Tentando entender o que acontece no Brasil, e isso tem a ver com educação

images“Podemos estar assistindo ao início da corrosão da mesmice paralisante e idiotizante do esporte nacional”…

Atendendo a pedidos, postei no blog o texto que Márcio Santos, meu marido, doutor em História pela USP, me enviou ontem, por email… Havia postado no facebook somente para os amigos, mas agora o status foi alterado para público… Vale a leitura!

Por Márcio Santos, doutor em História pela USP*

Em meio a dias de intenso trabalho no norte de Minas, acompanho perplexo e arrepiado as manifestações que se espalham Brasil afora. Até na normalmente apática Itacarambi, cidadezinha de 10 mil pessoas na área urbana e 20 mil no município, chegam os ecos da movimentação política. Alguém me conta que um grupo de cultura local tenta articular as pessoas para uma manifestação que, se tiver 100 pessoas, já será um sucesso nessa minúscula cidade.

Tento entender o que acontece a partir das notícias e no calor do momento, o que é potencialmente perigoso. Mas, ao mesmo tempo, pode ser apaixonante escrever enquanto a história é construída nas ruas. Que o diga John Reed, que produziu uma das grandes obras de jornalismo histórico enquanto acompanhava e participava da Revolução Russa de 1917.

Algumas hipóteses.

As manifestações de rua têm todas as características de um grande movimento histórico e é fundamental, para entendê-lo, tanto aproximá-lo quanto distanciá-lo de dois outros grandes movimentos do Brasil contemporâneo. Sem dúvida as manifestações têm o mesmo gás e vigor das Diretas-Já e do impeachment de Collor e já podemos ver uma linha direta de afirmação política entre os três. Se voltarmos ao impeachment de 92, é a mesma movimentação puxada e pautada pela juventude, que traz a reboque a classe média, as minorias, os radicais e os violentos.

Mas, e aqui começam as diferenças, tanto em 84 quanto em 92 tínhamos um foco, um objetivo, uma meta precisa. Agora estamos diante de uma movimentação generalizada que exige de tudo: direitos das mulheres decidirem o que fazer do próprio corpo, fim da PEC 37, punição dos corruptos, mais saúde pública, mais educação pública, fora Renan, fora Feliciano e… a diminuição das tarifas de transportes. Mobilidade urbana, nome técnico para o stress diário do trânsito, tornou-se prioridade na pauta, para perplexidade dos analistas sociais. Quem diria que um problema aparentemente secundário como o trânsito, num país de problemas gigantescos, seria um dos fatores a fomentar manifestações políticas do porte das que estão ocorrendo? Que o diga quem perde horas de descanso entalado em ônibus, trens e metrôs ou até mesmo, em situações limites em monstruosidades urbanas como São Paulo, é obrigado a dormir na rua porque as horas de distância não permitem voltar para casa depois do trabalho.

Outra diferença importante: os partidos e os políticos simplesmente sumiram! Em 84 éramos liderados, e na maioria dos casos mal liderados, pelos Ulisses, Tancredos, Brizolas, Montoros. Políticos tradicionais com matiz de centro-esquerda e, especialmente com os Tancredos, intensas negociações de bastidores que acabaram por nos tirar o gosto da vitória. Em 92 o PT foi um dos atores a puxar a fila dos cara-pintadas e não é a toa que uma das nossas principais lideranças de então, presidente da UNE, é hoje o processado senador petista Lindbergh Farias.

Não ouvi até agora notícia alguma sobre a participação ou pelo menos a manifestação pública de políticos. Afora uma previsível e institucional nota da Secretaria de Comunicação do PT, com o inócuo título de “transporte público”, não vi mais nenhum posicionamento de partidos e personalidades políticas. Cadê as doces e indefinidas Marinas, as radicais Heloísas, os PSOLs ? Cadê Lula, gente? Lula, que teve sempre uma palavra para julgar, sob o sempre-o-mesmo ponto de vista do futebol, os mais variados fatos e atitudes políticas?

Por falar em futebol, podemos estar assistindo ao início da corrosão da mesmice paralisante e idiotizante do esporte nacional. Num país diuturnamente extasiado diante de campos, telas e telões, onde qualquer incidente futebolístico pode ser discutido com ares de questão científica ou se tornar mote para verdadeiras guerras urbanas, é salutar que, pela primeira vez – pela primeira e deliciosa vez! – as pessoas estejam se perguntando: para que a Copa do Mundo? Por que torrar bilhões num mês de celebração orgiástica da cartolagem, dos falsos ídolos, do ganha-fácil, do sempre-o-mesmo? “Cansamos de pão e circo”, diz o cartaz carregado pelo jovem manifestante sem camisa.

Acertos e erros. Ontem Heródoto Barbeiro acertou em cheio ao sublinhar na TV um fato curioso: os manifestantes se juntaram em torno de prédios públicos do Executivo e do Legislativo, mas deixaram incólumes as sedes do Judiciário. De alguma forma a intuitiva consciência social que comanda as manifestações poupa juízes da ira contra prefeitos, governadores, deputados. Um reflexo da dureza e do vigor com que o STF julgou o processo do Mensalão? (Independentemente, diga-se de passagem, da opinião que tenhamos sobre a justiça ou injustiça das sentenças emitidas). Um reflexo do papel sem igual do Ministério Público na lenta redemocratização do país? Pode ser. A propósito, numa movimentação que pode abrigar virtualmente todas as causas, vamos encontrar também a lúcida e informada oposição à proposta de emenda constitucional que retira do Ministério Público a função investigativa, essa maquinação parlamentar que é o mais recente conluio de políticos corruptos para se garantirem a impunidade.

Juízes e juízes. O Ministro Luiz Fux, do STF, derruba a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que, atendendo ao Poder Executivo Estadual, declarara ilegais as manifestações de rua no estado. Ironia que o tribunal mineiro tenha tentado, de toga, parar os milhares de manifestantes que tomaram as ruas da capital e de cidades da região metropolitana.

Voltando aos acertos e erros de alguém com a repercussão de Heródoto Barbeiro, é também ele a, pouco depois do acertado comentário sobre o Poder Judiciário, tratar os manifestantes violentos como “vagabundos e cafajestes”. Ora, é preciso saber relativizar e distinguir. Por que o conservadorismo brasileiro pasma assombrado diante da queima pública de bandeiras? Bandeiras são queimadas todos os dias pelo mundo, por massas enfurecidas contra o poder político e militar de governos e potências. A queima da bandeira norteamericana se tornou quase uma rotina nas manifestações populares em regiões como o Oriente Médio. E poucos se assombram pelo mundo, porque de fato a bandeira, que congela o Estado enquanto entidade absoluta e monolítica, é simultaneamente identidade e negação. Queimar a bandeira é queimar simbolicamente o Estado na sua arrogância e irredutibilidade.

Diferente é arrebentar a porta de aço de uma loja e levar TVs e computadores ou botar fogo em veículos privados. Um resíduo quase insignificante, numericamente inexpressivo, todavia exibido largamente pela mídia, de um movimento de várias cores. Acrescente-se que a polícia cometeu a primeira agressão, quando as manifestações mal começavam e a confiança policial era plena, ao atacar indiscriminadamente, armas em punho, manifestantes e jornalistas.

Estaremos diante do início da Primavera Brasileira? Os próximos dias dirão se a redução das tarifas de transportes será suficiente para refrear os ânimos ou se, por outra, terá sido somente o rastilho a incendiar a pólvora da ira popular. “É bom lembrar que os confrontos com a polícia ocorrem horas depois do governo anunciar a reversão do aumento das tarifas”, comenta, entre indignada e surpresa, a repórter de TV. Até mesmo a líder do Movimento Passe Livre, aparentemente o primeiro ator da movimentação, hesita na entrevista para a TV: “continuaremos a lutar por um transporte de qualidade, não necessariamente com manifestações de rua”. Não necessariamente. É claro que a própria jovem não sabe onde vai dar o que ajudou a começar. Ninguém sabe, porque agora passam a atuar, a partir do substrato de indignação e inconformismo generalizados, os fatores de indeterminação, acaso e imprevisibilidade que caracterizam os movimentos das multidões.

Enquanto tudo isso, o Brasil crava 2 a 0 no México no mais recente torneio mundial. Na minúscula Itacarambi, nenhum viva, nenhum rojão, nenhum comentário. Quem se importa?

* Márcio Santos, Itacarambi, 19 de junho de 2013.

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