Ensino de Libras e inclusão social

Paulistinha02O ensino da língua brasileira de sinais para crianças ouvintes como segunda língua e fator possível de inclusão social.

 

Por Maria Cristina Iglesias Roa*, especial para Tudo Bem Ser Diferente 

Já está bem documentada na literatura a importância da aprendizagem de uma segunda língua na infância. Mas, realmente não vemos a língua de sinais como uma segunda opção na infância para crianças ouvintes.

As pesquisas internacionais trazem resultados bastante positivos para crianças que aprendem a língua de sinais como segunda língua. Quanto antes se inicie este aprendizado, melhores serão os benefícios: como ajuda no desenvolvimento cognitivo, melhora da atenção, na concentração, facilita a alfabetização, desenvolvem os dois lados do cérebro, uma vez que recebe a imagem por um lado e processa pelo outro, etc. A língua de sinais ajuda a comunicação das crianças que ainda não aprenderam a falar, os sinais são uma ótima opção para os pais e professores.

Acredito que precisamos falar de inclusão nos primeiros anos de vida para evitar falar dela no futuro como forma de superar o desconhecimento e/ou preconceito. Nessa direção, fiz um projeto de mestrado para ensinar a língua brasileira de sinais para crianças ouvintes, como segunda língua.

O projeto durou 01 ano. Foi realizado com crianças da educação infantil, de uma escola para filhos de funcionários da Universidade Federal de São Paulo. Participaram do projeto cerca de 20 crianças com idades de 6 a 7 anos, todas as ouvintes e filhos de pais ouvintes.  Eles tinham aula uma vez por semana, com duração de 1 hora. No total foram 25 aulas.

Nas atividades utilizaram-se diferentes estratégias de ensino/aprendizagem e recursos didáticos Os alunos tiveram aulas com duas professoras surdas, oralizadas* e, uma assistente de classe, neste caso, eu como pesquisadora.

Todas as aulas foram filmadas e os alunos foram avaliados com testes orais e escritos no meio e no final do curso. Os alunos também puderam avaliar o curso e mostrar o que mais lhes agradava ou não. Os pais também foram ouvidos.

As crianças tiveram momentos de sensibilização para outras deficiências, o que foi bastante produtivo para conscientizá-los sobre as diferenças e de que é legal ser diferente.  Como a instituição onde as aulas foram ministradas não era uma instituição inclusiva, tivemos o cuidado de também mostrar aos alunos seus colegas com deficiência, através de fotos, imagens, vídeos e livros. Como exemplo, houve uma atividade de sala de aula, atividade esta desenvolvida pela Fundação Dorina Novill, aula em que vendamos os olhos das crianças, para que eles pudessem sentir como é o não enxergar. Foi bastante interessante e prazeroso para eles. Também, assistiram a filmes com histórias infantis em Libras e depois tentavam reproduzir a estória em libras para os colegas.

As crianças mostraram-se muito receptivas e motivadas para aprender Libras, uma língua tão diferente e a que não estavam acostumadas. Compreenderam que para falar com colega surdo eles precisam usar os sinais e não gritar ou falar alto. De acordo com os pais, as crianças já conseguiam reconhecer seus pares surdos ou deficientes fora da escola, bem como praticam as libras em casa até mesmo com as bonecas.

Apesar da carga horária reduzida, a maioria delas conseguiu sair-se bem referente ás perguntas relacionada ao conteúdo ministrado durante o ano letivo. Foram capazes de sinalizar seus nomes, nomes de batismo, cores, números, etc.

Embora não tenham adquirido uma completa habilidade em Libras, entenderam o significado de estudar a língua de sinais brasileira para se comunicar com um par surdo e adquiriram um olhar para as deficiências. Pais e profissionais afirmaram a importância desse aprendizado, tendo em vista a inclusão e a aceitação das diferenças.

 

Como produto deste projeto foi elaborado um Manual com o passo a passo de todas as atividades e das provas aplicadas aos alunos, que espero poder contribuir na divulgação da Língua de Sinais Brasileira como fator de inclusão.

  •  Surdos oralizados são surdos congênitos ou adquiridos que utilizam qualquer língua oral para se comunicar, na modalidade oral, orofacial, também denominada de leitura labial e/ou leitura e escrita.(WIKIpédia)

*Autora e pesquisadora: Maria Cristina Iglesias Roa

Orientadora: Profa. Dra. Maria Cecília Sonzogno

Instituição: Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP

Email: cristina.iglesias@unifesp.br

Facebook: Maria Cristina Iglesias Roa

Fone: 11 9 92427693 – 5576.4874 R: 1587

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