Ser visto para ser reconhecido e disputar espaços na sociedade, Papo de Pai, Carlos Wagner Jota Guedes*

Marta-1-17Sábado passado levei o João para passear na Igrejinha da Pampulha. Ao estacionar o carro na vaga que exige o uso da credencial (a famosa “vaga pra deficiente”) observei que havia um carro sem credencial no local. O flanelinha lavava o carro tranquilamente e vários guardas municipais estavam pela região. Quando voltei para o carro observei que mais um carro estava estacionado na vaga. O João que já anda ligado na discussão perguntou imediatamente: “esse carro tem credencial”? Nesta hora respondi ao João que não e decidi ir comunicar ao guarda municipal que estava do outro lado da rua sobre a situação irregular dos carros. Ele disse que tomaria providencias. Antes disso, chegou o dono do carro estacionado em lugar errado: “disse que usou a vaga rapidinho, pediu desculpas, disse para eu ficar tranquilo em colocar o João e a cadeira nos devidos lugares etc, etc etc.”. Espero que o guarda tão solicito e atencioso tenha anotado a placa. No domingo fomos assistir mais um “Concertos para a Juventude” da Orquestra Filarmônica de Mg. Em frente ao Sesc Palladium tem “vaga pra deficiente” e para variar era utilizada por dois carros sem a credencial. Acontece sempre!!!!! Normalmente paro o carro em fila dupla, procuro algum flanelinha para saber para que lugar foi o dono. Via de regra tenho que procurar outra vaga, mas sempre ligo para a Bhtrans denunciando o fato: o telefone é 156, tecle 3 e depois tecle 5. Os atendentes solicitam o endereço em que ocorre o fato, a placa, a cor e marca do carro, esse atendimento gera protocolo, ou seja, você pode saber os desdobramentos da ocorrência. Honestamente, já fiquei esperando para ver se o carro da Bhtrans passa mesmo, e em todas às vezes vi que passa e toma providências.

Como não sou o motorista da casa uso muito ônibus para deslocamento com o João. É impressionante como o transporte chamado publico é despreparado para atender as necessidades de acesso do João ao interior e ao exterior do ônibus. Cito o caso no particular, mas sei que isso ocorre todo dia com inúmeras pessoas com deficiência, em especial as pessoas que precisam do elevador para entrar e sair do ônibus. Procuro sempre ficar em local visível ao motorista quando estou no ponto e mesmo assim é raro estacionarem corretamente o veiculo. Aí começa a gritaria: chamar o trocador para ele saber que você está ali esperando. Quase sempre tem algum problema no transbordo, normalmente, manutenção do maquinário (sem contar a sugestão de subir ou descer da lotação carregando o João em sua cadeira de rodas, normalmente feita pelos cobradores. Digo que não, que se existe o elevador é para ele ser usado). Autonomia e independência são duas palavras necessárias e essenciais à vida das pessoas com deficiência e seus familiares. Sei que o trocador e o motorista de ônibus trabalham em péssimas condições de trabalho e sobre pressão dos horários a serem cumpridos, entendo que neste caso a luta por direitos trabalhistas dignos não é só deles, mas de todos nós. Todavia, isso não significa que podemos abrir mão da qualidade dos serviços prestados.

Não vou chorar muito mais não, vou só falar que se depender de táxi eu e o João juntos, estamos de mãos e pés atados. É digno de estudo: se você ligar para um ponto ou cooperativa de táxi e disser que tem cadeira de rodas envolvida no deslocamento é quase impossível conseguir um carro. Na rua, ao dar sinal normalmente não param. Estou cansado de ouvir a história de que tem o botijão de gás no bagageiro e que a cadeira não vai caber. Dessa forma, nunca digo que tem cadeira de rodas quando chamo um táxi pelo telefone e faço questão de mostrar para o motorista que a cadeira cabe sim, mesmo com o botijão de gás. Pode dar trabalho, mas cabe. Aí fico pensando: se táxi é para transportar pessoas e suas coisas (para isso tem uma tabela que pode ser adicionada ao valor da corrida), porque não querem aqueles que usam cadeira de rodas? “homem primata, capitalismo selvagem” é uma hipótese.

Por que escrevi esses três problemas? Exatamente porque, se não resolvermos situações básicas de acesso ao mundo da rua, as pessoas com deficiência e seus familiares continuarão escondidos dentro do armário da casa. Precisamos sair do armário, isso sim!!!! Nós e nossos filhos precisamos ser vistos. Precisamos tomar as ruas e permitir que eles sejam conhecidos e reconhecidos na sua diferença e tenham direitos por sua diversidade. Na minha experiência o mais difícil foi sair do luto que me cercou quando da quebra do sonho do filho idealizado (melhor, padronizado). Junto com outras minorias que já avançaram muito nesta discussão, precisamos ocupar os parques de diversão, os teatros, os hotéis, a pracinha na esquina de casa. Não impedir que por um preconceito e falta de sentimento republicano nossos filhos sejam escondidos de tudo e todos. Nós precisamos viver e a vida se faz em casa e na rua.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

Anúncios