“Não carrego comigo o mito da mãe”, Érika Foureaux, presidente do Instituto Noisinho da Silva, mãe de uma garota com deficiência

Érika Foureaux, a partir de sua experiência com a filha criou a ong Noisinho da Silva, que trabalha com design inclusivo.

O Noisinho da Silva é organização não governamental sem fins lucrativos, de caráter educacional, cultural, social e técnico-científico, que trabalha a inclusão social da criança portadora de dEFICIÊNCIA física, desenvolvendo projetos na área do design universal e atividades educacionais, culturais e assistenciais, conscientizando a sociedade sobre a importância destes projetos no processo de inclusão social e, sobretudo, na melhoria da qualidade de vida dessas crianças, promovendo acessibilidade, autonomia e independência nos ambientes frequentados por elas. Cria objetos adequados ao ambiente, às necessidades, à função e à comunidade.

Tudo Bem Ser Diferente convidou a Érika para um bate-papo sobre ser mãe, inclusão, preconceito e educação. Érika nos traz questões importantes e muito instigantes! Vale a pena conferir!

Você se considera uma mãe especial? 

Não acho que eu seja diferente na essência. Acredito é que existam maneiras de ver as coisas e de enfrentá-las. Considero-me menos míope para com a vida, consigo vê-la em perspectiva. Não carrego comigo o mito mãe perfeita, sou gente e não tenho a menor vocação para santa, isto faz com eu erre demais quanto pessoa – mãe mas me faz crescer, mesmo que sendo um processo dolorido. Conclusão: uma mãe como a maioria.

Quais são os principais prazeres nessa relação com o filho?

O convivo. A escuta. O aprendizado. A busca incansável por perguntas que nos encorajem, que nos desafiem, que nos unam.

 Quais as dificuldades?

Educar sem duvida é o meu maior desafio. É chato demais falar a mesma coisa mil vezes, se ver transformada numa mistura de governanta / coronel, recheada de afeto por vezes contraditórios, e ainda assim continuar. Ir a escola, falar e fazer, desfazer e calar. Êita dificuldade que não acaba mais.

 Já enfrentou ou enfrenta preconceito? O que há incomoda?

 Enfrento preconceitos sempre, desde sempre. Por ter sido mãe cedo. Por ser mãe só de meninas. Por ter escolhido ter 3 filhas. Por ter uma filha dEFICIENTE fisica. Por ser ONGuista. Por criar, por falar demais, por ter tempo de menos. Pode escolher…

 Qual o momento mais difícil enfrentado por mãe e filha?

O nascimento, a descoberta dos limites, das diferenças. O desejo de fazer diferente ao meu modo, ao seu gosto.

Quando bebe, os tratamentos. Na infância, os tratamentos, a escola e os amigos. Durante a adolescência os tratamentos, a escola, os amigos e elas mesmas. Agora, na idade de jovens adultas, os tratamentos, a faculdade, os amigos, os amores, as perspectivas de vida independente e autônoma.

Como conciliar todos estes pontos? Como equilibrá-los? O que é prioridade para você e, agora, é diferente para elas? O que fazer com estes indivíduos que são pedacinhos de você mas que devem ir alçar seus próprios vôos?

Hoje é o momento mais difícil que enfrentamos.

 O que considera educação inclusiva?

 Diferentemente de alguns anos atrás, hoje eu focaria no ganho do conhecimento e a qualidade deste. Ganho real, mensurável, não descartável. Inclusão escolar é aceitar as diferenças, é oferecer diferentes perspectivas para uma vida independente, plena. É buscar junto. É unir mas é também separar.É revelar.

 Por que decidiu criar o Instituto Noisinho da Silva?

 Porque não criar o Noisinho? Porque não se arriscar na busca por soluções que favorecessem o maior numero de famílias possível?  Que inventasse uma nova maneira de se relacionar com a dEficiencia, com seus equipamentos os transformando em objetos de desejo, lindos, viáveis e funcionais? Em objetos de transformação social?

Porque não nos arrisquemos todos pais, filhos, familiares e amigos na busca por soluções quando encontramos um problema que é maior que o nosso umbigo?

O Noisinho é uma resposta que junto a uma equipe, com base em muito trabalho e persistência tem dado certo. Compreenda dar certo por promover mudanças positivas por onde passa.

Acredite, é bem menos arriscado empreender uma vida em sonhos do que em empregos que não geram nada alem de receita 😉

Qual a importância do instituto e o que mudou para você e para outras mães após a sua criação?

 A diferença para mim foi um novo sentido, um novo horizonte, a chance de conhecer todas as pessoas maravilhosas que conheci, de aprender, de compartilhar emoções – de todas as cores! O Noisinho é fonte de motivação, o tempo todo.

Ha também os dias difíceis que são a maior parte, no entanto, eles são compensados pelos resultados, reconhecimentos e apoio que encontramos sempre.

 Uma palavra de mãe especial para todas as mães?

Fiquem atentas a seu instinto. Não se conforme com o que foi dito ou imposto. Ouçam o que seus filhos querem. Observem. Depois o verbo de ordem é AGIR e ainda mais importante é ensiná-los a agir.

Frente ao maior problema, não se desesperem de vez, dividam não só suas soluções mas seus problemas, estamos todas aqui é só chamar.

 

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