Dissabores dos cadeirantes

Portadores de necessidades especiais e com dificuldades de locomoção sofrem para ter acesso ao Crer. Dificuldades já começam desde a Avenida Independência

Para caminhar pelas calçadas de Goiânia é preciso ter cautela, principalmente para pessoas com mobilidade reduzida. Dessa forma, a reportagem do Diário da Manhã flagrou, na última sexta-feira, vários empecilhos que têm dificultado o acesso de cadeirantes e transeuntes que recebem tratamento no Centro de Reabilitação e Readaptação Doutor Henrique Santillo (Crer). O motivo é devido às obras de adequação às necessidades de acessibilidade no passeio, realizada pela administração da instituição, na Avenida Vereador José Monteiro, Setor Negrão de Lima.

Para a reportagem do DM, trabalhadores da obra de intervenção da calçada afirmaram que pedestres como idosos, cadeirantes, mães com crianças se arriscam diariamente ao percorrer pelo canto da avenida paralelo à reforma do passeio. A construção teve início na semana passada e tem previsão de perdurar por mais sete dias.

Assim, nesta disputa por espaço na rua, pedestres e pessoas em tratamento no Crer reclamam da dificuldade em transitar pela região e acessar a instituição. É o caso da Maria Francisca Leite, 49, que ao sair do local e não ter por onde passar,  quase foi atingida por um caminhão em marcha à ré que tentava estacionar próximo ao Centro de Readaptação.

“Isso aqui é um perigo para a gente que tem dificuldade de se mover rápido. Eles estão melhorando a calçada, mas a opção de desvio oferecida para sair daqui (Crer) é muito complicada”, diz a cadeirante Maria Francisca, que não estava com acompanhante.

Na saída do Crer, há uma placa indicativa informando o desvio para os transeuntes, mas a 30 metros do local, o que dificulta a visualização das pessoas com mobilidade reduzida após saírem da instituição. Segundo a assessoria de comunicação do Centro de Readaptação, os pacientes que frequentam a reabilitação são todos informados sobre os transtornos e melhores caminhos para transitar ao irem embora ou chegarem ao estabelecimento.

Assessoria disse ainda que a maioria dos pacientes é levada para o Crer em transportes acessíveis, eles não chegam se locomovendo sozinhos ou com ajuda de terceiros. No entanto, a reportagem verificou que pessoas com acessibilidade reduzida saem e chegam à instituição apoiados por familiares ou sós.

A senhora Antônia Barreto da Silva, 67, que sofre de artrose e tem muita dificuldade de locomoção devido à doença degenerativa, trouxe o marido, que é cadeirante, e contou as dificuldades da jornada até o local. “A dificuldade e o problema não é só aqui (no passeio do Crer), mas em muitas calçadas da cidade. Está tudo ruim. Eu tenho artrose e já sofro para andar, meu marido sofreu um AVC em 2001, sempre tenho que trazê-lo aqui na cadeira de roda”, conta.

Dona Antônia diz ainda que as calçadas transitadas para chegar ao Crer são precárias. “Tem dias que falta força para caminhar e empurrar ele (o esposo cadeirante) nessas calçadas estragadas. Ali na porta da Secretaria da Fazenda é mais difícil ainda”, aponta ela, pedindo melhorias também nos passeios de Goiânia.

A reportagem do DM também conversou com pedestres que se arriscam a andar na lateral da rua próximo à calçada. Eles disseram que é mais difícil ter que atravessar a avenida pelo fluxo de veículos, após avistarem as obras no passeio, e preferem caminhar espremidos entre a barreira da construção e os carros. “É um risco e grande, mas acho pior ter que atravessar esta avenida movimentada, por aqui, os motoristas estão me vendo e também a calçada fechada para a gente”, acredita o carpinteiro Manoel da Cruz, 52. Ele ressaltou ainda que a prefeitura poderia fazer um corredor para os transeuntes trafegarem pela rua junto ao passeio.

Segundo Cristiano Prado, engenheiro responsável pela construção da nova calçada, foi feito pedido de alteração no trânsito junto ao órgão competente. “Foi solicitado para a Secretaria Municipal de Trânsito, Transportes e Mobilidade (SMT) pedido de interdição de parte da pista, mas eles disseram que não poderiam fazer intervenção na avenida, devido a via receber grande fluxo de veículos”, afirma.  No entanto, várias ruas de Goiânia estão em obras, e em locais de forte tráfego de carros.

O procurador do Crer, Fabiano Dias, disse que a reforma da calçada é justificável para se adequar às necessidades também dos deficientes visuais, pois a instituição também está se credenciando para atender o público específico. “Está sendo construído ao longo da calçada o piso tátil, uma faixa horizontal que serve de guia para eles chegarem com maior mobilidade e facilidade à instituição”, explica.

No entanto, em Goiânia, apesar das intervenções do poder público, a mobilidade urbana praticamente inexiste. Fato que pode ser visto em todos os bairros e com maior frequência no Centro da Capital. As barreiras que impedem a locomoção de transeuntes e de pessoas com mobilidade reduzida são muitas. Isso não é só nas calçadas que o problema acontece. Atravessar ruas e avenidas usando as faixas de pedestres tem se tornado um perigo constante, às vezes até inviável. Muitos temem ser vítimas de um atropelamento.

Neste contexto, é notório ver cotidianamente a grande maioria dos motoristas e motociclistas faltar com o respeito aos espaços reservados para indivíduos que trafegam a pé e, com isso, aumenta-se as estatísticas por acidentes de trânsito registrados pelos órgãos de segurança de tráfego urbano.

Em nota, a SMT informou que recebeu as reivindicações dos usuários e administradores do Crer e autorizou a realização das obras na calçada, cujo projeto seguirá padrões de acessibilidade. A SMT disse ainda que a administração da instituição é a responsável pela revitalização da calçada, além de conceder o fechamento parcial da mesma durante o período das obras.

Segundo a SMT, representantes do Crer e pacientes apresentaram os pedidos de alterações no trânsito da região em reunião com a equipe do Departamento de Planejamento de Tráfego do órgão. Entretanto, as solicitações estão em fase de análise e estudo pelo departamento, assim como o pedido de instalação de semáforo com sinal sonoro – bip – para deficientes auditivos.

Em relação à fiscalização do tráfego do local, a SMT acrescentou que agentes de trânsito realizam diariamente o monitoramento das vias na região. Mas durante toda a tarde, momento em que a reportagem do DM permaneceu no local, não foi visto nenhum agente do órgão nas mediações. Dessa forma, foi possível verificar carros estacionados na calçada em frente ao Crer, desrespeitando por ignorância a placa de sinalização de proibido estacionar.

Foto: Reprodução

Anúncios