O lazer nosso de cada dia, Papo de pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

Na semana passada narrei uma história sobre acesso à direitos a partir da entrada do João no ambiente escolar. Quero abordar hoje a questão do acesso à direitos a partir da participação no lazer.

Honestamente acho que nunca gostei muito de brincar. Quero dizer, brincar desse jeito que parece ser o único de brincar: carrinho, esconde – esconde, aquele sugerido por uma marca de sabão em pó em que a criança aparece imunda ao final do dia. É claro que de quando em vez uma peladinha na rua, uma queimada era uma boa pedida, mas nem sempre. O que reforça a minha tese é a fala de minha mãe que diz constantemente que fui uma criança que ganhava um carrinho hoje, amanhã ele já estava destruído, que gostava mesmo era de conhecer as coisas. Por outro lado, acho que sempre tive imenso prazer em ter momentos de outras formas de lazer na minha infância. Por exemplo, conhecer as equipes e os pilotos de fórmula 1, torcer por Nelson Piquet, saber das coisas do campeão das américas de 2013 e vibrar com o Willy Gonser na Itatiaia, ir ao cinema, ao teatro, ler e ver TV (ainda vi programas de TV na tela preta e branca). Adorava assistir a série sítio do pica-pau amarelo, mas não gostava muito de brincar do que eles brincavam.

Com o João tem acontecido algo muito semelhante, ele prefere “tocar” instrumentos musicais a brincar de carrinho. Ele prefere jogar vídeo game a brincar com bonecos. Jogos de tabuleiro de vez enquanto. Ouvir música sempre, ver jornal de esportes quando dá. Mas diferente de mim que tive escolha por não querer certas brincadeiras o João não tem escolha de certos espaços para brincar. Espaços públicos e privados com equipamentos preparados para receber crianças que usam cadeira de rodas como forma de deslocamento e outras deficiências são difíceis de encontrar.

Ao contrário do que possam imaginar alguns não tenho receio de levar o João a qualquer lugar que julgue oportuno, não tenho medo que outra criança pergunte ao João por que ele não anda? Ou coisas do gênero. Até porque o João responde claramente: “eu não aprendi a andar”.

A primeira questão que difere o mundo das escolhas minhas e do João é que hoje as ruas são feitas exclusivamente para os carros. Talvez sempre tenha sido, mas tínhamos menos carros antes. Assim, brincar na rua, só se for numa rua de lazer organizada por alguma entidade, ou no quarteirão fechado no final de semana. Outra diferença é que o João tem uma agenda fixa de terapias, hoje limitadas há dois dias, mas que já foi de cinco dias. De forma semelhante os filhos do meu vizinho que poderiam ser colegas de brincadeira do João estão com as agendas lotadas de atividades. A maioria delas para ensinar as crianças a brincarem. Ainda neste contexto o primo da mesma idade do João, só recentemente começou a morar em Belo Horizonte, e num bairro “distante” do nosso.

Sabemos que os passeios de nossos bairros são ciladas para qualquer um. Um descuido vem o tombo ou quase tombo. Com a cadeira de rodas andamos muito pela rua e menos pelas calçadas. Além dos problemas de planejamento na confecção das calçadas temos também as lixeiras, as árvores, os postes no meio do caminho, as entradas/saídas de garagens. E rua você sabe, foi feita só para carros. Aqui começa um problema fundamental para a iniciativa ao brincar em espaços públicos. Sair de casa é uma aventura. Em termos da visibilidade da pessoa com deficiência em espaços públicos acho esse um dos elementos mais significativos para o ver e ser visto. Para reconhecer e ser reconhecido. Para trocar diferenças.

Assim surgem os casos:

Quando o João foi levado em 2011 ao parque municipal, que hoje tem playground para quem usa cadeira de rodas, eu e minha companheira tentamos brincar com ele no único brinquedo que lhe interessou, não podia. Como ele tinha um controle de tronco bem fraco sugerimos ao funcionário do parque que deixasse que nós andássemos ao lado do brinquedo para dar segurança ao João. Não podia! Por que? Porque não podia!

Próximo de casa tem duas praças. Uma completamente destruída e outra adotada por uma empresa. Esta foi reformada, tem lugar para alongamentos, lugar para shows e teatro e um pequeno playground, mas não tem um brinquedo para cadeirante. No inicio tinha, mas retiraram. Os brinquedos que lá existem são de escalada, de esticar… Já fomos a outras praças, mas a acessibilidade é pequena. Falta cinto de segurança em alguns brinquedos, mesas para jogos de tabuleiro que possam ser reguladas em altura e inclinação. Entre outras coisas. Praças para nós é sinônimo de teatro e shows.

Até pagando para o João brincar é complicado. Tivemos que recorrer à ouvidoria, à diretoria de um clube para que ele pudesse participar de práticas de iniciação esportiva. Segundo o coordenador na apresentação do projeto inclusão não era problema, mas na hora de concretizar, só na pressão. Para conseguir colônia de férias tem que esperar alguém perguntar para algum superior que responde quando as férias já acabaram.

Ainda bem que o João é bom astral e morre de rir quando digo para ele que os adultos fingem que as crianças cadeirantes não existem. Quando aguardava a resposta do coordenador da iniciação esportiva, disse ao João que o motivo da demora era que o rapaz achava que ele não era capaz de brincar e jogar na cadeira de rodas, o João me respondeu: “é um mané mesmo”!

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

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