Profissão: modelo, por Mariana Silva, Ser diferente é fashion

Paula Ferrari ds (1)

Se pensamos em fotos de revistas e passarelas de desfiles, já nos vem à cabeça a imagem de modelos no “padrão fashion de qualidade” que as marcas tanto admiram; altos, super magros, com proporções perfeitas que destacam a roupa e não a pessoa que nela está vestida. Mas, saiba, nesse mercado também existem profissionais que pensam de outra forma e têm certeza de que existe lugar para talentos diferentes nos editorias e campanhas publicitárias.

Hoje apresento a história de Kica de Castro, fotógrafa e proprietária de uma agência que seleciona e encaminha modelos com algum tipo de deficiência para o mercado. Tudo começou quando ela trabalhou como chefe do setor de fotografia de um centro de reabilitação. Lá, tirava fotos científicas para que os médicos estudassem o caso dos pacientes, uma tarefa difícil já que quase ninguém se sentia confortável ao ser fotografado.

“Os pacientes já chegavam para mim com a cabeça baixa. Na hora das fotos, alguns não conseguiam segurar as lágrimas, isso também não me deixava à vontade. Um dia comprei todo tipo de quinquilharia: pente, espelho, estojo de maquiagem, revistas antigas de moda. Levei para o setor e transformei a sala em um verdadeiro estúdio de fotografia. As fotos continuaram científicas, mas no lugar das lágrimas já estavam vindo os sorrisos”, relembra.

Depois do primeiro contato com a lente das câmeras, usando as “quinquilharias” para se produzir, Kica reparou que muitos pacientes voltavam querendo tirar mais fotos, “em casa eu tinha um estúdio, mas não era acessível. Então resolvi fazer na instituição mesmo, cobrava apenas o preço de custo. Além dos aparelhos ortopédicos, mostro a beleza que existe em cada pessoa, usando apenas produção de figurino e maquiagem”.

Após as fotos, alguns reabilitados se achavam tão bonitos que perguntavam se ela conhecia empresas interessadas em contratar modelos com algum tipo de deficiência. Foi então que, em 2007, Kica começou a selecionar, encaminhar e fotografar essas pessoas tão especiais. A empresa começou com 5 modelos, mas hoje já conta com 80 profissionais disponíveis para os mais diversos trabalhos no mercado publicitário e de moda.

“No começo a maioria das pessoas, até mesmo os portadores de deficiência, me chamavam de louca, achando que a ideia não daria certo. Hoje, pesquisando o mercado, trabalhando com seriedade, transparência e dedicação, indicando e orientando os modelos, vejo meus esforços dando resultados animadores. Pela primeira vez percebi que a maioria estava completamente errada”, conta Kica orgulhosa.

Apesar de acreditar que o espaço para modelos com algum tipo de deficiência está crescendo na moda, Kica ressalta que ainda falta percorrer um longo caminho; “As oportunidades aparecem mediante  ao esforço da agência. A moda está mais democrática, abrindo espaço para diversidade e a publicidade compreendeu que estamos falando com aproximadamente 45 milhões de consumidores, em território nacional, com esse perfil”.

Ser modelo é uma profissão que exige dedicação, honestidade, transparência e pitadas generosas de paciência. Se você ficou com vontade de brilhar nesse caminho, Kica dá a dica que faltava: “não deixe ninguém tirar seu foco, oportunidades existem e temos que saber lutar por elas. Não deixe de correr atrás das coisas que acredita, pois a pior barreira é a que nós mesmos colocamos em nosso caminho”.

 

*Mariana Silva (Idealizadora do Blog http://naoesobremoda.wordpress.com, é colaboradora de http://www.tudobemserdiferente.com. Jornalista, 24 anos, nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais. Para ela, moda é uma futilidade necessária e um fenômeno sociológico interessantíssimo; “o legal é quando fazemos a moda trabalhar a nosso favor, ficar dependente dela não faz bem”). Tem displasia Óssea, síndrome que afeta o crescimento e a resistência dos ossos de todo o corpo. Escreve Ser diferente é fashion para http://www.tudobemserdiferente.com toda quinta-feira. 

 

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