Médica e mãe de uma garota autista: confira a entrevista de Geórgia Fonseca

g1Geórgia Meneses Fonseca é mãe de uma garota autista. Pediatria, com vasto currículo em Desenvolvimento Infantil, Puericultura, Homeopatia e Saúde Mental, se dedica à pesquisa sobre autismo e à divulgação de temáticas relacionadas à síndrome. Tudo Bem Ser Diferente a convidou para um bate=papo sobre autismo. Antes, porém, é fazemos uma breve apresentação para que os leitores a conheçam melhor. 

Geórgia tem especialização em Homeopatia nos Distúrbios Mentais e do Comportamento, é Membro Diretor da Federação Brasileira de Homeopatia, pesquisadora em Autismo da Federação Brasileira de Homeopatia e membro do Programa Estadual de Homeopatia da Secretaria Estadual de Saúde RJ. Professora do Curso de Graduação e Pós-Graduação em Homeopatia/ FHB – RJ, especialização em Autismo pelo Autism  Research  Institute – San Diego/ Califórnia. Recebeu o primeiro Prêmio Orgulho Autista 2005 em pesquisa alternativa.

Qual o diagnóstico da sua filha?

Minha filha possui diagnóstico de Autismo Infantil clássico. Este diagnóstico foi confirmado por dois neuropediatras com um ano e oito meses e depois com dois anos. O Autismo é um distúrbio que clinicamente se manifesta por atraso ou desvio nas aquisições do neurodesenvolvimento e por alterações de comportamento.

E como o autismo se manifesta?

As manifestações clínicas podem surgir muito cedo na vida da criança, sendo evidentes, na grande maioria dos casos, antes dos dois anos de idade. Há especificidades clínicas como as dificuldades de interação e comunicação social que associadas ao comportamento repetitivo permitem diferenciar o autismo das outras perturbações do desenvolvimento. Do ponto de vista prático, talvez o mais fácil para capacitar as pessoas a identificar sinais de risco seja a capacidade de perceber as características normais e mais comuns dos bebês, que não são encontradas de forma consistente nos bebês com suspeita de autismo: alegria, curiosidade, prazer no contato físico com outros( o aconchego), busca pela “atenção” das outras pessoas ,busca pelo olhar das outras pessoas ,alternância alegria – irritação e acordado – dormindo.

g2Sua filha estuda em escola regular?

Sim, minha filha estuda em uma escola regular e inclusiva, e este processo foi um aprendizado conjunto. Nosso e da escola. As terapeutas da minha filha se dispuseram sempre a irem a escola, fazer entrevistas com coordenadores e professores, e tentar passar as informações da maneira mais eficiente de lidar com ela. E a escola, por sua vez, sempre se mostrou aberta e interessada em aprender, mesmo que fosse em “aprender fazendo”. O que contou muito, na realidade, foi a boa vontade de toda equipe e o interesse em fazer sempre o melhor.

Quais são os principais problemas da educação inclusiva no Brasil?

Em primeiro lugar é urgente a capacitação de professores e manter uma campanha permanente de conscientização da sociedade sobre o que é realmente o autismo e como se deve trabalhar com estas crianças.

O educador precisa considerar o nível de desenvolvimento de cada aluno por meio de uma avaliação que possa abranger as áreas de linguagem, cognição, cuidados pessoais, socialização e coordenação motora. Feito isto devem se delinear as metas a serem alcançadas por trimestre com aquela criança através de um plano individual de ensino e de avaliações. Acho que estas metas devem ser traçadas acompanhando o projeto político pedagógico da escola, para que a criança possa passar por todo currículo de maneira adaptada à sua compreensão.

O papel da presença importante de um mediador em sala de aula para aquele aluno deve ser reconhecido definitivamente pelos profissionais de educação, pois a presença deste visa mediar a interação da criança com a professora e os amigos, manter o estado de atenção, adaptar e criar instrumentos para a melhor compreensão do aluno.

Quais aspectos poderiam melhorar?

Creio que a metodologia de ensino para os autistas deve identificar as barreiras de aprendizagem e planejar formas de removê-las, respeitando o ritmo de cada criança. Garantir que o conteúdo não seja acelerado e nem passado em branco pelo aluno, mas que se busquem formas, estratégias e materiais para que aquele conteúdo seja aprendido.

Outro ponto importante é que a escola busque e aceite a participação efetiva dos pais e familiares, criando um círculo de informações e propostas para a melhoria daquela criança. Os pais de crianças especiais não são vistos com bons olhos, sempre sendo considerados ansiosos demais. É preciso que se entenda que os pais, ao conviverem continuamente com aquela criança, podem apontar as melhores formas de se chegar até ela, suas peculiaridades de comunicação e de comportamento, suas sensibilidades sensoriais, o que pode ser de grande ajuda para o educador.

A partir da sua experiência com o autismo, quais orientações você poderia dar àquelas famílias que estão nessa situação?

Tenho 28 anos de prática em medicina e 13 anos de prática em autismo, e posso dizer que a angústia inicial pela qual passamos ao recebermos um diagnóstico que nos parece tão devastador para nossos filhos, na verdade nos faz perder um tempo precioso no início da luta pela recuperação daquela criança! Enquanto eu não parei de chorar pela minha filha idealizada e não passei a olhar para a filha que tinha em minhas mãos eu não pude fazer nada por ela! Lutem! Acreditem! Pois os autistas alcançam melhoras extraordinárias e sempre seremos recompensados por todos os esforços que empreendermos para o seu progresso.

g3Você decidiu se dedicar à pesquisa sobre autismo antes ou depois da sua filha? Por que?

Como eu era Pediatra e Homeopata, costumava a atender crianças com necessidades especiais, principalmente paralisia cerebral e Síndrome de Down. O meu trabalho de pesquisa na Federação Brasileira de Homeopatia se iniciou mesmo após o diagnóstico de minha filha. Eu e o presidente da Federação iniciamos o uso de medicamentos homeopáticos que importamos de laboratórios franceses e ingleses que tivessem ação nas áreas cognitivas, de comportamento e de socialização. Publicamos o primeiro trabalho mundial com uso de homeopatia em autismo e melhora confirmada por escalas de reconhecimento internacional. Paralelemente, fui aos Estados Unidos buscar especialização em Tratamentos Biomédicos para Autismo e tenho tido grande satisfação com os resultados destas duas abordagens em meus pacientes.

Quais características e comportamentos as famílias devem observar para contribuir para um diagnóstico rápido?

Os pais e cuidadores devem estar atentos às características principais do desenvolvimento infantil que devem ocorrer e identificarem os fatores de risco: Antes dos 6 meses a criança não se sobressalta, pisca ou muda a atividade imediata em resposta à ruídos altos e súbitos. Antes de 6 meses a criança não presta atenção à voz humana e não é apaziguada pela voz materna. Não se aconchega no colo. Aos 6 meses a criança não balbucia séries de sílabas com consoante + vogal nem imita sons de gorgolejo. Aos 10 meses a criança não responde ao seu nome. Aos 10 meses a vocalização de criança limita-se à guinchos, grunhidos ou uma emissão vogal contínua. Aos 12 meses a balbuciação ou fala da criança se limita a sons de vogais. Aos 12 meses a criança NÃO USA O DEDINHO INDICADOR PARA MOSTRAR AS COISAS OU TENTAR COMPARTILHAR ATENÇÃO. Aos 15 meses a criança não responde a “não”, “tchau” ou “mamadeira”. Aos 15 meses a criança não imita sons ou palavras. Aos 18 meses a criança não está usando pelo menos seis palavras com significado apropriado. Aos 21 meses a criança não responde corretamente a “ Me dê…”. “ Sente-se”, “ Venha cá” quando solicitada com dicas gestuais. Aos 23 meses ainda não surgiram frases de duas palavras que são faladas juntas como: oquié, acabotudo. Aos 24 meses os ouvintes familiares não compreendem pelo menos 50% da fala da criança. Aos 24 meses a criança não aponte partes do corpo sem que lhe seja dada dica. Aos 24 meses a criança não combina palavras formando frases: “vou carro”, “quer água”. Aos 30 meses a criança não está usando frases curtas: “ Au-au foi embora” Aos 30 meses a criança não começou a fazer perguntas usando onde, o quê, por quê. Aos 36 meses a fala da criança não é compreendida por ouvintes.

O que você destacaria como novidade no tratamento do autismo?

As novidades no campo da pesquisa surgem à cada dia. Hoje o Autismo já é considerado uma epidemia! A última estatística mostrou que há uma criança diagnosticada com autismo em cada 50 crianças. Esta avaliação foi feita pelo Centro para Controle e Prevenção de Doenças ( CDC) , Centro de Monitoramento de Desordens do desenvolvimento (DAMS) do Ministério de Saúde Americano. Um em cada 54 meninos são afetados e uma em cada 252 meninas também são acometidas.

Estes dados alarmantes movem os pesquisadores de todo o mundo à busca de respostas. Hoje sabemos que os nossos genes não mandam em tudo, pois o ambiente em que vivemos pode ter a capacidade de liga-los ou desliga-los. A grande busca é sobre qual fator ambiental moderno pode estar causando este aumento assustador. Paralelamente, os estudos sobre novas drogas, os estudos sobre intervenções dietéticas, sobre suplementações vitamínicas, sobre métodos de ensino mais adequados estão indo à todo vapor, o que me deixa muito feliz, pois à cada dia temos mais recursos para tratarmos estes pequenos pacientes.

Algumas palavras para as famílias de autistas e para os próprios autistas…

Para as famílias eu peço: Acreditem no potencial da sua criança! Saibam que ela tem um mundo infinito e singular dentro de si e que toda esta beleza pode desabrochar um dia! Ofereçam todas as possibilidades que puderem ao seu desenvolvimento, mas sempre os tratem como se eles “soubessem de tudo o que se passa à volta deles” pois isto realmente acontece! Outra coisa que tem me surpreendido são as crianças que usam meios de comunicação alternativos! E vocês se espantariam em ver uma criança a qual vocês julgariam portadora de grave retardamento mental se comunicar maravilhosamente, inclusive com tons de bom humor!

Para os autistas eu digo: O seu mundo é lindo! Muito melhor do que este nosso, cheio de mazelas! Mas gostaríamos que nos dessem a chance de participar deste nosso mundo, quem sabe para torna-lo melhor!

Algumas palavras para a sociedade sobre o autismo e a convivência respeitosa com o autista…

Gostaria de dizer a todos os que lidam no campo do autismo, tanto pais como profissionais, que são pessoas que estudam tanto e que tanto se dedicam, que precisam se conscientizar que o autismo têm diferentes graus e formas de apresentação e que as diferentes famílias estarão sempre percorrendo diferentes caminhos nesta estrada. Que procurem ver que, na realidade, todos sofremos e lutamos de forma igual! Não façam comparações entre as crianças ou o método de abordagem educativa que cada família escolheu. Cada autista é único e para ele haverá uma abordagem toda particular para alcançar seu mundo interior. Unam-se realmente por uma única causas. O caminho a percorrer é muito longo e cheio de percalços e estaremos mais fortes amparando-nos mutuamente. Um grande abraço em todos vocês!

 

Anúncios