138_10201380773587259_1930305887_nO grito de nós, manifestantes, (posso me considerar uma manifestante? não sou jovem, não sou cara pintada, não integro movimentos sociais que se articularam para o protesto, não sou filiada a nenhum partido político…),  traz à cena o eco de muitas falas sufocadas por aí. Falas sufocadas pelo comodismo da classe média, pelo entusiasmo da chamada Classe C, pela cultura do “é assim mesmo”, do “rouba mas faz”, da “troca de favores”, “do quem indica”, “do fura fila”, da desigualdade na distribuição de renda, da política viciada e de tantas outras culturas arraigadas no nosso “jeitinho brasileiro”. Mesmo que em silêncio e sem conhecer nenhum dos manifestantes, talvez estivesse ali a minha fala, muitas vezes sufocada, em busca da educação inclusiva plena e do direito a ser diferente.

Não, esse não é um texto contra os brasileiros. É um texto de quem acredita em um Brasil que precisa e que está amadurecendo, que está perdendo o medo de mostrar que tem direitos: direito à educação, ao transporte público, à saúde e a tudo o que pode deve ser oferecido pelo Estado para compor a vida digna de um cidadão.

O brasileiro se acostumou com um serviço público de saúde que não funciona, quem pode paga plano de saúde privado, quem não pode, sofre ou morre na fila. O brasileiro se acostumou a trabalhar dobrado para pagar escola particular enquanto as escolas públicas teriam a obrigação de nos atender bem… O brasileiro se acostumou a juntar dinheiro para comprar carro para se livrar do transporte público, de péssima qualidade. O brasileiro se acostumou a pagar pela segurança ou a viver na insegurança. E assim, o brasileiro foi acostumado a arcar com o que, em tese, seria obrigação dos governos – dos inúmeros que por aqui passaram e ainda passam. E foi acostumado a descaracterizar as manifestações e a dizer que é coisa de desocupado, de festeiros, de baderneiros, de quem não trabalha ou de quem é de esquerda ou de direita, de acordo com o interesse de cada um…

A manifestação em BH – a que vi, pacífica, acompanhada pela polícia, marchando do centro de BH para o Mineirão, local de jogo da Copa das Confederações, – é um movimento, nada tímido, de brasileiros que se importam coletivamente com o Brasil. Brasileiros interessados em um país melhor. Utopia? Li por aí que sem utopias não há mudanças. Vai ver é por isso que eu estava lá. Vai ver é por isso que estou aqui em Tudo Bem Ser Diferente.

(Para os curiosos, infelizmente, pude acompanhar apenas parte da manifestação pelos motivos que expliquei no início do texto. Segui a pé, marchando silenciosamente no meio da multidão, passei o viaduto até parte da Antônio Carlos, antes que ela fosse totalmente fechada e eu ainda conseguisse voltar. Consegui pegar um táxi de volta e buscar o meu carro no centro da cidade. Tirei pouquíssimas fotos, a bateria do celular acabou… eu não estava preparada para a manifestação… saí para levar o filho na escola… da próxima vez, me organizo melhor. Vivendo e aprendendo. Mas estive lá e me sinto muito bem por participar desse movimento que considero histórico).

E por favor, não me venham com teorias conspiratórias… essas manifestações são legítimas e necessárias ao Brasil. Se você critica ou não acredita nelas, se dê uma chance, vá às ruas… ou pelo menos, às janelas…

Pena que no final… bombas de gás lacrimogênio e confusão, mas eu não estava mais lá…

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