Tentando entender 2, e isso tem a ver com educação

 

bola“O evento fica comprometido com centenas de milhares de pessoas nas ruas. Se as pessoas quiserem se manifestar cerceando o direito de ir e vir dos outros, será assim. É impossível a polícia atuar contra a vontade de 100, 200, 300 mil pessoas e é impossível uma força bruta que possa impedir isso em determinado momento”.

Coronel Márcio Martins Sant’ana, Polícia Militar de Minas Gerais, 25/6/13

Por Márcio Santos, doutor em História pela USP, em 25.06.2013

Há 6 dias, logo após a vitória do Brasil sobre o México, escrevi um longo texto sobre as manifestações. Enviei para alguns amigos, Sônia divulgou no Facebook e no blog e ficou por aí. Desde então acompanho e me debato internamente. Leio análises, ouço comentários, capto informações, produzo e desproduzo convicções. Já ouvi falar em golpe, necessidade do exército nas ruas, revolução, alegria e juventude. Li análises apaixonadas e favoráveis à explosão do novo que instaura uma nova forma de fazer política. Li análises apaixonadas e contrárias ao movimento despolitizado de classe média que pode levar ao caos. Passei esses 6 dias atordoado e em dúvida sobre o que penso e, portanto, sobre qual caminho devo tomar.

Hoje, há pouco, à medida que os acontecimentos do dia se acumulavam e a preparação do dia seguinte se consumava, essa nuvem se dissipou. Amanhã, 26 de junho de 2013, dia do 5º Grande Ato em Belo Horizonte e simultaneamente dia da Semifinal da Copa das Confederações em Belo Horizonte, será um dia especial para mim. Independentemente do rumo que o movimento tomar, independentemente do seu resultado para o governo federal petista, que admiro com restrições, amanhã será um dia especial para mim.

Cresci nas décadas de 60 e 70. Em 1970, aos 8 anos, lembro-me claramente de minhas tias vibrando em torno da TV em preto e branco numa quitinete no Edifício Brasília, no centrão de Belo Horizonte. O Brasil ganhava a terceira Copa do Mundo da sua história, com a famosa seleção de Pelé, Tostão e Rivelino. Criança, não sabia direito o que significava aquela vibração, a célebre música Noventa milhões em ação entoada aos brados pelas ruas. Muito menos sabia que estávamos então num dos anos mais duros dos anos de chumbo, governados pelo mais feroz dos generais, que havia considerado o assassinato de dois opositores do regime, sob tortura, um “acidente de trabalho”.

Não guardo boas recordações desse ano tenebroso. Mais tarde viria a saber que estávamos em pleno “milagre econômico”. Milagre econômico? Morávamos então na periferia de Belo Horizonte, num bairro de ruas de terra, água puxada de cisternas e vizinhos bêbados. A minha mãe deixava os dois filhos menores com a vizinha e seguia comigo para o centro da cidade, uma viagem de horas num ônibus velho. Lá, percorria a burocracia da prefeitura e pedia apoio a vereadores para receber a indenização a que tinha direito pela desapropriação do lote e do barracão em que morávamos. Havíamos sido desapropriados para dar lugar à futura Avenida Borba Gato, o primeiro eixo viário da região. O dinheiro, contudo, levaria um ano para sair, e foi esse um período em que me lembro da minha mãe angustiada e temerosa como nunca.

Futebol e ditadura. Mais tarde viria a saber, a estudar, como a vitória na Copa foi instrumentalizada pelo regime militar. O governo criou o lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”, uma alusão direta à expatriação de opositores do regime. Aquela corrente para a frente, todos ligados na mesma emoção, de que falava a música dos Noventa milhões, escondia o terror das prisões, da tortura, dos assassinatos cometidos pelos militares. O general presidente Médici não teria mesmo dito à seleção, antes do último jogo, que não precisaria retornar ao país caso perdesse?

Futebol e mito social. Nunca vi com bons olhos o fascínio esterilizante das massas pelo futebol. O esporte se tornou passo a passo um imenso balcão de negócios, com contratos milionários, salários estratosféricos, cartolagem. Décadas de negociatas tornaram esse que deve ser o mais belo entre os esportes coletivos uma prática milionária assistida por milhões de torcedores fanatizados. Ainda pior que isso, vai se criando entre crianças e adolescentes o sonho dourado dos Pelés, dos Ronaldos, dos Neymars. Desde cedo os meninos pobres “aprendem” que um pouco de habilidade com a bola e alguma sorte em serem descobertos significarão a fortuna rápida e fácil. E assim o que poderia ser uma forma de lazer, uma prática física saudável e uma experiência sociopedagógica do brincar coletivo converte-se no mito do ganho fácil.

Até alguns dias o mito do futebol parecia inabalável entre os brasileiros. Ousasse alguém questionar essa forma de subcultura, ousasse alguém se perguntar afinal que sentido tem a Copa do Mundo, e estaria em maus lençóis num país onde, antes de cidadãos, somos todos torcedores.

Subitamente esse mito sustentado e patrocinado por empresários e governos é colocado à prova. Numa sensacional virada histórica, centenas de milhares de brasileiros passam a colocar em questão a Copa do Mundo, o dinheiro público torrado no megaevento, a cartolagem e as negociatas. Perplexo, acompanho na rede social jovens brasileiros combinando o bloqueio das vias públicas, o cercamento do estádio, a paralisação do transporte, o anti-futebol, enfim. Anti-torcidas se organizam para garantir o anti-futebol. Tudo isso para inviabilizar um jogo decisivo desse torneio mundial que prepara a Copa do ano que vem.

Mas, então, concluo, o mito pode ser desconstruído, e está efetivamente sendo desconstruído. E isso se dá não pela ação iluminada de uma liderança, de um projeto, de uma plataforma política. Dá-se como ação espontânea das massas, como um processo indeterminado de pedagogia política coletiva. Como se estivéssemos aprendendo todos juntos. Como se da irracionalidade das massas brotasse uma sutil e racional consciência social da inutilidade do gasto público. E que pode, na dinâmica ultrarrápida destes dias, se tornar uma crítica social da própria subcultura do futebol e do seu papel deletério na formação dos brasileiros. Que pode, a partir de agora, relativizar o antes absoluto futebol e recolocá-lo, como quando surgiu no Brasil, no patamar dos demais esportes. Talvez o mais belo entre todos os esportes.

Por isso, amanhã, dia do 5º Grande Ato em Belo Horizonte e simultaneamente dia da Semifinal da Copa das Confederações em Belo Horizonte, será um dia especial para mim. Será o dia em que a irracionalidade das massas, tornada consciência social, bloqueará um jogo decisivo. E, invertendo a jogada histórica da ditadura militar, as massas instrumentalizarão o futebol para expor as fissuras do Estado e impor a sua perspectiva de poder político. Mas desta vez como verdade e não como mito.

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