Os abrigos do sem fim: quem podem ser nossos filhos?

Por Regina Helena,

Tenho andado em torno de um assunto em várias de minhas colunas aqui e em entrevistas que já dei com relação à adoção. Eu vou e volto falando de onde vi meus filhos pela primeira vez: o abrigo. Antes de pensar em adotar, eu nunca tinha ido a um abrigo, mas, como pesquisadora das cidades, já me defrontei com muitos documentos e histórias de instituições de recolhimento de crianças órfãs e abandonadas. Já andei muito por nossas ruas nos tempos atuais e vi muitas crianças nos sinais de trânsito vendendo balas, perambulando pelas esquinas e praças, dormindo debaixo de viadutos… Enfim, essas cenas que vemos nas nossas cidades. Mas eu nunca tinha ido a abrigos.

Quando estávamos fazendo o curso para adoção, fiquei meio surpresa com o número de abrigos em Belo Horizonte: são tantos… e isso indica muita demanda.  Outra surpresa foi quando nos disseram, no mesmo curso, que o que sempre pensamos de abrigos não é bem a realidade deles. A maioria das crianças que lá estão não são órfãs ou abandonadas: foram retiradas de suas famílias por maus tratos e violência física.
Quando essa tabela é projetada na tela do curso de adoção, é possível ouvir os suspiros de medo de todos nós. Porque temos ideia que alguém que vem da violência à violência retornará. Muitos dos que adotam têm medo, medo do filho que virá. Muita gente, quando falamos que vamos adotar, nos pergunta: “Mas vocês não têm medo?”.
Talvez essa seja a pergunta-chave para explicar porque o Brasil tem mais pessoas na fila da adoção do que crianças em situação de adoção: a grande, enorme maioria de pessoas na fila quer um recém-nascido (que não teve que ir para abrigo), menina (porque entendem que meninos “são mais difíceis”) e branca (porque somos um pais racista).

Mas voltemos ao “perfil” das crianças a serem adotadas. Quando a gente chega aos abrigos, vê mais meninos, mais meninos negros, mais meninos negros com mais idade. Essa é a cara dos nossos abrigos, meninos que lá ficarão até seus 18 anos porque muita gente quer filhos, mas eles não são os filhos que muita gente quer.

No abrigo onde encontrei meus filhos pela primeira vez, vi alguns desses meninos, desses que ninguém nunca vai querer. Tinha o “menino negro” de 8 anos. Um menino lindo, como há muito não vejo por aí, extremamente educado, inteligente, tinha um sorriso alegre e me recebia sempre com alguma conversa sobre a escola onde estudava. Ele nunca será adotado mas tem um padrinho, alguém que olha por ele, que paga sua escola, compra roupas que são só dele e dá brinquedos apropriados à sua idade. Ele não tinha ninguém além desse padrinho, mas era o único ali que tinha “essa sorte”, segundo me disseram. No dia que levamos nossos filhos, ele chorou. Me disse, no canto do quarto, que o sonho dele era ter uma casa.
Conheci uma menina com  algum tipo de paralisia: ficava em uma cadeira de rodas, só mexia os dois dedos indicativos das mãos e mexia pouco a cabeça. Tinha dificuldade de fala e um tempo mais lento de raciocínio. Toda vez que eu chegava, ia conversar com ela. Eu gostava do seu tempo lento, da forma como ficava no notebook (alguém doou ao abrigo para que ela usasse) tentando encontrar um namorado no Orkut (ela se encontrou nessa rede, era um lugar onde ela constituiu seu grupo de amigos), do jeito como me contava das aulas do dia. Ela achava muito legal eu ser professora. Dizia que queria ser professora… Ela se foi desse abrigo enquanto eu ainda estava na fase de conhecer meus filhos.
Foi para outro abrigo. Ninguém a quis como filha. Foi para um abrigo de crianças maiores: ela já tinha 14 anos, já menstruava, já queria um namorado e se sentia mal num lugar “só de crianças”. A dificuldade foi achar um abrigo que tinha adaptações para cadeirantes. Ela foi para um que tinha dois andares. Só no final da nossa pequena convivência eu descobri que ela tinha família e que estava conhecendo os irmãos. Não quis perguntar a ninguém porque ela estava lá… tive medo da resposta.
Conheci uma pequena menina de 6 anos. Achei que ela era muito desenvolvida para a idade… Por que achei isso? Ela tinha um corpo diferente das meninas dessa idade. Era um corpo de mulher e não de menina, mas eu não entendi, no início, porque ela me causava essa impressão. Ela fazia perguntas que eu nunca pensei que meninas dessa idade podiam fazer, mas ela fazia. Um dia me contaram… Eu não perguntei, mas contaram: ela foi abusada pelos homens da família, da rua, do quarteirão, do mundo desde os 2 anos de idade. Ela era difícil, briguenta, brava, estúpida, agressiva… uma criança de 6 anos…
Tinha um pequenininho que eu achava a coisinha mais bonitinha do mundo. Ele tinha a idade da minha Duda, só que era a metade dela. Não falava, não andava. Ele tinha um dos olhos “caídos” e já não enxergava mais pelo lado direito e isso fazia com que, ao engatinhar, trombasse em um monte de móveis da casa. Um dia, me contaram que ele foi achado na rua, todo machucado. O corpo dele é todo marcado de queimaduras de pontas de cigarro.

Os abrigos cumprem uma função que não queremos ver. Falam de um lugar da nossa sociedade que não queremos saber. Eles deixam explícito o que somos nós como sociedade. Muitas pessoas reclamam e falam mal do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e dos Conselhos Tutelares. Essas coisas permitiram que essas crianças fossem retiradas do inferno que viviam. Que fossem para alguns lugares onde podem ser tratadas, cuidadas. No abrigo onde conheci meus filhos, todas essas crianças tomam café da manhã, almoçam e jantam. Têm lanches no abrigo ou levam seus lanches para a escola. Vão a escolas, têm atendimento psicológico publico, são levadas a médicos e hospitais, terapias e fisioterapias. Não é o paraíso mas é um lugar onde encontram banho, cama, escova de dentes, toalhas, roupas e sapatos. Brinquedos e espaço mais cuidado para viverem.
Muitas delas sonham com uma casa porque, por mais novas que sejam, sabem que um abrigo não é uma casa. Algumas têm saudade de casa porque era casa, por mais que essa casa fosse no inferno. É muito delicada essa relação entre uma criança maltratada em casa e uma criança cuidada, mas institucionalizada.
Muitas das pessoas, com as quais convivi durante todo o processo de adoção, me diziam que não olhavam para as outras crianças, nem para as pessoas do abrigo: só queriam saber daqueles que seriam seus filhos. Não consegui fazer isso. Fico até hoje pensando nessas crianças que citei acima e que nunca serão adotadas por causa de suas histórias de pequena e curta vida.
Tive e tenho muitas dúvidas sobre tudo desde que viramos uma família. No tempo do abrigo, tive todos os temores que muita gente tem, não tenho nenhuma vergonha de admitir que a gente tem medo, temor pelo futuro, pelo desconhecido, por tudo.
Quando ficamos grávidas, achamos que temos o poder de definir como nossos filhos nascerão, que serão perfeitos, que crescerão perfeitos e terão um futuro brilhante. Toda mãe sonha isso e é perfeitamente compreensível e legítimo. É engraçado porque parece uma fé inabalável no poder dos nossos genes. Quando vamos encontrar nossos filhos fora de nossos corpos, achamos que eles podem portar geneticamente tudo de mal que aconteceu com eles.
Enganos, sempre enganos. Não podemos definir nossos filhos biológicos e não podemos prever nossos filhos adotivos. Por isso, todos nós, que adotamos crianças que não são bebês, meninas e brancas, somos muito sensíveis às novas discussões sobre a adoção necessária. Precisamos olhar para essas crianças e entender que elas também são filhos para quem quer adotar. Quebrar o preconceito contra o passado deles, reinventando um futuro ao qual eles têm direito. Existem bons e maus abrigos, boas e más histórias, mas a vida não se resume a uma dicotomia pobre de disputa entre bons e maus.
Essas crianças esperam por pais e mães e um monte de futuros pais e mães esperam nas filas de adoção pela criança ideal. Essas crianças que ficaram no abrigo dos meus filhos não são ideais, são apenas crianças. Crianças que vão carregar por toda vida o peso do que tiveram que enfrentar ainda tão sem armas para lutar mas que lutaram.
Esta coluna não pretendia ser uma campanha pela adoção necessária, mas acabou sendo. Eu queria dizer um pouco de uma experiência que me marcou profundamente e vai caminhar comigo e meus filhos enquanto aqui estivermos. Como historiadora, às vezes olho para eles e pergunto: que passado tiveram? Que acontecimentos viveram? Quem e quais personagens fazem parte de suas histórias antes de mim?
Posso ter acesso oficial a algumas respostas a essas perguntas, mas decidi que eles trarão para mim os fragmentos do que escolherem trazer e que, juntos, construiremos nossa história em comum. Até porque eles só saberão de meu passado o que conseguirem acessar a partir de agora. Quando olho para eles, me lembro de uma frase de Marc Bloch, um historiador francês do século XX:

“O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa.”

Nunca mais voltei ao abrigo e está fazendo um ano que fui lá pela primeira vez. Não tenho coragem. Algo me pega toda vez que penso em ir lá para fazer uma doação ou rever as pessoas que cuidaram de meus filhos. Tenho algo que não consigo explicar e que me impede de ir lá. Na verdade, me incomoda até passar perto de lá, ver a placa na rua que indica o caminho para ir pra lá. Acho que é porque foi naquele lugar que eu entendi até onde um ser humano pode chegar na sua estupidez, violência e falta de humanidade.

P.S: A última frase não se refere aos pais, responsáveis ou ao lugar de onde vieram as crianças das quais falei aqui. A última frase se refere a todos nós.

© 2012 by Daniela Mata Machado Tavares. Todos os direitos reservados / Fonte: Bh da Meninada

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Regina Helena Alves Silva é professora da UFMG. Graduada em História e Ciências Sociais, com mestrado em Ciência Política e doutorado em História Social. Coordenadora do Centro de Convergência de Novas Mídias-UFMG, atua nas áreas de história social da cultura, comunicação e práticas sociais, novas tecnologias e cultura digital, culturas urbanas e formas de participação social. Atualmente, é mãe em tempo quase integral de Pedro e Maria Eduarda.

* Este é um artigo autoral, que reflete as opiniões do colunista e não do veículo. O website BH DA MENINADA não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações, conceitos ou opiniões do (a) autor (a) ou por eventuais prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso das informações contidas no artigo.

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