Do ou isso ou aquilo, para e isso e aquilo, Papo de Pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

João fazendo canguru

João fazendo canguru

Brinco com meus amigos que há seis anos que não durmo e o motivo desta insônia permanente seria a existência do João. Se existe exagero na brincadeira, não existe brincadeira na rotina. Desde que o João nasceu, a vida tem sido de permanente presença de simultaneidades. É deixar a criança descansar e ao mesmo tempo estimulá-la com qualidade, é tomar conta da vida pessoal e ao mesmo tempo profissional. É comer uma feijoada e ao mesmo tempo pensar na qualidade de vida.

Esse contexto tem me permitido repensar a forma como fui educado, me reeducar e educar o João. Em basicamente todos os lugares aprendi que ou chupava cana ou assobiava, que os dois ao mesmo tempo são impossíveis. A questão é que eu, minha companheira e João, estamos fazendo isso e aquilo, chupando cana e assobiando. Pelo que vejo nas portas de consultórios e clinicas não somos apenas nós.

Antes de tudo, preciso esclarecer uma coisa: a simultaneidade que aqui escrevo não é aquela que diversas organizações têm demandado de seus “colaboradores”. Essa simultaneidade da produção e reprodução dos bens materiais não tem relação direta com o que quero aqui relatar. A simultaneidade das organizações só deseja o caráter útil dos “colaboradores”, sem chance para desperdício, troca e simultaneidade. Parece-me que a simultaneidade das organizações capitalistas é um arremedo da linguagem para a fabricação do homem com apenas uma dimensão, a da empresa.

Já nas semanas que antecederam a alta hospitalar do João muitos profissionais nos alertavam para a necessidade de darmos o máximo possível de estimulação (estimulação dos sentidos e do corpo) ao João, e que quanto mais precoce começasse a estimulação melhor seria. Assim tem sido nestes 6 anos. Ao mesmo tempo em que queremos dar ao João uma vida de criança, ele tem que se acostumar com uma agenda cheia de compromissos e tarefas. Não por escolha, mas por necessidade para poder fazer escolhas.

Nos primeiros dois anos de vida o João fez fisioterapia e terapia ocupacional basicamente todos os dias da semana. Em casa procuramos associar as rotinas de exercícios com brincadeiras e especialmente, leitura e música, muita música. Dos dois aos quatro anos as idas aos consultórios aconteciam 3 vezes por semana. Atualmente duas vezes por semana. Embora a rotina de ir ao consultório de terapeuta ocupacional e fisioterapeuta tenha diminuído, a obrigação e a responsabilidade da estimulação em casa cresceram, e muito. Uma boa parte da rotina em casa envolve estimulações previstas junto às especialistas que o acompanham. Ações pedagogicamente pensadas. Assim, tirar uma blusa, pode durar mais de 10 minutos, escovar os dentes mais de 10 minutos, escrever o nome bem mais que 10 minutos. Agora que o João tem usado andador em casa, andar 3 metros para se deslocar da sala à mesa de refeições, por exemplo, quase uma hora. Tomar banho “sozinho” o João demora meia hora. Almoço com o João comendo por conta própria, uma hora. Ver TV, jogar vídeo game, contar história antes de dormir e ouvir música várias vezes ao dia. É possível a perfeição ou realizar tudo isso (da vida do João, mais a minha vida profissional, mais a minha vida afetiva, cuidar da minha saúde e ainda colaborar para que minha companheira tenha qualidade de vida também) num dia que começa às 7h e termina às 21h, para o João e lá pela madrugada para mim? Claro que não. Mas é possível fazer com qualidade e simultaneamente.

Fazer simultaneamente é fazer com associação, é incluir possibilidades nas rotinas. É fazer escolhas, não por exclusão (ou isso, ou aquilo), mas por foco e negociação. Foco no que se pretende atingir e negociação em como atingir. Por isso hoje, mais do que ficar desesperado em criar meios de estimulação para o João colaboro para que ele possa fazer ao mesmo tempo seus exercícios e suas brincadeiras. Ir ao cinema e ter uma boa postura. Andar de ônibus e saber pagar a passagem. Gritar galo para perder o medo e poder subir na árvore.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

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