Onde estava o meu potinho de ouro, Mamãe Down Up, Ana Flávia Jacques

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Já estava escrito

O lugar era bem escuro e silencioso. Já da porta de entrada só se ouvia o som dos aparelhos e o falar baixo dos médicos e enfermeiras. Por vezes, o silêncio era quebrado por alguma emergência, pela chegada de um novo bebê ou pelo choro aflito de algum pai ou mãe. Assim que a porta se abria já era possível ver os leitos pequenos, ocupados por minúsculos bebês. Claro que por motivos diversos, mas todos com algo em comum: a luta pela sobrevivência. Estávamos na UTI neonatal.

Apesar de a Maria Fernanda ter nascido tão bem, o lugar dela ali já estava reservado e seria mais prudente que ela o ocupasse para que exames detalhados fossem feitos e para a confirmação de que estava tudo realmente bem. As condições clínicas eram boas, mas não poderiam ignorar que se tratava de um bebê cardiopata.

Quando eu entrei ali pela primeira vez não estava bem fisicamente, mas me sentia emocionalmente forte. Ainda um pouco anestesiada e me recuperando do parto cesariano, mal conseguia andar direito. Em uma cadeira de rodas, fui sendo guiada até o leito onde estava o meu potinho de ouro.

Aos poucos nos aproximamos e lá estava ela: linda, cabeluda e rosada. Pequenininha, usava apenas fraldas. Em meio a fios e sondas, reparei bem no rostinho: “é a cara do meu pai”, pensei de imediato. Pedi para tocá-la, mas não podia ainda tê-la em meu colo. Com a permissão, abri a tampa da incubadora e senti a suavidade de sua pele. Passei os dedos pela face redonda com bastante cuidado. Acarinhei seus cabelos e apertei de leve as bochechas. Chorei. A emoção foi muito forte. Foi muito bem vê-la cuidada, em paz, aquecida.

Foi naquela época que algumas palavras entraram de vez para o meu vocabulário: saturação, intercorrência, ultrassom transfontanela, icterícia, entre outras. Mas a mais importante delas eu ainda repetia continuamente: vida!

Saber que passaria por tal experiência me preparou, mas vivenciar a realidade foi completamente diferente. Foi bem difícil e dramático o momento da minha alta. Eu iria embora, e ela não. A sensação de não tê-la nos braços (e nem dentro da barriga) foi absurdamente estranha e vazia.

Intermináveis seis dias para o coração de uma mãe aflita, mas pouco tempo diante do que era esperado. Mais uma previsão errada? Acho que não. Era bastante coerente o que a Medicina previa para ela. Só acho que o plano correto já havia sido escrito. Onde? Vá lá fora e olhe para cima!

“Assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus, que faz todas as coisas.” (Eclesiastes 11:5)

* Ana Flavia Jacques, jornalista e mãe de primeira viagem da Maria Fernanda, a Cerejinha Baby, uma linda e doce garotinha com síndrome de Down.

 

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