Sou apenas pai, Papo de Pai, Carlos Wagner

João fazendo canguru

João fazendo canguru

“Vivendo e aprendendo a jogar

Vivendo e aprendendo a jogar

Nem sempre ganhando

Nem sempre perdendo

Mas, aprendendo a jogar.”

Guilherme Arantes

 

Àqueles que vêm acompanhando semanalmente a coluna papo de pai, tenho a obrigação de acalmar a ansiedade com notícias da recuperação do João, depois da cirurgia do início do mês. O João está ótimo! Semana passada, foram retirados os pontos de todos os cortes e ele foi liberado para recomeçar a fisioterapia pós-operatória. Três vezes por semana, além dos exercícios aqui em casa. Voltamos também para terapia ocupacional, depois desse mês quase sem nenhum “esforço” funcional, vários progressos regrediram, mas já estão em fase de reconquista. Notícia dada, vamos ao tema de hoje.

Quando o João nasceu eu e minha companheira (ela raramente) participávamos de um grupo de partilha organizado pelo setor de psicologia do CTI. Era momento para desabafarmos, trocarmos experiências, chorarmos, mas, acima de tudo, manter a sanidade. Por várias vezes ouvi de outros pais que nós éramos escolhidos, éramos pais especiais, que Deus dava a cada um a cruz que conseguia carregar. Eu, naquele momento um cético, ficava perguntando para mim mesmo aonde era o cartório para eu declarar minha incapacidade de ser escolhido, de ser pai especial, etc. Não tinha interesse nenhum em ser isso e a única coisa que conseguia entender, se era possível naquelas circunstâncias, era de que a vida a partir dali seria diferente. E como está sendo.

Tenho uma colega de trabalho que, toda vez que falo das dificuldades de ser pai de uma criança deficiente, me lembra de que os pais de crianças típicas também têm suas dificuldades. Isso, sem me alienar da especificidade do caso de ter um filho com paralisia cerebral, me coloca no lugar que quero estar e acho correto estar. O de pai, sem nenhum adjetivo. O de pai que não se reduz à anatomia cerebral de seu filho. De pai que tem expectativas sobre a sua prole e que procura fazer o melhor para ela, nada, além disso. De pai que tem tristeza com atitudes de sua prole e que procura marcar uma suave trilha para que as atitudes fora da expectativa encontrem seu caminho. De pai que se surpreende quando vê seu filho falando de forma elaborada sobre como prefere que o Cuca escale o time do Galo. De pai que se apaixona quando observa que o filho já conhece as letras, os números e as formas. De pai que vai aos concertos da filarmônica de minas gerais com o filho, não porque o pai impôs, mas porque o filho ouve na rádio que tal dia a orquestra vai tocar e ele, com discernimento de vontade diz, eu quero ir, você me leva papai? De pai que tem que aprender a se separar do filho, deixa-lo passar por dificuldades para garantir a ele autonomia e independência.

Da mesma forma que não quero ser um pai especial, não desejo um filho herói. Espero que ele seja capaz de construir sua vida com suas virtudes e vícios (mais virtudes que vícios, é claro!). Que seja antes de tudo lembrado por ser cidadão, como todos os brasileiros devem ser. Boa pessoa de prosa, boa companhia para os amigos, profissional que consiga se realizar.

Estatisticamente sei que a probabilidade dele concluir a educação básica é pequena. Fazer a universidade, um sonho. Conseguir um emprego, bem difícil. Não estou falando do João em si, mas de tantas outras pessoas com deficiência que estão nas estatísticas de baixa escolaridade, baixa remuneração, etc. Assim, aqueles que conseguem superar as barreiras são tidos ou se autodenominam como heróis. Venceram a tudo e a todas as variáveis que pesavam a favor de seu fracasso. É por isso que não sou um pai especial, porque o que faço é nada mais do que aquilo que no meu projeto de pai já era script. Assim, acredito que o João não vai ser herói de nada. Não porque não existam barreiras no meio do seu caminho, mas porque junto com ele estamos (eu e minha companheira) aprendendo a viver.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira emhttp://www.tudobemserdiferente.com

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