Curso prepara alunos surdos para o Enem

Natália Fernandjes

Denis Maciel/DGABC

O profissional da área de automação Douglas Barroso, 23, finalmente terá condições de executar a prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). O morador de São Bernardo é um dos 20 matriculados no curso de preparação de alunos surdos da UFABC (Universidade Federal do ABC) criado neste ano e ministrado no campus Santo André.

A vontade de aprender fez com que o jovem tivesse, anos atrás, se arriscado em curso preparatório para o Enem para estudantes ouvintes. O resultado não foi dos melhores. Por não conseguir acompanhar a explicação teórica, o aprendizado a partir da leitura não era suficiente. Hoje, ele já confia que conseguirá se sair bem na avaliação para, posteriormente, ingressar em curso na área de informática.

O desejo de aprender de Douglas só está sendo possível graças à sensibilidade da professora de Libras (Língua Brasileira de Sinais) da UFABC Maria Izabel dos Santos Garcia. Recém-chegada do Rio de Janeiro, sua terra natal, ela ficou impressionada com a inexistência de alunos surdos na universidade. “Consegui identificar a principal demanda desse grupo, que é a dificuldade de acesso à universidade e montamos este projeto piloto”, explica.

Militante na causa das pessoas surdas há cerca de 30 anos, Maria Izabel acredita que o trabalho, considerado por ela simples, é fundamental para a inclusão dos jovens surdos. “Não se muda nada por meio de discursos. Estamos cansados de leis e decretos de pseudoigualdades que não são cumpridos”, justifica a docente. Segundo ela, muitos estudantes não têm conhecimento sobre seus direitos, inclusive da obrigatoriedade de haver tradutor à disposição dos estudantes surdos no dia do Enem.

A fala da especialista leva em conta o não cumprimento ou falta de atenção em relação à Lei Federal 10.436 de 2002, conhecida como Lei de Libras. A legislação determina que instituições públicas ou privadas devam ter intérpretes no seu quadro funcional para dar atendimento aos deficientes auditivos, mas nem sempre as instituições estão preparadas.

Outra norma que já vigora é o decreto criado em 2005 que estabelece ensino obrigatório da Libras na Educação Básica de todo o País.

Método

Os conteúdos ministrados aos estudantes surdos são os mesmos passados aos alunos ouvintes, assim como a estrutura e a dinâmica da sala de aula. A única e principal diferença é o uso da Libras para a comunicação entre professores e alunos.

Duas vezes por semana, por exemplo, as aulas são dominadas pelos gestos e expressões. Estas são datas em que professores surdos ficam encarregados pela condução dos conteúdos. Nos demais dias, os tradutores são os ouvidos dos jovens para que o aprendizado seja completo.

Quando há dúvidas, a mão é erguida e o questionamento, feito. Mas para acelerar o processo, alguns estudantes preferem levantar da carteira e ir até a lousa apontar para o material questionado. As tradicionais conversas paralelas e a troca de informações entre os estudantes também são comuns na sala.

As aulas são realizadas de segunda a sexta-feira, à noite, e se estenderão até outubro, completando carga horária de 520 horas. O projeto conta com a participação de seis alunos da UFABC que dão aulas e a parceria de cinco professores surdos de fora da instituição de ensino e tradutores que abraçaram o projeto voluntariamente.

Conteúdo é gravado para facilitar estudo em casa

Para facilitar os estudos, todas as aulas são filmadas e os vídeos disponibilizados aos estudantes para que tenham como estudar em casa. A professora de Libras da UFABC Maria Izabel dos Santos Garcia explica que ser surdo é uma outra forma de estar no mundo e, por isso, a dinâmica de aprendizado dessas pessoas deve ser respeitada. “Precisamos entender que, enquanto nós, ouvintes, nos orientamos pela audição, os surdos compreendem o mundo pela visão”, explica Maria Izabel.

A estudante Aline Nunes, 17, acabou de concluir o Ensino Médio em escola especializada para surdos e tem planos de seguir carreira na área da Matemática. Para participar das aulas, a jovem encara dois ônibus para se locomover de Diadema, onde mora, até Santo André. O transtorno, no entanto, não é visto como o mais difícil. Para ela, a maior dificuldade é a comunicação em relação ao Português, já que muitos alunos surdos não têm fluência na escrita.

Por ser o único espaço onde este tipo de atividade é realizado, as aulas recebem estudantes de diversas cidades da região e até mesmo da Zona Leste da Capital. “Recebemos inscrições de vários alunos de outros Estados, mas como as aulas são presenciais, não teria como eles participarem”, comenta Maria Izabel.

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