Violência – A perda da Infância

Por Gazeta de São João del-Rei 

Era uma vez um menino que ficou cego de um olho. A deficiência poderia ter sido causada por uma doença, mas não: o que fez o menino perder a visão foi uma surra que levou do pai com um chicote de cavalo. Durante a violência, uma ponta de metal do objeto acertou o olho da criança e a deixou cega. Histórias como essa, que passam longe de ter um final feliz, são mais comuns do que se pensa. Esse caso é apenas um exemplo das situações de violência contra crianças e adolescentes que chegam às mãos dos conselheiros tutelares de São João del-Rei.

Crianças ainda sofrem maus tratos - Foto: Internet / Divulgação

Crianças ainda sofrem maus tratos – Foto: Internet / Divulgação

Em todo o ano de 2012, o Conselho Tutelar são-joanense registrou 2.001 casos, sendo 1.042 de janeiro a junho. Em 2013, nos seis primeiros meses do ano, esse número caiu para 708. “Recebemos denúncias que dizem respeito a mães que saem e deixam os filhos sozinhos, a falta de higiene, abandono intelectual, abuso sexual e agressões, entre outros”, disse a presidente da entidade, Telma Valéria de Paula.

A atribuição do conselheiro é proteger crianças em situação de risco e que têm seus direitos violados. “As pessoas confundem com os atos infracionais. Nesses casos, só atuamos quando a criança não tem ninguém por ela, porque a responsabilidade é primeiramente da família de acolher esse menor. Temos visto muitos envolvidos em casos infracionais e os pais  ignorando isso; as famílias se recusando a acolher. Aí muitas vezes somos obrigados a fazer um boletim de ocorrências contra a família por omissão e abandono. A polícia é acionada para registrar o fato, procura a família e depois o conselho”, contou Telma. Ela lembrou ainda que muitas vezes a criança se torna fruto do meio onde vive. Por isso o comportamento dos pais é relevante. Isso porque uma vez que a estrutura familiar está abalada isso reflete nos filhos.

“Às vezes os pais têm a preocupação de corrigir batendo e não deixar marcas porque o espancamento é crime. O conselho não proíbe o pai de corrigir o filho. Há várias formas de se fazer isso, como cortando o uso do computador ou colocando de castigo”, disse a presidente do conselho, lembrando que a violência não deve começar dentro de casa. Ela destacou ainda a questão da globalização e da correria em que se vive atualmente. “Os pais não estão conseguindo colocar limites nos filhos. Eles estão preocupados em trabalhar o dia todo para sustentar e acham que dando coisas materiais vão suprir a ausência, mas o que a criança precisa muitas vezes é de carinho”.

Denúncias
Qualquer pessoa pode denunciar casos de agressão à criança e adolescente. Quem quiser, pode fazer isso anonimamente. “Aqui recebemos tudo quanto é forma de denúncia. Desde carta anônima pelo correio até recados, e-mails a ligações. Nosso telefone é o (0**32) 3373-4319. Funcionamos das 7h às 17h direto, sem fechar para o almoço. A partir das 17h, entra o sistema de plantão pelo telefone (0**32) 9949-3633. A pessoa pode ligar e pedir para não ser identificada”, ressaltou a presidente do Conselho Tutelar. Segundo ela, outra forma de fazer com que o caso chegue à entidade é através do Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração contra Crianças e Adolescentes, o Disque 100. “A sociedade tem que entender que o menor está em risco e que, por medo de denunciar ou mesmo comodismo de quem sabe da situação, a criança irá continuar sofrendo”, destacou. O endereço da entidade, que mudou de sede recentemente, é Avenida 8 de Dezembro, nº56, no Centro de São João del-Rei.

Sintomas
Quando a criança sofre violência psicológica, os sinais dificilmente aparecem. “Temos tido muitas denúncias assim. Nesses casos, os pais ou responsáveis agridem com palavras como ‘você é um vagabundo’, ‘eu não te queria’ ou ‘você foi uma gravidez indesejada’, por exemplo. Esse tipo de agressão deixa mais marcas que a física”, disse Telma.

Geralmente o menor ainda é ameaçado pelo agressor, principalmente quando são casos de violência física. “Na maioria dos casos a agressão vem de uma pessoa próxima da criança, que ganha sua confiança e fala coisas como ‘não conta para ninguém’ ou ‘se você contar eu vou fazer isso ou aquilo’”, contou a presidente da entidade.

Ainda segundo ela, é preciso atenção a algumas atitudes do menor. “Ele se mantem retraído, fica no canto, fala em suicídio. Além disso, começa a ter atitudes regressivas, como por exemplo, chupar dedo e fazer xixi na cama”, destacou.

Providências
Quando o Conselho Tutelar recebe uma denúncia, ela é apurada e, quando comprovada são tomadas as devidas providências dependendo do caso. “Quando a criança é vítima de abuso sexual, fazemos o exame de corpo de delito e registramos um boletim de ocorrências depois de constatar o fato. Quando a agressão é psicológica, encaminhamos para um psicólogo”, disse a presidente do conselho. Ela ainda lembrou que independente de quem for o agressor, o pai ou a mãe, a família é que tem que acionar o Judiciário. Caso contrário, o Conselho Tutelar entra a favor do menor.

 

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