Tentando entender – 3, relato da participação na quinta manifestação em BH

Slide5Márcio Santos, doutor em História pela Usp

Belo Horizonte, 28 de junho de 2013.

Estive na última manifestação em Belo Horizonte, batizada de 5º Grande Ato, realizada no mesmo dia da Semifinal da Copa das Confederações. As considerações abaixo são uma a expressão de um certo ponto de vista do evento, que por sua vez desborda para uma tentativa de interpretação do próprio movimento. Sei que a minha percepção do 5o Grande Ato é necessariamente atomizada e certamente não dá conta de toda a sequência de passos que caracterizaram o dia 26 de junho de 2013, pela simples razão de que é impossível conhecer por inteiro um evento que se desdobra numa verdadeira língua humana se movimentando entre a Praça 7 e a região do Mineirão. Portanto, mesmo para quem estava lá, como eu estive entre o meio dia e as 6 horas da tarde, a visão é necessariamente atomizada e parcial. Por outro lado, estou convicto de que aprendi muito mais nesse dia do que acompanhando a movimentação pelo Facebook, pela mídia digital ou pela TV.

Cheguei à Praça 7 por volta das 12 e 30, tendo antes percorrido a pé parte do centro de BH. Em torno do Pirulito já se concentravam muitas pessoas, enquanto o restante do centro estava silencioso como num feriado. A minha primeira visão foi de duas viaturas do Gate e cerca de dez policiais revistando minuciosamente as mochilas de dois jovens de aparência pobre. Duas pessoas, às quais me juntei, fotografavam ou filmavam a cena: uma senhora de meia idade e um porteiro de prédio. Nas revistas que presenciei os policiais foram polidos e não houve violência. Por outro lado, as revistas me pareceram excessivamente minuciosas e mais tarde vim a saber que confiscavam máscaras, vinagre e outros objetos de proteção contra o gás lacrimogêneo, uma óbvia violação dos direitos das pessoas.

A segunda cena foi de um jovem de cavanhaque expulsando aos berros uma equipe da Rede Globo: “Filhos da p.!”, “Que a Globo vá tomar no c.!”, bradava contra cinco silenciosos profissionais da empresa, com o repórter engravatado à frente, na esquina das ruas Rio de Janeiro e Tupis.

Na Praça 7 se concentravam as mais diversas “tribos”. Sem-terra, com suas camisetas e bandeiras vermelhas, militantes de partidos como o PSTU, o PCR e o PCdoB, defensores dos direitos dos animais, médicos, enfermeiras e professores da rede pública, policiais civis em greve, União Colegial de Minas Gerais, movimento de atingidos por barragens, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, Pastoral dos Sem Casa, UTE, apoiadores da Serra do Gandarela e, claro, muitos e muitos jovens.

A primeira impressão se confirmaria integralmente ao longo do dia. O movimento é diversificado em classe social, renda, idade, categoria profissional, cor, orientação sexual e, enfim, qualquer outro quesito que se tome. A mídia e páginas como a do Anonymous têm alimentado a imagem de um movimento formado somente por jovens de classe média, de precária compreensão política, majoritariamente focados no problema da corrupção. Mas o que vi no dia 26 foi uma multiplicidade de grupos, de idades e classes sociais as mais variadas, muitos expressamente ligados a movimentos sociais e partidos políticos.

Além dos já costumeiros “Fora Renan” e “Fora Feliciano”, presenciei somente um ataque direto a um político, o “Fora Lacerda”, cantado e batucado na praça e repetido por muita gente. Pela sua insensibilidade social e pelas medidas excludentes que patrocina, o prefeito de Belo Horizonte tem sido alvo frequente nas manifestações na cidade. Lembro-me de apenas um cartaz contra a presidenta Dilma, o que é surpreendente num movimento que a mídia tem destacado pela oposição ao governo federal. Posso dizer com certeza que, a depender das dezenas de milhares de pessoas que participaram do 5º Grande Ato em BH, dos cartazes que exibiram e das causas que bradavam, não se trata de um movimento específico de ataque ao governo Dilma. Tampouco me pareceu haver uma inequívoca oposição aos partidos políticos e movimentos sociais. Não presenciei nenhum dos atos de hostilidade entre a massa jovem e militantes de partidos e movimentos, que a mídia tem se esmerado em destacar. Num certo momento, ainda na praça, começaram a chegar vários grupos com faixas horizontais enormes; atrás de cada faixa, carregada por 4 ou 5 pessoas, vinha um grupo. Um homem jovem organizava esses grupos, andando de costas para a praça, conduzindo as pessoas para a chegada às imediações do Pirulito. Perguntei a ele de onde era. “Do PCdoB”, respondeu. “Alguma hostilidade?”. “Não, o movimento é pacífico”.

Aos poucos a multidão foi aumentando e gradualmente foi se formando uma verdadeira língua humana se deslocando entre a Praça 7, a avenida Afonso Pena, a Praça Rio Branco, os viadutos atrás da Rodoviária e a avenida Antonio Carlos. Supunha estar mais ou menos no penúltimo quinto dessa imensa passeata, mas quando olhava para trás via milhares e milhares de pessoas se deslocando. Para a frente, a mesma coisa. Posso dizer que andei por horas, ao lado de jovens estudantes, famílias, trabalhadores. As manifestações eram as mais diversas. Num talude gramado na margem da avenida um pequeno grupo, entre os quais o “Geléia”, dos tempos do movimento estudantil na Fafich dos anos 80, esticara duas faixas pela proteção da Serra da Gandarela. Enfermeiras pediam a instituição do regime de 30 horas semanais de trabalho. Vários cartazes contra a Copa. Numa lixeira alguém imprimira “Anti Copa”. Um grupo de rapazes cercara uma pequena área e vendia feijão tropeiro, água e cerveja. No plástico branco que utilizaram como cerca escreveram: “Um professor vale mais do que o Neymar”. Quatro ou cinco pessoas organizavam um rapel num dos viadutos, todos com camisetas “Rapel Clandestino”. “Não ao voto obrigatório”, porta uma jovem. “Sou pequena, mas a vontade de mudança já é grande”, uma menina de 5 ou 6 anos.

Meninos pobres acompanhavam do alto das passarelas; um deles escondeu o rosto e advertiu diante da minha câmera fotográfica: “Não tira foto da gente não”. Numa rua lateral vejo os primeiros policiais desde que deixamos a Afonso Pena. São poucos, cerca de 10, em torno de duas viaturas. A ausência de policiais é reconfortante, pois Sônia já me alertara pelo celular sobre o início das bombas de gás e balas de borracha, no epicentro da manifestação, mais à frente, na altura das avenidas Abraão Karam e Santa Rosa. As mensagens de celular de Sônia, que acompanhava tudo em casa pela TV e internet, eram eloquentes e davam a cronologia dos eventos no interior desse superevento: “Praça 7 lotada”, 12:38. “Manifestantes sentaram na Antonio Carlos, altura do viaduto São Francisco”, 14:57. “Tão mandando bala de borracha e gás”, 16:11. “Bombas lançadas também na (avenida) Santa Rosa”, 16:29. “Fotógrafo do Estado de Minas ferido com estilhaços de bomba na Antonio Carlos. Sai de perto de quem tá com o rosto coberto”, 16:36. “Manifestante caiu do viaduto”, 17:05. “Mais um fotógrafo ferido”, 17:12.

Por volta de 17:30 chegamos a cerca de 200 metros da Avenida Abraão Karam e começamos a sentir o efeito das bombas de gás lacrimogêneo que eram lançadas pela polícia mais à frente. Os olhos ardem, o nariz dói, a garganta “trava”. Começam a descer em direção à Abraão Karam rapazes com camisetas tampando o rosto, pessoas de máscaras, alguns grupos com expressão agressiva. Três rapazes descem de braços dados, um deles tem a cabeça totalmente encoberta por um capacete, recurso que não tinha visto antes. Aos poucos se formam dois fluxos: pessoas se retirando da manifestação e caminhando na direção contrária à Abraão Karam e pessoas que continuam a descer em direção ao epicentro.

Alerto o grupo com que estava desde o início. São os defensores dos direitos dos animais: Antonio Brito, também colega da Assembleia Legislativa, Franklin, Adriana. É o momento de recuarmos.

Iniciamos então o périplo de volta. O objetivo agora é conseguir um meio de transporte que nos poupe a longa caminhada de volta ao centro. Franklin propõe que Brito e eu peguemos carona com um amigo dele, cujo carro está estacionado numa das saídas da UFMG. Mas o destino do amigo é a Avenida Portugal, para o que terão que atravessar a região do conflito. Hesitamos mas acabo por decidir: “Franklin, estamos diante de duas alternativas, ambas ruins. Mas continuar a pé pela Antonio Carlos me parece 51% e pegar o carro com você 49%”. Despedimo-nos e continuamos, Brito e eu, a pé. A Antonio Carlos está interditada nos dois sentidos, mas de vez em quando um ou outro veículo passa. Nenhum táxi, nenhum ônibus. Estamos cansados, o dia se põe, o centro da cidade parece muito longe. Encontramos um casal que caminha no mesmo sentido, se entendi bem são funcionários da Cemig. A mulher comenta sobre a sucessão de acidentes de trabalho fatais com trabalhadores da companhia, mais um problema social inserido no movimento. Caminhamos juntos por algum tempo, um menino pobre me pede a bandeira do Brasil que carregava desde a Praça 7, dou a ele com a recomendação: “Mas você vai usar, não é?”.

Encontramos um veículo da Bhtrans, conversamos um pouco com os agentes. “Um táxi agora será muito difícil”, um deles comenta. “Melhor pegar o ônibus que está aí atrás”, sugere o outro, apontando a rua transversal. Rumamos para o ônibus sem muita esperança: quanto tempo até esse ônibus estacionado partir? Irá mesmo para o centro da cidade?

Mas um golpe de sorte nos leva a avistar um táxi na mesma rua. Entramos todos aliviados no veículo. O taxista penetra pelas ruelas da Pedreira Prado Lopes, comentando sobre a região da cracolândia. É seguido por um outro veículo, dirigido por uma mulher jovem, crianças no banco de trás. A mulher está perdida com a interdição da Antonio Carlos e não sabe deixar o bairro; acena aliviada quando o táxi entra no trecho já liberado da avenida.

O táxi nos deixa no centro da cidade e dali já podemos pegar o veículo do Brito, que o deixara estacionado na esquina das ruas Tupis e São Paulo. Atravessamos o centro ainda com pouco movimento, passando por destacamentos de cerca de 20 policiais, fortemente armados, um deles em frente à Igreja São José. Mais tarde saberei, pelas notícias na internet, que são esses destacamentos que formaram verdadeiros corredores poloneses nas ruas do centro, por onde chegaram os manifestantes vindos da Avenida Antonio Carlos. Na assembleia popular horizontal realizada ontem sob o Viaduto Santa Tereza a repressão policial no centro da cidade, depois de terminada a grande passeata, foi denunciada por muitos.

Assim foi a minha participação naquela que os manifestantes começam a chamar de “Passeata dos 100 mil”, uma alusão ao movimento que, em 1968, levou 100 mil pessoas às ruas da cidade do Rio de Janeiro. Para a Polícia Militar, foram 50 mil pessoas. É provável que os dois números estejam errados, o que jamais saberemos com certeza. É ainda possível que, se aparadas as divergências internas que começam a brotar e estendido o movimento rumo a uma grande aliança com os trabalhadores e as massas populares, como se aventou na assembleia de ontem, possamos de fato estar no início da Primavera Brasileira.

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