Filho, a água do mundo acabou… e ele acreditou, Papo de pai, por Carlos Wagner

Na contagem regressiva e para além dela

Quando você estiver lendo esta coluna o que vou contar já vai ter passado, mas gostaria de contar a sensação de um pai que vai ver o filho entrar pela terceira vez no bloco cirúrgico. Se considerarmos que o João daqui a poucos meses completa 6 anos, a média é de uma cirurgia a cada dois anos.

O dia 02/07/13 começa muito tempo antes. Ainda quando o João era bebê. Em nossa primeira consulta com o ortopedista já nos foi colocada a possibilidade daquele pequeno indivíduo passar por diversos procedimentos ortopédicos ao longo da vida. E ortopedista, você sabe, usa serrote e martelo, rs!

Além do ortopedista tínhamos o neurologista (dos melhores médicos que fomos até hoje) que dizia que tínhamos que esperar o tempo passar para ver os desdobramentos da lesão cerebral. Possíveis cirurgias podiam vir a ocorrer. A pediatra à época lembrava que se as duas hérnias que o João tinha, não “se resolvessem”, teria que operar. Além das operações havia a possibilidade de problemas no fígado, nos rins, no estômago, no pulmão, etc, etc, etc. Quem em sã consciência sobreviveria a todos os possíveis diagnósticos e possibilidades futuras? Ainda bem que a sanidade mental naquele momento era tão frágil que qualquer sorriso entre tantas possibilidades era um alento.

Pois bem, a primeira cirurgia do João veio. Se não me engano aos três anos de idade. E era uma cirurgia ortopédica. Os adutores e outros músculos próximos à virilha estavam muito encurtados e precisavam ser “alongados”. O ortopedista à época, um atleticano de boa conduta, nos explicou que era um procedimento rápido, que o João não ia sentir dor, pois a anestesia era geral e que a entrada para o bloco cirúrgico não seria traumática para ele, uma vez que antes de entrar seria dado um xarope que provocaria uma espécie de amnésia. A cirurgia foi de fato rápida e no mesmo dia fomos embora para casa.

Mas eu tive que mentir para o João. Não, não menti sobre a cirurgia, muito pelo contrário expliquei tim-tim por tim-tim o que iria ocorrer. Menti para ele porque o plano de saúde não cumpriu com a parte dele. Me enviou uma mensagem confirmado a autorização do  procedimento, mas na hora da internação só havia liberado uma parte do procedimento. Uma cirurgia que estava marcada para as 7h da manhã só aconteceu às 13h. Imagina só, João já há 12h de jejum absoluto para uma cirurgia às 7h e teve que prolongar esse jejum até as 13h. Melhor 17h, horário em que saiu do bloco cirúrgico para o quarto. A mentira está no dialogo abaixo:

– Mamãe, eu quero água!!!!!

A minha companheira olha pra mim, com o olhar de desespero.

Eu digo:

– Filho a água do mundo acabou, agora só de noite, depois que chover.

E ele acreditou!!!!!!

Fiz mais de 20 ligações para a central do plano de saúde, diziam que o que o médico pediu não era protocolo da instituição e que era necessária a justificativa médica. Protocolei a justificativa e nada saia do lugar. Então eu perguntava

– Por que me deram a autorização sem dizer que ela era parcial? Fiz tudo com 15 dias de antecedência e quem estava sofrendo era uma criança de 3 anos. A resposta recebida era clara e de conhecimento publico: “estaremos vendo o que poderemos estar fazendo, senhor”. Só resolvemos o imbróglio na hora em que eu disse a atendente que iria à central de atendimento com a polícia e que eu ia aprontar um barraco para entrar na história. Neste momento o hospital que até então se furtava a intermediar o litígio, assumiu o controle da situação e em 15 minutos todos os procedimentos estavam autorizados. Logo em seguida o João entrou para o bloco cirúrgico e tudo ocorreu bem. Ainda bem!!!!

A cirurgia que o João vai passar e/ou outras que poderão ocorrer no futuro me preocupam, mas o que mais me desestabiliza é a incompetência com que socialmente lidamos com a existência do outro. A existência de pessoas e situações miseráveis e que ainda encontram lugar para mais miséria. É insustentável a nobreza humana quando a opressão nos desumaniza, quando somos apenas números e valores. Carnes a serem desossadas, sangue para ser sugado.

Enfim, a cirurgia que o João vai fazer é de grande tamanho, bacia, joelho e pés. É uma luta diária junto ao nosso organismo e contra a medicalização da vida, mas a luta fundamental é a de garantias por direitos e deveres efetivamente humanos. Do mundo publico ao mundo privado e do privado ao mundo publico. E assim será!

PS: a cirurgia de ocorreu bem, já estamos em casa e o João assustado com as polainas de uso em tempo integral e com as novas possibilidades que se abrem.

* Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. Ele também é pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em www.tudobemserdiferente.com

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