História de amor, adoção, preconceito e racismo

Por Luciana Rocha, jornalista

Eu não estou aqui para escrever sobre o amor que sinto pela minha filha. Nem para descrever como é bom ser mãe e, sobretudo, mãe da Beatriz. Isso, claro, move minha vida.

Mas hoje, venho aqui para falar sobre o tal do PRECONCEITO que senti e sinto até hoje por ser mãe adotiva.

Sempre quis ser mãe e meus planos eram nesta ordem: primeiro filho biológico e depois adotar. Mas por obra e graça de Deus, Beatriz veio primeiro. Linda, saudável, com um sorriso encantador. Sim, no primeiro contato, ela já sorriu prá mim e, imediatamente, a peguei no colo e não larguei mais. Isso foi no dia 26 de junho de 2011.

Quando a peguei, passei em uma drogaria, pois tinha que comprar coisas de bebê, pois não estava devidamente preparada. A balconista fala: “é sua filha? É tão moreninha…”

E daí? “Meu avô era negro”, fiquei pensando!

E isso sempre acontece. Um “desavisado” chega e fala: “ela é tão moreninha, deve ter puxado o pai!” Normalmente, eu sorrio e falo: “sim, puxou o pai”. Algumas vezes, falo que “puxou o meu pai” e prossigo, pois a vida continua!

Sou mãe e pai da Beatriz. Assumi a maternidade por completo. E lá vem mais frases: “nossa, você tão independente, pode sair para onde quiser, tem seu dinheiro, tem sua vida, foi “criar” filho dos outros?” Aí falo, delicadamente: “bem lá em casa, a gente cria cachorro. Essa é minha filha”. E, sinceramente, se a vida for isso, olhar para o próprio umbigo, para nossos caprichos, acho que eu vivo em outro mundo.

E tem outros que me apresentam assim: “essa é a Luciana e a menina que ela adotou ou, pior ainda, que ela pegou para criar!” Fico sem reação e, quando considero muito a pessoa, deixo passar uns dias e falo que isso não é legal. Agora outras pessoas eu simplesmente cortei o contato…. fazer o que, né? Bola prá frente…

E recebi e recebo muitos adjetivos por ser mãe: “caridosa”, “boa”, “doida”, “doida demais”., “bondosa”, “corajosa”. Esse último, prá mim, é o pior de todos! É preciso coragem para amar? Acho que não. Para amar é preciso vontade. Como diz o querido padre Gilson de Oliveira, “ninguém dá o que não tem”.

Fora isso, já ouvi pessoas dizendo que “eu me acho boa, por ter adotado” ou então que eu “quero aparecer para os outros, para a sociedade”…. é tanta coisa que se ouve! Ah! Especularam sobre minha saúde, idade e até minha sexualidade. Sou hetero e quis ser mãe do coração, qual o problema nisso?

O que eu acho, sinceramente, é que as pessoas não entendem o significado da palavra AMOR. Muitas não sabem o que é amar, ser amada, ser feliz, ter sua vida mudada em função deste sentimento que, para mim, move tudo, move o mundo, transforma realidades.

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