Meu filho é uma pessoa, Papo de Pai, por Carlos Wagner

03092011404Duas questões apareceram em meio à correria e angustia no dia do nascimento do João: a) o que Deus quer me mostrar? e b) por que ele está fazendo isso comigo? Eu naquele momento um sem religião, mas crente na transcendência. Descobri ao longo do tempo que talvez nenhuma das duas perguntas faziam sentido; por um lado, porque se Deus existe e é Amor ele não poderia participar disso, por outro lado, é de um egoísmo enorme fazer a segunda pergunta quando na UCP/UTI neonatal tantos pais e mães passavam por aquela situação.

Independente de tudo chamei meu amigo, atual compadre para fazer uma oração ao lado da incubadora. Na necessidade de apego num nome forte fui atrás de Santo Agostinho para ajudar a compor o nome do João. Dele busquei o Aurélio.

Mas se para mim essa questão está resolvida percebo que para um enorme grupo de pessoas a necessidade de colocar na mão do transcendente a resolução, se é que tem algo para resolver, da condição de pessoa com deficiência do meu filho, ainda é grande.

Dos parentes aos taxistas ouço constantemente sobre o carma dele, sobre as inúmeras igrejas para ser milagrosamente salvo das forças do demônio, sobre estar desenganado, etc. Respeito a fé de cada um, ouço atentamente sobre as vidas passadas do João, sobre curas miraculosas acontecidas pelas mãos de homens de Deus. Quando estou na rua e uma pessoa nos faz parar para fazer a cruz sobre ele e diz que ele será curado fico pensando, curado de que? Queria apenas que cada um deles respeitassem a condição humana do João. Apenas a humanidade dele me parece alicerçar aquilo que ele a cada dia tem se transformado, uma criança viva, manhosa e amada, como muitas outras crianças que conheço. Com ou sem deficiência.

Daí hoje não ter muito significado para mim a preocupação essencial se vai andar ou não, se ele vai enxergar perfeitamente ou não. Faço de tudo (e minha companheira também) para que ele tenha uma boa vida, cadeirante ou não, com visão monocular ou não, com o braço “preguiçoso” ou não. Já andamos meio mundo atrás de tratamentos, procuramos seguir com perseverança as orientações dos profissionais de reabilitação e, talvez por isso, o João tenha evoluído tanto. Essencial para mim como pai é que ele respeite a faxineira da escola e de casa, como tem que me respeitar, que trate com hospitalidade e atenção ao morador de rua, como tem que fazer com aquela visita que chega a nossa casa. Que tenha fé no amor entre todos aqueles que se amam. Que seja capaz de ser autônomo e responsável pelos pensamentos e ações que executa. Em suma, que consiga ser um bom cidadão. Esse é meu projeto de pai (e acredito de sua mãe) para o meu filho.

Nunca neguei o direito de minha mãe levar meu filho à missa, a ensinar orações. Os terços e imagens que ela lhe dá se não estão à mostra pela casa, estão carinhosamente guardados e utilizados por ele quando bem quer. Não há impedimento para que o João frequente o culto na igreja dos padrinhos. Nunca negamos ao João as sessões de Reik da Elizabeth. Apoio firmemente à abordagem da professora de ensino religioso da escola em que ele estuda. Ou seja, não preciso negar a fé daquele que me rodeia, muito pelo contrário, a fé destes permite ao João ter mais escolhas, mais possibilidades de convívio com o diferente.

Não é fácil ouvir de alguém que seu filho é um endemoniado e que precisa ser exorcizado. Que foi uma pessoa má na vida passada, etc. O que me incomoda é que neste discurso o João é identificado apenas pela sua deficiência, suas outras qualidades e deméritos são esquecidos. Ele é para muitos apenas uma coisa: aleijado.

João é antes destas identidades fixas e depreciativas um ser humano que tem apesar de todas as desigualdades direito a sua diferença, seja ela qual for. Ser reconhecido na sua singularidade e engajado nas suas lutas. Igual a todo humano. Por isso a questão das pessoas com deficiência é uma questão de direitos humanos, como a questão do amor entre iguais, a luta étnica (especialmente negros e índios), o direito de professar credo religioso, a luta contra a tortura e o direito de memória, entre outras lutas e conquistas que só existem no conflito de valores e perseverança na ocupação dos espaços públicos e privados.

Que assim possa ser, amém!

* Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia, pai do João, que tem paralisia cerebral. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em www.tudobemserdiferente.com

Anúncios