Imagens da natureza feitas por alunos com síndrome de Down

Alunos com síndrome de Down se expressam através da arte

THIAGO ANDRADE
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Foto: Álvaro Rezende / Correio do Estado
Alunos participam de primeira aula prática de fotografia no Horto Florestal

Fonte Correio do Estado

Sob o sol quente da primavera, 12 alunos da Sociedade Educacional Juliano Varela, devidamente uniformizados e empunhando câmeras digitais portáteis e celulares seguiram para o Horto Florestal. A pé, eles foram do prédio da instituição, no número 6.513 da Avenida Noroeste, para o parque. Uma aula diferente os esperava. Todos do quinto ano, eles foram até o local colocar em prática o que aprenderam na semana passada, quando teve início a oficina de fotografia da escola. Idealizada pelo fotógrafo Bruno Rezende e pelo professor de artes e expressão corporal Marcos Varela, a aula ao ar livre foi a primeira de uma série. O quadro negro foi substituído pelas paisagens verde do Horto, com suas flores e insetos.
“São pessoas com uma sensibilidade artística latente. Com o impulso correto, eles produzem trabalhos muito bonitos. Foi com esse intuito que surgiu a oficina, que passa a integrar o currículo da escola”, explica o professor. Segundo ele, na primeira aula, os alunos aprenderam o básico sobre fotografia e, ontem, tiveram a primeira oportunidade de colocar em prática as novas habilidades.

O resultado das aulas semanais poderá ser visto por todo o público no dia 30 de setembro, no Centro de Convenções Rubens Gil de Camilo. Segundo a diretora da escola, Rosely Gayoso, as fotografias feitas pelos alunos ficarão expostas na entrada do prédio. “É uma maneira de conhecer o que eles percebem como belo e, assim, vamos entendendo o que há de igual e de diferente entre nós”, considera. Com diversas atividades extra-curriculares, a Juliano Varela oferece educação complementar a pessoas portadoras de Síndrome de Down. Desde estimulação precoce para recém-nascidos a aulas de futsal e volei, o currículo estimula diversas aptidões. Nas aulas de fotografia, explicam os professores, o objetivo é familiarizar os jovens com os aparelhos fotográficos, com as técnicas e sensibilizar o olhar. “Nas aulas, nós percebemos que eles tem uma vontade muito grande de se expressar”, explica Marcos. Logo que chegaram os alunos já se mostravam empolgados para fazer fotografias. Em poucos minutos, já desobedeciam as dicas dos mentores. “O que foi que dissemos na sala? Antes de fotografar, vocês têm que olhar e pensar como fazer a melhor imagem”, explicavam. Porém, a turma estava mais preocupada com a diversão.

Após tirarem fotos uns dos outros, os alunos foram chamados pelos professores para definir como funcionaria a aula. Dividiram-se em dois grupos e partiram para explorar as trilhas do Horto Florestal. No caminho, bastava que um se interessasse por uma flor, um arbusto ou uma teia de aranhas, para que todo o grupo o seguisse. Entre os fotógrafos, alguns se mostravam mais animados, como foi o caso de Igor Cesar, de 16 anos. “Têm ótimos lugares para fazer fotos. Ali na ponte ou na pista de skate. A gente até perguntou para os skatistas se a gente poderia fazer umas fotos deles. Eles deixaram”, Os traços característicos de um típico portador da síndroma são atenuados na face do adolescente. Isso se deve ao fato de que ele faz parte de uma minoria que apresenta cópias distintas do material genético de um mesmo zigoto. A isso se dá o nome de mosaicismo.

Enquanto alunos fotografavam e professores explicavam como fazer uma ou outra foto, assim como controlavam o rodízio das câmeras entre quem não as levou, três acadêmicos do curso de Artes Cênicas e Dança da UEMS tomavam notas. Eram estagiários que acompanharão atividades na escola. Nayandre Loubet, de 21 anos, preenchera uma página do caderno anotando o que observava. “Hoje é o meu primeiro dia. É fascinante perceber a dedicação de cada um deles”, explica a acadêmica. Segundo ela, esse tipo de atividade não é comum em outras escolas públicas da Capital. “E aqui, além de fotografia, eles tem aulas de dança, criação de bijuterias, capoeira. É uma riqueza educacional bastante rara. O melhor é ver como eles aproveitam”, argumenta Nayandre. Assim, aos poucos, se percebe o quanto se pode aprender com a diversidade que existe por ai.

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