Pedagogia do incentivo ou pedagogia da punição?

Algumas inquietações minhas sobre a aplicação do castigo nas escolas e um levantamento feito com amigos e seguidores no nosso Facebook  têm trazido elementos para a discussão da Pedagogia do Incentivo e a Pedagogia da Punição. Recebi da nossa sempre colaboradora Renata Campos a indicação do blog do neuropsicólogo Victor Hasser, que fez uma sequência de posts sobre o tema.

Compartilho as postagens por compartilhar as ideias nelas contidas… 

12 – PEDAGOGIA DO INCENTIVO

Os principais contextos nos quais precisamos trabalhar são a família e a escola. Quandos o comportamento das crianças não corresponde às expectativas dos adultos, os mesmos recorrem a estratégias punitivas.

A punição é um método extremamente ineficiente de modificação do comportamento. A punição só funciona no curto prazo. A longo prazo a punição não funciona porque é muito difícil aplicá-la de forma consistente. Na perspectiva da criança sempre vale à pena se arriscar e se comportar mal. Pode ser que o adulto não descubra. Ou vai que o adulto está de bom humor e resolve ser menos punitivo…

A punição se associa também a um perfil deletério de efeitos colaterais. É muito difícil punir de forma sistemática. Se o adulto por vezes e por vezes não pune, ele está ensinando a criança a se comportar mal. Dizendo pra ela que vale à pena arriscar. Pode haver discrepâncias entre as práticas maternas e paternas. Um pode ser mais tolerante e o outro pode ser mais rigoroso. A tolerância de um vai demolir a autoridade do outro.

É extremamente difícil fazer um uso justo moderado da punição. O adulto pode punir injustamente, tendo como conseqüência a humilhação e a revolta. A punição excessiva pode causar medo e assim diminuir a capacidade de iniciativa e autonomia da criança.

Pode ser muito dificil punir moderadamente crianças mais rebeldes. Se o adulto pune a criança continua desobedecendo a tendência é aumentar crescentemente a severidade da punição. Isto acarreta o risco de ultrapassar os limites, caracterizando abuso.

A punição ensina para a criança a aceitar este método como uma estratégia de modificação do comportamento alheio. Isto constitui uma pedagogia da punição. O comportamento punitivo do adulto pode ser usado como modelo pela criança. É desta forma que ocorre a transmissão intergeracional dos comportamentos punitivos e da violência.

Inúmeros são os paraefeitos da punição. Mas o principal é a atenção. As crianças são ávidas pela atenção dos adultos. A punição dispensa atenção  para os comportamentos inadequados. Algumas crianças, como os hiperativos, opositivos e os meninos com dificuldades de aprendizagem, só recebem atenção pelos seus comportamentos inadequados. Quando o menino se comporta mal, ele recebe atenção. Quando se comporta bem, o adulto acho que a criança não está fazendo mais do que a obrigação. Desta forma, a criança é privada de aprender quais comportamentos se associam com desfechos hedonicamente positivos. Ao invés de reduzir a freqüência do comportamento inadequado, a punição contribui então para aumentá-la.  Qual é o remédio?

10 – PEDAGOGIA DO INCENTIVO

É preciso compreender, antes de mais nada que as opções dos familiares e professoras são reduzidas. Os adultos não têm o poder de modificar radicalmente o comportamento das crianças. O comportamento das crianças não depende apenas da vontade dos adultos. Isto não quer dizer que os adultos não possam fazer nada. Os adultos podem modificar as conseqüências que administram aos comportamentos das crianças, de modo a aumentar a freqüência dos comportamentos adaptativos e diminuir a freqüência de comportamentos inadequados. isto é chamado de pedagogia do incentivo e se baseia na técnica comportamental de reforçamento diferencial.

A pedagogia do incentivo se baseia na máxima de que a criança desenvolve a qualidade elogiada. Ou, a plantinha adubada e regada cresce robusta e saudável. Se os adultos prestam atenção preponderantemente nos comportamentos inadequados, a criança vai desenvolver os comportamentos inadequados. Por outro lado, se os adultos ignoram – dentro de limites – os comportamentos inadequados, a criança vai desenvolver os comportamentos adequados.

O termo técnico para pedagogia do incentivo é reforçamento diferencial. O reforçamento diferencial é muito eficaz. Basta que haja um familiar ou adulto disposto a implementar um plano de modificação do comportamento usado esta técnica. Evidentemente, não se trata de uma panacéia ou método milagroso de cura. Os resultados são obtidos paulatinamente e precisam ser registrados e modficados. Pouco a pouco é possível aumentar a freqüência dos comportamentos desejáveis e diminuir a freq6uência dos comportamentos indesejáveis.

Uma técnica comportamental associada, a modelagem, pode ajudar a construir uma perspectiva de longo prazo. A modelagem é importante quando a criança emite muito poucos comportamentos adequados. Qualquer comportamento que se aproxime do desejado é então escolhido para reforçamento sistemático. À medida que a criança vai adquirindo a competência desejada, o critério vai sendo modificado. De forma tal que o critério de reforço sempre esteja ao alcance da criança com um pequeno esforço.

Muitos críticos sentem gastura quando ouvem falar em reforçamento diferencial etc. A ignorância faz pensar com que as técnicas comportamentais sejam apenas um modo de robotizar ou alienar as pessoas. Tudo isto é bobagem. Na verdade, a pedagogia do incentivo estimula a autonomia e livre-arbítrio e não a dependência e alienação. E eu provo isto.

O neurologista francês François Lhermite descreveu em 1983 um quadro clinico denominado de comportamento de utilização, o qual é observado na síndrome de dependência ambiental, decorrente de lesões cerebrais bilaterais graves. Na síndrome de dependência ambiental o individuo fica à mercê das contingências. Se um estímulo previamente reforçado é apresentado, o indivíduo não tem condições de omitir a resposta comportamental associada.

P. ex., na forma de comportamento de utilização ilustrada na figura o paciente coloca uns óculos que lhes são oferecidos no nariz, por cima dos óculos está usando. Simplesmente porque a affordance do óculos é para ser colocado no nariz. O paciente executa o gesto automaticamente.

Não é o que acontece com os procedimentos de modifiação do comportamento. Ao contrário. Comecemos ilustrando o fato de que a modificação do comportamento não perde o efeito quando as contigências são explicadas para o cliente. Todas as contingências são explicadas para a família na presença do cliente. É justamente isto que se deseja. Que  o cliente aprenda a discriminar as conseqüências hedônicas dos seus comportamentos.

Robotizada e sem autonomia se encontra uma criança ou aluno que se comporta mal. Como ele só se comporta mal, só recebe atenção pelo mau comportamento. A atenção preponderanete dispensada ao mau comportamento faz com que inidivíduo nunca tenha experimentado as conseqüências hedônicas associdas ao comportamento adequado. A criança e os adultos estão presos, amarrados ao mau comportamento.

Os processos de modificação do comportamentos são emancipatórios, libertadores. Experimentando de forma sistemáticas as diferentes conseqüências associadas a cada comportamento, o individuo aprende a discriminá-las e somente então pode optar como pretende se continuar se comportando. A consistência das contingências é um pré-requisito para que o individuo discrime as conseqüências associadas a cada tipo de comportamento. Somente assim é possível desenvolver uma motivação intrínseca para se comportar de forma adaptativa.

O reforçamento diferencial se baseia na lei do efeito, uma princípio biopsicológico universal. É uma coisa muito primitiva. O reforçamento diferencial só não funciona com psicopatas.

Novamente, não existe panacéia. A pedagogia do incentivo exige que o adulto esteja disposto a colaborar com a equipe. A idéia é trabalhar colaborativamente com pais e professores. O objetivo primordial é modificar o comportamento do adulto, princiopalmente através da sistematização das conseqüências administradas ao comportamento da criança. O comportamento da criança se modifica secundária.

A pedagogia do incentivo pode ser aplicada com pais ou professoras. Veja o que acontece com as modalidades tradicionais de terapia.

Nas terapias tradicionais, a criança vai a um consultório ou clinica uma vez por semana e trabalha com a terapeuta. Os pais ficam na sala de espera. Como hoje em dia não é mais permitido fumar, eles ficam vendo TV ou lendo a revista Caras. Os pais não aprendem nada. Somente se entediam.

Freqüentemente eu pergunto para os pais o que a terapeuta de seu filho está trabalhando. Os pais não sabem, na maioria das vezes dizer o que acontece do outro lado da parede, na sala de consultas. Os pais saem do seu conforto doméstico ou se privam de outros afazeres, gastam uma grana danada e ficam sem saber o que está sendo feito com seus filhos.

A criança, por outro lado aprende a modificar seu comportamento em relação à terapeuta e no ambiente do consultório. Dificilmente os progressos maravilhosos ocorridos na clinica se transferem para o ambiente doméstico ou para a escola.

Uma alternativa ao modelo tradicional de terapia é o trabalho colaborativo com pais e professores. O trabalho colaborativo pode ser implementado sob a forma de um programa de treinamento de pais.

Um programa de treinamento de pais é uma modalidade de intervenção breve porém complexa. Os pais se reunem uma vez por semana com a terapeuta e são instruídos nos principais aspectos relevantes à problemática do seu filho. A seguir, os pais implementam em casa um programa de modificação do comportamento da criança.

Um modelo muito bem sucedido de treinamento de pais foi desenvolvimento por Russel Barkley para o tratamento de crianças com hiperatividade e/ou comportametnos desafiadores. Mas a técnica é facilmente adaptável para outros tipos de problemas e contextos. O treinamento de pais pode durar de seis a doze semanas.

No treinamento de pais são empregadas inicialmente técnicas de psicoeducação. Os pais precisam adquirir fatos sobre a condição de saúde diagnosticada na criança, mas principalmente noções de análise aplicada do comportamento que lhes permitam implementar o programa. Em linguagem simples, os pais precisam aprender quanto aos fatores que contribuem para a adequação do comportamento. Uma regra simples de cinco dedos, ajuda os pais a entender que o comportamento inadequado depende da concorrência simultânea de características da criança, características dos pais, a história de interações na familia, o contexto atual de vida da família e a situação na escola.

A seguir os pais aprendem a analisar a função dos comportamentos inadequados. Aprendem que o comportamento pode ser desencadeado por atencedentes mas é mantido pelas suas conseqüências. Analisando situações específicas, os pais aprendem a fazer o ABC do comportamento, discriminando as relações entre os antecedentes situacionais, o comportamento e as conseqüências administradas. As relações entre os vãrios componentes do ABC são então analisadas em termos das funções que as conseqüências desempenham no comportamento da criança.

As funções do comportamento inadequado nas crianças se restringem a um leque bastante limitado. As crianças precisam atenção do adulto. A maioria dos comportamentos inadequados tem como finalidade a obtenção de atenção do adulto. Se o adulto cai na esparrela de prestar atenção preponderantemente no mau comportamento, a freqüência deste vai aumentar.  O mau comporgtamento pode ter  também uma função comunicacional, principalmente em crianças com problemas de desenvolvimento e que não podem expressar adequadamente suas necessidades.

Outras vezes o comportamento inadequado reflete uma forma de esquiva. Se a criança responde mal, a mãe pode retirar uma determinada exigência reforçando secundariamente o comportamento inadequado.

Mas, o comportamento inadequado pode também constitur uma forma de auto-estimulação. P. ex., a criança pode agitar porque a estimulação é insuficiente e ela está se entediano. Ou a criança pode se agitar porque a exigência é excessiva e ela não está dando conta da situação.

Após aprenderem a discriminar as funções do comportamento dos seus filhos, os pais aprendem a implementar um programa de reforçamento diferencial, no qual prestam atenção sistematicamente ao comportamento adequado, incentivando-o, e ignorando o comportamento inadequado, extinguindo-o.

Um pré-requisito para o reforçamento diferencial é a distensão do ambiente familiar. As tentivas dos pais de impor coercivamene sua agenda para as crianças é associada a comportamentos de esquiva e oposição por parte dos filhos levando a um ciclo vicioso de interações coercivas.

Quando os pais emitem uma ordem, a criança sempre tem a opção de obedecer ou não obedecer. Quando a criança obedece, a família vai tratar da vida. Caso a criança insista em não obedecer e persiste com este comportamento, os pais acabam chegando a um beco sem saída. Se deixam para lá, estão reforçando secundariamente o mau comportamento. Ou seja, estão ensinando à criança que vale à pena desobedecer. Que vale a pena impor sua vontade aos adultos. Assim, a autoridade vai se desmoralizando. Por outro lado, se os pais resolvem bancar a situação e punir a criança, incorrem no risco dos efeitos colaterais da punição.

Para que o reforçamento funcional possa exercer seus efeitos é preciso romper o ciclo vicioso das interações coercivas. isto pode ser conseguido através de uma técnica denominada Happy Hour. Ou seja, meia hora de atenção incondicional para a criança por dia.

Treinamento de professoras

Os programas colaborativos podem ser também implementados na escola, em colaboração com as professoras. Visitando escolas, eu freqüentemente vejo professoras desamparadas, que não sabem o que fazer com seus alunos malcomportados. Parece que na pedagogia não se enfatiza muito as técnicas comportamentais de manejo da disciplina em sala de aula. As classes sociais oscilam entre a tirania e o caos completo.

Um programa treinamento comportamental de professoras é um procedimento eficaz de empowerment das professoras e modificação do comportamento de alunos com problemas.

Uma classe comportamental é organizada de forma a administra conseqüências sistemáticas para o comportamento dos alunos. O resultado são professoras e alunos auto-eficazes, motivados. Mas não são apenas os fatores comportamentais que influenciam o comportamento das crianças. As expectativas dos adultos reprsentam uma forma de influência cognitiva e são também muito importantes.

Expectativas

As expectativas que os adultos têm quanto ao comportamento das crianças também constituem uma influência poderosa, a qual pode ser trabalhada no contexto da reabilitação.

Trabalhando na sua tese de doutorado na década de 1950, o psicólogo comportamental Robert Rosenthal observou que suas expectativas influenciavam o comportamento dos ratinhos. Anos mais tarde, trabalhando como Lenore Jacobsen ele ampliou esta experiência para a sala de aula.

No início do ano, Rosenthal e Jacobsen aplicaram testes de inteligência nas crianças de uma escola. Os resultados verdadeiros não foram divulgados para as professoras. Ao invés disto, grupos de crianças foram selecionadas aleatoriamente, independentemente de sua inteligência, e foi dito para as professoras que estas crianças eram especialmente talentosas. O resultado foi que as professoras passaram a dar mais atenção para as crianças que julgavam ser talentosas. Gastavam mais tempo dando explicaões, incentivavam mais etc. O desempenho destas crianças acabou sendo melhor do que a performance das demais.

O efeito foi denominado de Pigmalião, a partir de uma lenda grega. Segundo a lenda narrada por Ovídio, Pigmalião era um excelente escultor. Certa vez ele esculpiu uma estátua de uma linda figura feminina, à qual chamou de Galatéia. Pigmalião se embeveceu com sua arte e só ficava admirando seu trabalho. Acabou se apaixonando por Galatéia  e não fazia outra coisa que não fosse admirá-la.

Zeus acabou se condoendo de Pigmalião e deu o sopro vital a Galatéia. Os dois poderiam ter vivido felizes para sempre. Não fosse a soberba. Pigmalião se embeveceu tanto, mas tanto mesmo, com sua arte que passou a desprezar os deuses. Zeus não teve outra alternativa que não fosse fulminá-lo com um raio.

A coisa funciona assim, tipo uma profecia auto-realizável. Se os adultos têm expectativas razoáveis em relação ao comportamento das crianças, elas acabam se comportando de acordo com as expectativas. Se o adulto só espera mau comportamento, a criança acaba se comportando mal.

O efeito Pigmalião foi comprovado em dezenas de estudos no mundo inteiro. A magnitude de efeito é moderada, em torno de meio desvio-padrão. Na escola o Pigmalião funciona melhor no início do ano, quando a professora ainda não conhece bem os alunos. Com o tempo, os juízos da professora vão sendo mais influenciados pelas suas experiências concretas do que pelas suas expectativas.

Mas isto não significa que as expectativas dos adultos não devam ser trabalhadas. Ao contrário. Além de serem importantes, as expectativas são fáceis de modificar. Tem um fato fundamental que os adultos não podem jamais esquecer. Crianças são crianças. E as crianças têm agenda própria. A atividade mais importante na agenda das crianças é brincar.

Anúncios