Todo dia é dia do homem, Papo de Pai, Carlos Wagner Jota Guedes

Queria abordar na coluna de hoje algumas experiências que passamos pela reabilitação do João, mas de última hora decidi mudar o tema. Achei que mais importante que falar de reabilitação, entre outras coisas, era falar do dia do homem, comemorado neste último dia 15 de Julho. Nunca soube desta comemoração até ter no meu facebook inúmeras postagens sobre o assunto. A maior parte querendo saber do que se tratava esse tal dia do homem.

No Wikipédia tem explicação, em outros também, alguns convergem, outros divergem sobre a origem do dia. Arbitrariamente comprei dois motivos que acredito ser algo de merecimento para se comemorar num dia como esse. De um lado, o dia de lembrar ao homem da importância de cuidar de sua saúde. Do outro lado, descrito por Leonardo Sakamoto em seu blogue, no texto, “Dia do homem: hora de queimar cueca em praça pública”.

Há algum tempo o Ministério da Saúde tem procurado estabelecer na rotina dos serviços de saúde aquilo que se convencionou chamar de saúde do homem. No site do Ministério existe um link para o tema http://portal.saude.gov.br/portal/saude/area.cfm?id_area=1623. Tacada inteligente esta. Pois se por um acaso demográfico nascem pau a pau homens e mulheres, a vida vai mostrando que nós homens morremos mais cedo do que elas e por motivos dos mais variados. Entre eles o fato de que não cuidamos de nossa saúde. Ao contrário delas que tem de forma crescente a presença de ginecologistas, poucos somos o que fazemos acompanhamentos com urologistas, proctologistas, o que dirá do andrologista. No site do meu plano de saúde nem tem essa última especialidade.

Desde os 15 anos estou acima do meu peso. Dos 12 aos 21 anos achei que iria morrer num tonel de cerveja, hoje não bebo mais. Fumante entre os 18 e 25. Depois fumador de “se me dão”. Dos 30 até 36 anos, que é minha idade hoje, já tenho um monte de problemas. Fígado com gordura nas alturas, obesidade constatada a olhos vistos, diabetes, apnéia obstrutiva do sono. Um livro de doenças. O pior que a cada novo quadro só me aproximo da morte embora dela queira me afastar. Então o que faz com que quase não mova uma palha para melhorar?

Morremos mais e mais cedo do que as mulheres também por motivo de violência. Violência do trânsito, das ruas, das bebedeiras, na orientação sexual. Só não morremos mais que mulheres no ambiente da casa, nelas os homens são majoritariamente os criminosos. Sociologicamente falando é a própria ordem do discurso do masculino que ceifa milhares de vida de homens e mulheres. Ceifando quando se torna bonito e digno de elogio a bebedeira rotineira, quando escondemos nosso sexo de cuidados mais saudáveis, quando entendemos que a vida familiar é apenas um jogo de status e opressão sobre filh@s e companheir@s. Quando acreditamos que nosso direito violado deve ser retomado em nome da honra e não da justiça.

Neste contexto o título de Sakamoto faz todo sentido: “hora de queimar as cuecas em praça pública”. O que isso significa? Nas palavras dele “já passou da hora de sermos homens e não machos”. Acrescentaria apenas que é necessário também queimarmos nossas cuecas em casa, para que a dicotomia publico x privado deixe de ser tão forte.

No papel de pai essa é uma questão importante para mim. Ensinar o João coisas que não fui capaz de aprender como criança e que hoje me desdobro para me reinventar. Reinventar na saúde e na cidadania. Especialmente reinventar sem que estes dois aspectos sejam antagônicos.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

Anúncios