O pai é mesmo um zero à esquerda nos cuidados com o filho? Papo de pai, por Carlos Wagner

Para continuar manifestando nosso descontentamento e nossas conquistas

Carlos Wagner

Quem leu o post “na contagem regressiva e para além dela” sabe que na semana passada o João passou por uma cirurgia daquelas. Fez alongamento do quadril, dos joelhos e dos pés. Foram 4 horas esperando para a cirurgia começar, duas horas de procedimentos e ao final do mesmo dia (eu nem acreditava) já estávamos de alta do hospital. O João vai bem, sua recuperação exige uma atenção maior do que nas outras cirurgias e envolve o uso de imobilizadores. É impressionante como ele é boa gente, se fosse eu naquela situação já estaria dando chilique. E todas as reclamações que ele tem apresentado são legitimas e objetivamente detectáveis. Em alguns momentos dores nos lugares de corte e em outros momentos dores do medo de sentir dor. Uma criança com 5 anos que já passou pelo que ele já passou tem todo o direito de sentir medo de sentir dor. Enfim, vamos recuperando dia a dia, para podermos ter vida normal novamente.

Muitos de meus amigos têm dito que as manifestações que ocorrem no Brasil por esses dias são muito difusas e que são obra de uma baderna mental da sociedade brasileira. Deixo-os com sua cara de casmurro e vou para o desbunde carnavalesco que exige melhor condição de vida para cada um de nós. O meu foco não poderia ser outro que não a luta pelo fim das desigualdades sociais e pela hospitalidade ao diferente. Coisas que na maioria das vezes são conquistadas nas ruas, na pressão exercida pelo instituinte sobre o instituído.

Na linha que quero argumentar li texto de Regina Helena Alves Silva no BH da Meninada. Se bem compreendi o argumento da autora a manifestação essencial ali é sobre a possibilidade de vivermos nossa cidade de forma cidadã e digna. Minha questão aqui neste texto também passa por essa possibilidade, mas não pelo olhar do meu filho e outras crianças, mas especialmente pela dignidade da paternidade.

Desde a adolescência tenho sincera dúvida sobre o significado de masculinidade que se encontra arbitrariamente ligado ao homem. Sempre tive problemas com as definições de masculinidades que me foram apresentadas. Elas sempre me pareceram uma mistura de atraso social, com descontrole emocional. Ser homem, portanto, masculino, é ter ênfase na agressividade frente aos demais, é agir por impulso, ser filho próprio da natureza e que foi desvirtuado por Eva. Nunca consegui abarcar esse projeto de masculinidade em sua totalidade. Acostumei-me a valorizar mais o cuidado do que a agressividade, a agir com mais reflexividade do que por instinto, a valorizar uma forma cultural mais hospitaleira do que aquela que procura pela competição declarada. E dessa forma me tornei pai do João.

Só que socialmente sou pai, assim, sou zero à esquerda no que se refere aos cuidados do João. Sou pai apenas quando o João entende o que é futebol, sou pai apenas quando o João prefere o Vetel ao Massa na Fórmula 1, sou pai apenas quando o João solta um daqueles palavrões “cabeludos” no contexto correto. Porem sou um zero à esquerda, na maioria das vezes, quando a única coisa que pretendo é executar o papel de pai que cuida de seu filho. Vou contar algumas situações.

a)     Na véspera de um natal procurava um triciclo para o João. Após uma sessão de fisioterapia fui a uma loja de brinquedos para ver se o triciclo que gostei acomodaria adequadamente ele. O João se irritou quando o coloquei no triciclo – normalmente ele entende a novidade como uma grande ameaça – e começou a chorar. Contornei a situação e vi que aquele era o triciclo que há muito procurava. Disse à vendedora que voltaria depois com minha esposa para que ela também aprovasse o triciclo. Qual foi a resposta da vendedora: “que bom, com a mãe ele fica mais calmo, se sente mais seguro”. Fiquei possesso por dentro, quase mandei a vendedora às favas.

b)    Depois de uma noite de febre alta levamos o João a um pronto-atendimento e ao sermos atendidos, na anamnese médica respondi a todas as perguntas; o que o médico refazia pedindo a confirmação da mãe. Era como se eu fosse um ser incapacitado em dar respostas sobre a condição do meu filho por ser homem. Mal sabe ele que quem cuida do dia a dia do João sou eu.

c)     No dia 02/07, quando a cirurgia acabou e a secretária do bloco chamou o responsável para ficar com o João na sala de recuperação, não se disse: “responsável por João”. A secretária disse: “mãe do João”. Mais uma vez, eu que estava ali junto com minha companheira à espera do João acordar da anestesia, fui preterido e colocado para escanteio.

É significativo que nossa legislação já tenha evoluído bastante no reconhecimento do poder familiar sobre o pátrio poder, mas é mais significativo como as instituições e pessoas ainda operam na lógica do pátrio poder. Ou seja, lugar da mãe é no cuidado com a criança e do pai, no sustento do lar, nas 44 horas semanais de trabalho. Sem tempo algum para criar um vinculo para além do gosto pelo futebol com o seu filho. Sou como minha companheira, legitimo e legalmente detentor do direito ao cuidado do meu filho, mas cuidado no pátrio poder, significa ensinar a ser homem, masculino, heterossexual, agressivo… É assim que muitos ainda querem que as coisas continuem. Como diria Bourdieu, estruturas estruturadas geram estruturas estruturantes, ou seja, a lógica da reprodução das desigualdades tende a permanecer na reprodução das desigualdades. Nesse caso, é necessária uma pauta de reivindicações de pais para desorganização dessa reprodução das desigualdades. Entre elas, compreendo a necessidade da redução da jornada de trabalho, a licença paternidade de ao menos um mês, a construção de protocolos de atendimento ao publico e o treinamento daqueles que devem fazer seu uso para que considerem o pai e a mãe em igualdade de condição no cuidado cotidiano do filho. Em suma, como ninguém nasce com os genes da maternidade ou da paternidade, é bom que aprendamos ambos, para podermos executar aquele que é necessário no momento preciso.

 

* Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em www.tudobemserdiferente.com

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