Deficiência Física X Deficiência Social

Por: Maria da Conceição Dias Magalhães / Arquitetura e Coeficiente

Professora do Ensino Especializado da Rede Municipal de Belo Horizonte.

Em um cenário de pessoas normais, capazes de ouvir, enxergar, falar e andar naturalmente, formam-se profissionais aptos a projetar espaços para todos, graças as leis de acessibilidade e mobilidade que orientam os projetistas nesta tarefa. Mas esta é uma realidade recente…

Cadeiras de rodas, muletas ou próteses não eram vistas e, portanto, não eram lembradas, estavam acomodadas nas casas de seus usuários que contavam com a ajudacaridosa dos familiares, legitimados como os responsáveis pelo infortúnio do qual a família foi vitimada. Este olhar para as diferenças contribuiu diretamente para o isolamento por décadas das pessoas com deficiência e, em conseqüência, os equívocos e a falta de informação geraram projetos que privilegiavam o aproveitamento máximo dos espaços, em detrimento das necessidades universais da mobilidade.

A selva de pedra foi erguida: escolas, hospitais e prédios com escadas em espiral, portas estreitas e ambientes compactos. E pessoas com alguma alteração motora, e outras que passaram a ter alguma deficiência oriunda de acidente ou doença, convivendo com a selva consolidada.

As limitações provenientes das deficiências e adeficiência da sociedade construída apresentava-se como uma enorme realidade a ser mudada.

O convívio com as necessidades, com os desejos, com as superações e as conquistas, geradas pelo esforço e pelo amor, desencadearam ações importantes. A compaixão e a caridade deram espaço à solidariedade, às parcerias, ao compartilhar. Direitos foram conquistados e deveres cobrados.

Temos leis, pesquisadores, projetos e muita, mas muita gente investindo em todas as áreas.  É preciso corrigir as construções inadequadas e garantir a acessibilidade nas novas construções. E continuar com as pesquisas é fundamental para entender mais sobre os processos e as possibilidades da pessoa com deficiência.

Já avançamos bastante.

Hoje temos escolas com rampas, mobiliário e demais apetrechos que permitem o fluir, para todos. A naturalidade presente, não só nas brincadeiras, mas também nas atitudes, no compartilhar e na preocupação com o colega com deficiência, demonstrada por todos, nos mostram o começo de uma sociedade mais inclusiva.

Para nós professores que, na grande maioria, crescemos longe de pessoas com deficiências, e que em nossa formação a disciplina Necessidades Especiais era opcional, precisamos rever nossos conceitos. As raízes de nossa formação muitas vezes nos impedem de enxergar as possibilidades.

Conhecer nosso aluno está tão ligado a avaliar o que ele produz que ainda nos chocamos, quando temos pela frente crianças que não falam, andam ou não possuem movimentos voluntários nas mãos.

Relembro quando, pela primeira vez, nossa escola recebeu uma aluna com Paralisia Cerebral. A inquietação foi geral. Os questionamentos eram de todas as ordens. Os equívocos alimentavam as angústias e as ansiedades afloravam. A explicação sobre a paralisia cerebral e a panorâmica sobre a educação de crianças com alterações motoras despertou e inspirou um grupo de professoras a trabalhar em prol de uma aluna e assim contribuir para que sua chegada fosse menos turbulenta, sem, porém, chegar a ser natural.

A parceria com as profissionais da saúde foi de grande importância. Elas orientaram a adaptação da carteira, alertaram para atenção à postura e em relação à materialidade (caixas de fósforos, tampinhas, letras móveis, etc).

Os novos conhecimentos sobre as possibilidades e necessidades da criança com alteração motora articulados com nosso desejo de alfabetizar letrando, se complementaram.

Nós, crianças e professores, passamos a produzir materiais (jogos, fichários de letras, cartões ilustrados ou fichas de frases). A escrita tinha significado e função própria. A alegria da aluna, seu olhar e fisionomia expressiva facilitavam e motivavam a todos.

Aprendemos juntos que se a aluna não podia falar ou escrever com o lápis ela podia andar sobre as letras formando palavras (mesmo que com dificuldade).

Assim o alfabeto pintado no pátio da escola, ou a trilha, passou a ser material comum a todos. Mais que as crianças, nós professoras aprendemos o efeito positivo produzido com a troca do uso do lápis e papel pelo andar sobre letras e números pintados no chão do pátio.

Hoje lendo sobre a Plasticidade Neural entendo melhor o que acontecia. Percebo que, mesmo intuitivamente, ajudamos. Mas reconheço que é preciso mais que intuição. É preciso, sem dúvida, muita capacitação. O conhecimento nos traz mais confiança, diminui ansiedades, frustrações e evita equívocos.

Sentimos, naquela época, o quanto fez falta a importanteEstimulação Precoce. Infelizmente, ainda hoje, o que presenciamos é o contrário. As crianças demoram a entrar na escola por causa das dificuldades, e quando entram encontram um professor que também tem o seu tempo para entender e buscar novos conhecimentos. Assim o que deveria ser feito antes ou com mais freqüência acaba por acontecer mais tardiamente com lentidão e rupturas.

Incomoda-me cada vez mais saber que ainda temos muitas crianças sem desfrutar da estimulação precoce e do atendimento especializado.

Proporcionar a uma criança instrumentos para se comunicar com os outros, para dizer o que pensa ou deseja, mesmo que esta criança só consiga piscar os olhos ou mover algum membro do corpo é,no mínimo, fascinante.

Conhecer as inúmeras possibilidades com as pranchas de comunicação alternativa, a tecnologia assistiva, desde a simplicidade das sucatas até os programas e adaptações mais complexas, permitidas pela informática, nos mostra o grande caminho já percorrido em relação ao conhecimento e ao desenvolvimento de materiais e estratégias para inclusão dos alunos com deficiência.

O trabalho de perceber movimentos voluntários, de ensinar a criança a usar este movimento para se expressar é lento e exige muita observação, mediação e conhecimentos específicos.

Outro aspecto importante a ser considerado é a decisão sobre o tamanho, formato ou posição do mobiliário mais adequado. A atenção com a postura, com o modo correto de locomover ou movimentar a criança, são informações específicas, importantes e pessoais que nós, da área da educação, não podemos assumir.

Assim, a parceria com os profissionais da área de saúde, no caso da deficiência física, se torna fundamental para favorecer o aprendizado dos alunos. Pois as adaptações, tanto de mobiliário quanto de instrumentos, dependem das necessidades próprias de cada indivíduo. E estas necessidades são de conhecimentos destes profissionais

O direito à escola sem dúvida está sendo garantido, o acolhimento tem sido efetivado, mas o atendimento educacional possível, pelo conhecimento acumulado e exposto ainda não se efetivou. Mesmo consciente de que há grandes avanços na inclusão destes alunos fica, para mim, o sentimento de que ainda temos uma enorme lacuna a ser preenchida no atendimento de qualidade destes alunos.

Maria da Conceição Dias Magalhães

Professora do Ensino Especializado da Rede Municipal de Belo Horizonte.

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