Licença, por favor! Ou posso participar? A eterna luta por vaga para criança com deficiência nas escolas, Papo de pai, Carlos Wagner

O texto de hoje é o primeiro de três que tem como tema a questão do quanto o acesso aos direitos, aos espaços, à vida para as crianças com deficiência ainda é importante para um projeto de humanidade que ainda está em debate/disputa. Poderia aqui narrar laudas e mais laudas de exemplos de como isso acontece com o João, e como eu como pai do João observo isso no dia a dia. Vou me fixar em três situações, duas bem próprias ao mundo da criança e outra essencial ao direito de ir e vir. Escola, lazer e acesso aos espaços públicos.

O João faz agora em Setembro 6 anos e já esta na sua terceira escola. Logo que ele completou o primeiro ano de vida a terapeuta ocupacional, a pediatra e a fisioterapeuta pediram que colocássemos o João em um ambiente escolar. Local em que teria estímulos diferenciados e poderia conviver com outras crianças. Eu e minha companheira começamos uma peregrinação por diversas escolas. Aliás, iniciamos a nos perguntar como fazer para abordar a questão da paralisia cerebral e a entrada dele no ambiente escolar. Depois de explicar milhares de vezes sobre a paralisia cerebral para a família esse foi nosso segundo grande problema público. Entre setembro e dezembro visitamos aproximadamente 30 escolas no nosso bairro e nas cercanias da zona oeste de Belo Horizonte. Uma palavra geral: é deplorável o que fazem com nossas crianças em várias escolas. É uma questão de vigilância sanitária, uma questão de abandono de incapaz, de despreparo profissional entre outras. Metade das escolas foram descartadas ora porque continham mofo nas paredes, ora porque um profissional da escola não higienizava-se para colocar as mãos nas mãos do João, ora porque as escolas não eram preparadas para receber pessoas.

As que gostamos, sondávamos sobre a questão da inclusão. Aí começava outra conversa. Todo mundo se diz inclusivo, mas na hora de incluir a maioria criava uma história para não ter que incluir. Ao final decidimos por uma escola tida como referência por vários profissionais da área da educação e profissionais da saúde que nos acompanhavam, com método construtivista e que como único porém pedia que o João naquele primeiro ano ficasse no berçário. Aceitamos a proposta, era a única concreta que tínhamos. No ano seguinte fomos obrigados a abandonar a escola (isso é um eufemismo para exclusão). O João ia para o primeiro maternal, teria uma acompanhante, já estava tudo combinado. Por uma questão de organização dos horários meus e de minha companheira precisávamos que o João ficasse dois dias da semana em horário integral. Eis que ouvimos: “nossa inclusão é só feita na parte da manhã”. Mostramos para a escola os próprios relatórios que ela emitia sobre o comportamento do João, propus que fizéssemos um grupo de trabalho para pensarmos a questão da inclusão na escola, mas a exclusão permaneceu. Como nos foi explicado pela coordenadora pedagógica se fosse o caso de uma criança normal, não teria problema, a escola atenderia ao pedido, mas nosso filho era um diferente.

E assim vem sendo nestes seis anos. Na maioria dos lugares que levamos o João temos que contar a situação antes para ver se vai ser possível frequentar. É como se você tivesse que passar por um vestibular concorrido todos os dias, sabendo que em boa parte das vezes a resposta vai ter que esperar. Ainda bem que nessas férias teve o Festival Saci com suas atividades gratuitas e que só pediam para que estivéssemos lá. Teve cinema. Teve um lindo concerto da Filarmônica. “Lugar” que nestes dois anos que frequentamos nunca encontramos um empecilho de acessibilidade, de mobilidade e sociabilidade, muito pelo contrário. Teve o Festival de Jazz no último domingo em que o barato era ouvir música, fazer o sinal de rock and roll e dançar. O resto mandamos às favas ou estamos na luta para não ter que ficar na eterna fila de espera.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

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