O universo de um homem trans: importante entender, respeitar e ensinar as crianças

João W. Nery: o universo de um homem trans

por Frederico Oliveira / Direitos da Diversidade

Estava eu ansioso por conhecer pessoalmente João W. Nery, um dos palestrantes do II Encontro Estadual da Diversidade Sexual da OAB/SP, evento realizado no dia 08 de junho deste ano no Teatro Gazeta em São Paulo. Assim que ele chegou, fiz questão de apresentar-me a ele, oportunidade em que começamos a ter uma conversa antes do início do evento. Disse, então, que queria ter um entrevista sua publicada em meu blog e ele carinhosamente se prontificou num breve bate-papo ali mesmo na entrada do teatro.

 

João W. Nery, é um homem trans, psicólogo e autor do livro “Viagem Solitária”, uma releitura de sua própria história.

Foi o primeiro transexual masculino no Brasil a se submeter à cirurgia de transgenitalização. Atualmente, João é militante na temática da diversidade sexual, especialmente no que se refere às políticas de identidade de gênero e trangeneridade.

João nasceu em 1950 no Rio de Janeiro, é casado e tem um filho do seu segundo casamento, filho este que não é biológico, mas que assumiu a paternidade, considerando ser afetivamente o pai.

Nascido com órgão sexual feminino, desde a infância já sentia brotar dentro de si a masculinidade. Quando criança era visto como uma “menininha esperta que se comportava como um moleque”, mas que com a adolescência e a chegada da denominada por ele “monstruação” , começou sua batalha contra o seu corpo que depunha aquilo que ele não é.

Segundo ele relata em sua obra, olhar seu corpo no espelho era sentir que a sua alma não se conformava em ter que se expressar por meio daquele “monte de carne, sobre o qual não tinha podido decidir nada”. Segundo João, aquele corpo lhe foi “imposto sem pedir licença, para a forma, para o conteúdo e todos os papéis que, obrigatoriamente carregava junto.”

“A dose foi cavalar. Acompanhando a monstruosidade, os seios insistiam em nascer. Aí foi demais! Como se já não bastasse todos me tratarem no feminino, não entenderem minhas vontades, não poder fazer nada do que os outros meninos faziam, ainda tinha de aguentar o que brotava do corpo, à revelia.” (Viagem Solitária: memórias de um transexual trinta anos depois, p. 47) 

Está em tramitação na Câmara dos Deputados um projeto de lei, de autoria dos deputados federais Jean Wyllys (PSOL/RJ) e Érika Kokay (PT/DF), intitulado Lei João W Nery Lei de Identidade de Gênero em homenagem à história de vida do primeiro transexual homem, projeto de lei que visa garantir reconhecimento e direitos à identidade de gênero, a exemplo da retificação do registro civil, a despatologização da transexualidade e a facilitação do acesso ao processo transexualizador.

A história de João W. Nery serve de exemplo e reflexão para que a nossa sociedade desconstrua a falsa ideia do binarismo heteronormativo da sexualidade, rumo a despatologização da transexualidade, evoluindo no sentido de garantir o direito do indivíduo ser e expressar o que a sua essência o invoca. Essa mudança de paradigma se impõe como a única forma de por fim ao sofrimento, a angústia e a transfobia vividos por esses seres humanos que buscam apenas o direito de serem do jeito que são.

A transexualidade e o processo de transgenitalização

João W Nery “Eu me operei em 1977 numa época da ditadura militar, numa época em que as cirurgias não eram permitidas no Brasil – 20 anos antes. A palavra… quando eu nasci nem existia a palavra transexual então tudo foi muito lento e devagar. 


Desde o início da década de 70 eu já vivia duas identidades diferentes. Já vivia como homem e como mulher, era uma figura androgina. Para os desconhecidos eu era homem e para os conhecidos e no trabalho eu era um andrógino, uma mulher. Em 1977, uma equipe pioneira no RJ, começa a estudar esse assunto [referindo-se à transexualidade] eu me submeto a todos os testes, todos os exames etc. faço terapia e acabo me operando. São várias cirurgias, a primeira é a chamada erroneamente de mastectomia, porque ninguém tira todo o seio. Na verdade é uma cirurgia masculinizadora porque é uma cirurgia de reconstrução que transforma uma mama feminina em uma mama masculina. 


Agora é importante que se diga que a cirurgia não transforma ninguém de mulher pra homem ou de homem pra mulher. A cirurgia, que nem todos os transexuais optam por ela, nem também pela hormonização,  é apenas um processo para readequar e dar mais intelegibilidade social. Você readequa a sua auto-imagem, melhora a sua auto-estima, mas tudo em função de uma exigência social. Eu acho que o grande problema dos transexuais é a transfobia. É o sistema binário heterosexista que não aceita um homem ir de sunga com um peito à praia. Então você tem que tirar os peitos, senão você vai preso. 


A segunda cirurgia é a histerectomia que é a retirada dos órgãos reprodutores internos e que dá um grande alívio porque você para de menstruar. Alíás, você para de menstruar tomando a testosterona. Hoje em dia já se hormoniza antes da cirurgia. Na minha época não, eu me hormonizei depois. Enfim, você entra na menopausa e ao invés de tomar estrogênio você passa a tomar testosterona. 


A terceira cirurgia que é a cirurgia que quase nenhum deles faz que é a faloplastia, a neofaloplastia que no Brasil é considerada experimental, mas só para os trans homens. Para os homens biológicos não são, pois qualquer hospital pode fazer essa faloplastia quando o homem perdeu o pênis, por câncer, diabetes ou acidente ele tem direito a isso e não precisa de laudo psiquiátrico. Agora nós, para mexermos no nosso corpo é um tabu. Qualquer cirurgia que a gente tenha que fazer tem que ter uma autorização, tem que se submeter a dois anos de psicoterapia, porque a transexualidade ainda é considerada uma doença mental. Esse DSM 5  [se referindo a um código do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais] que saiu agora mudando o termo de transtorno para disforia continua sendo considerado uma patologia, porque continua dentro do manual psiquiátrico. 


O único país que realmente despatologizou foi a Argentina e agora o Brasil com a nova proposta de lei do Deputado Jean Wyllys e da Deputada Érika Kokay que é a Lei de Identidade de Gênero[projeto de lei], que por sinal me homenagearam dando o meu nome. Ela realmente é a grande liberdade para os transexuais, porque você não precisa mais entrar na justiça depois de se operar. Aliás você nem precisa se operar, nem se hormonizar pra poder mudar o seu nome e o seu gênero, basta ir em qualquer cartório e fazer isso. Então eu acho fantástico, não precisa de laudos. Os laudos vão pra cucuia porque são todos invenções ditas científicas mas esses protocolos na verdade não se baseiam em nada. Eu não entendo por que que se diagnostica o gênero? É um absurdo isso! Enfim, há uma grande campanha de despatologização internacional onde vários países estão trabalhando para derrubar a transexualidade como patologia.”

A sociedade, a família e o trabalho 

João W Nery A sociedade eu “caguei”, a família, claro quando eu disse que eu ia operar todo mundo entrou em pânico porque nunca ninguém tinha feito isso. Eu fui o primeiro. Nunca ninguém tinha ouvido falar em cirurgia de mudança de sexo pra homem no caso. Mamãe ficou com medo de eu me arrepender, aliás esse é um mito quando se fala em cirurgia de trangenitalização, todo mundo fala que é irreversível, mas daí eu pergunto, qual é a cirurgia que não é irreversível, a exemplo da cirurgia bariátrica. Você tira um rim [se referindo a doação do órgão] e você não precisa de ter nenhum laudo pra fazer essa cirurgia, mas no nosso caso vira um estigma. É um preconceito você alegar: -ah não! -Precisa fazer terapia, é fundamental. Claro que a terapia é interessante, mas acho que muito mais pra cuidar da transfobia que o transexual sofre, do que propriamente dos problemas que ele tem consigo. 


Eu perdi alguns amigos que não conseguiram segurar a peteca. Eu fui obrigado porque eu não podia entrar na justiça pra mudar o meu nome e eu tive que tirar uma outra identidade e com o nome masculino eu perdi todo o meu currículo escolar, eu sou psicólogo, professor universitário e fui exercer outras profissões que não exigiam currículo, mas também com a oportunidade de mudar de profissão, de aprender outras coisas. Mas com isso eu estou desempregado, eu não tenho aposentadoria, eu não tenho nenhum benefício.

A cidadania e o processo de mudança de identidade: uma revolta

João W Nery Me revolta um pouco. Eu acho que o Estado deveria me ressarcir. Eu deveria entrar com um processo na Justiça contra a União pra ser ressarcido desses 35 anos de perda. Um dia talvez eu ainda faça isso. Preciso de um bom advogado. 

 

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Viagem Solitária: memórias de um transexual trinta anos depois

Aproveitei o período de férias para ler o meu livro autografado pelo querido João e fiquei extasiado com a riqueza da narrativa e com os detalhes de sua dramática e corajosa história que, além de retratar a dor de um transexual incompreendido em todos os aspectos, emociona e nos leva a navegar em sua viagem. Essa viagem que ele intitula como viagem solitária precisa mesmo ser transformada em uma viagem solidária, pois, todos nós cidadãos temos que respeitar o gênero que melhor identifica o indivíduo nas suas necessidades diante da sua capacidade de se auto desenvolver e se auto determinar.

Recomendo essa brilhante obra e compartilho com os estimados leitores esse trecho que mais me emocionou: o momento em que João suplica a compreensão de sua mãe na decisão de se submeter à primeira cirurgia para a transgenitalização:

      

 

”   -Mãezinha, estou entendendo…- engoli em seco. -Também sofro em em obrigá-la a passar por tudo isso… Mas é preciso, pelo menos hoje, que tente me ouvir, me compreender, para depois me julgar. Minha vida é um inferno! Sofro como uma desgraçada desde os quatro anos de idade quando comecei a me entender como gente e descobri querer e não poder ser um menino. Naquela época, não questionava nem via claro como hoje. Mas fui percebendo que, quanto mais crescia, mais as coisas pioravam. Nunca me senti mulher nem me adaptei a este corpo… – interrompeu-me, tentando se enganar.    -Mas, minha filha, e o namoro? E quando se pintava para ir ao baile do clube? Chegava até a ficar uma mulher bonita…   Agoniado por ver sua dor e sem conseguir que me entendesse, pela primeira vez, em quase 30 anos, deitei no seu colo. Chorei como um filho desamparado. Alisava minha cabeça, enquanto minha garganta  e minhas narinas se enchiam de angústia. Com esforço, grunhi em espasmos:    -Mãe, eu tentei…Tentei! Não aguentava mais viver assim. Todos me vendo como se fosse um bicho, um monstro. Precisava de carinho, de ser amado. Reconhecer-me…Mas não consegui…   Senti as lágrimas de mamãe pingarem no meu rosto. Levantei-me, então, e saí do seu colo.    Segurei suas mãos e, olhando para o seu rosto todo molhado, supliquei:   – Mãe, essa cirurgia é a minha salvação: Por favor, você é a pessoa que mais me conhece no mundo, me ajude! Confie em mim. Tenho certeza que será uma coisa boa para todos nós. (…)   Dois dias depois, telefonei para Mariana, que me contou que havia posto no correio uma carta de mamãe endereçada ao psiquiatra. Dizia-lhe ter mudado de opinião, estando agora favorável à cirurgia.”  ( p. 180-181)

Após receber o gentil autógrafo e dedicatória de João W Nery,
no II Encontro da Diversidade Sexual da OAB/SP

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