Colados e descolados: a separação de mães e filhos e a luta das crianças com deficiência por uma vaga nas escolas privadas

Por Sônia Pessoa

Está tudo escuro lá fora. Pela janela do ônibus vejo as ruas calmas de Belo Horizonte e vou sonhando, meio acordada meio dormindo, sobre o privilégio que seria morar em uma capital que tivesse trânsito assim em outras horas do dia. São 5 da manhã e sigo para uma viagem de trabalho em Curitiba. Esse texto era para falar sobre a Conferência Brasileira de Mídia Cidadã, onde vou apresentar a experiência com o blog Tudo Bem Ser Diferente e as redes sociais, a troca de experiências e de ideias sobre deficiência como diversidade e não como patologia. Mas como os textos têm vida própria, que o digam os teóricos da textualidade, esse chegou pronto, pelo menos na minha cabeça, ao aeroporto. Bastou entrar no avião e ligar o notebook para ele brotar… e olha que morro de preguiça de escrever em avião. Falo da conferência depois…

No avião gosto mesmo de cochilar e de ficar olhando o céu, observando o formato das nuvens, lendo um romance sem compromisso. Já fui dessas que acha que não pode perder um minuto na vida e que qualquer segundo vai fazer diferença no rendimento do trabalho. Ainda gosto de aproveitar bem os minutos, mas não me sinto mal por ter redirecionado o olhar; acabei encontrando espaços para outros cenários.

Voltando à janela do ônibus, na escuridão que ainda teima em se manter firme, meu pensamento oscila entre a decisão de espichar um pouco mais o sono ou de ligar logo o cérebro e articular o dia de trabalho. Vaguei pelas despedidas da noite anterior. Meu filho, como sempre, pergunta porque não pode ir comigo na viagem, conversa sobre a possibilidade de ter alguém para ficar com ele em Curitiba enquanto trabalho e logo se derrete em muitos beijos e abraços. Vários ‘eu te amo’ prá cá e prá lá, afagos e apertos de bochechas, está feita a despedida, também com muitas juras de bom comportamento, de fazer as atividades pedidas pela professora na escola e aquela listinha básica que eu costumo repassar nessas horas.

Penso na beleza que é ter um filho de sete anos que viaja para a casa da avó sozinho desde os dois anos e que fica bem quando a mãe ou o pai está longe. Parece, intuitivamente, buscar autonomia – é grudado na família mas conhece e lida com a distância temporária. Nesses sete anos e algumas separações por viagens não tenho registro de choro, birra ou problemas por causa da distância.

Dos sentimentos que as mães costumam ter quando viajam e deixam os filhos, me preenche o orgulho. Volto alguns anos e me lembro quando o menino ainda se recuperava das diversas cirurgias cerebrais e eu insistia em ter ajudante e em deixa-lo algumas vezes com outras pessoas da família para que se acostumasse a se sentir bem longe da mãe. Passamos o primeiro ano de vida praticamente grudados por causa das internações constantes, mas a sensação de que é importante dar autonomia à criança me acompanha desde a gravidez. Sempre que posso, apesar de passar muito tempo com o menino até hoje, dou um jeitinho e estimulo as separações.

A saudade virá, com certeza, mas nesse momento é coadjuvante. O personagem principal é a lembrança das viagens que fiz, do trabalho do pai também em viagens constantes e das viagens do menino, que vai traçando o seu próprio caminho. Somos do tipo colados – a gente vive grudado um no outro e paradoxalmente descolados, a gente identifica e respeita a ausência do outro como uma prática necessária para o nosso crescimento e para garantir muitos beijos e ‘eu te amo’ mais no retorno.

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Ainda da janela do ônibus, antes de amanhecer, vejo dias tristes de tantas mães que têm me procurado para relatar a angústia na procura de vagas para filhos com deficiência ou com necessidades educacionais especiais, como preferirem já que a nomenclatura é polêmica. Volto meu olhar para essas mães que enfrentam diariamente a marcação e a desmarcação de reuniões, a desculpa esfarrapada, o sumiço de vagas, a falta de interesse, o descaso, o descuido… enfrentam instituições e pessoas que fecham muitas portas em nome de um preconceito velado, perceptível nas entrelinhas, nas frases incompletas, nas lacunas das perguntas sem resposta. Fecham muitas portas pela falta de conhecimento, pelo medo, pela falta de iniciativa de tentar.

Volto meu olhar para o que me contou uma dessas mães. Uma das garotas adolescentes que precisa de vaga em uma escola particular comentou que tem receio de ir para uma escola onde todos vão olhar para ela. Aquele olhar que ela bem deve conhecer…

A última vez que sai para procurar escola, há dois anos, fui muito mal recebida em uma escola dita inclusiva. Foram marcadas e desmarcadas reuniões, respondidos muitos questionários, feitas várias avaliações e uma demora danada para vir a resposta de que o menino seria ‘aceito’. Todos os procedimentos vêm sempre com a justificativa de ‘qualidade da educação’. E quando a qualidade lá na frente é posta à prova, no cotidiano da sala de aula, a gente percebe que o discurso ainda caminha por vias transversas, distantes e muitas vezes antagônicas às trilhas que os profissionais e as instituições vão constituindo na prática.

Como as instituições são feitas de pessoas, formadas por pessoas e administradas por pessoas e como vão educar pessoas, não vejo outra via: é tempo de vencer a etapa do discurso da aceitação, com todas as dificuldades e os desafios que ela traz para a escola, famílias e estudantes, e passar à etapa do diálogo da inclusão, com seus aprendizados, igualmente desafiadores e difíceis mas não menos humanos e cidadãos. Bem desse jeito, colados e descolados, respeitando o espaço e o tempo de cada um desses pequenos cidadãos que estão em busca do seu próprio lugar no mundo da vida. Muitos deles já têm obstáculos por demais para garantir a vida e a qualidade de vida; a educação não pode ser colocar nessa guerra, ainda que seja item de necessidade básica.

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