Pai deixa emprego e passa a fabricar aparelhos para ajudar filho no Piauí

Marcos Davi era mecânico quando descobriu a paralisia cerebral do filho.

Durante tratamento em Teresina ele passou a fabricar aparelhos especiais.

Dedicação. Essa palavra define o autônomo Marcos Davi Barros, 43 anos, pai Rafael Jeferson Santos Barros, 5 anos. Há três anos ele descobriu que o filho sofria de paralisia cerebral e desde então viu sua vida mudar radicalmente. Ele largou o ofício de caminhoneiro e mecânico e mudou de estado pelo menos três vezes para buscar atendimento para o filho no Piauí. Foi a partir daí que ele passou a confeccionar aparelhos que ajudam pessoas portadoras de necessidades especiais.

Antes de vir para o Piauí com a esposa e os dois filhos, Marcos Davi morou nas cidades de Abadia e Indiara, ambas em Goiás. Cansado da vida de viajante, ele decidiu mudar de profissão e se tornar mecânico. Foi entre uma viagem e outra que o casal resolveu buscar ajuda dos médicos por notar algo estranho com Rafael.

Marcos Davi e o filho Rafael Jeferson, de 5 anos, em um parapódio construído pelo pai (Foto: Gil Oliveira/ G1)Marcos Davi e o filho Rafael Jeferson, de 5 anos, em um parapódio construído pelo pai (Foto: Gil Oliveira/ G1)

“Em 2010 decidimos levar o Rafael ao médico porque desconfiamos que ele não conseguia fazer alguns movimentos. Ao realizamos exames em Goiânia foi descoberta a doença dele. O médico chegou para nós e falou: ‘o seu filho tem PC, paralisia cerebral, mas ele pode até ter uma vida normal, caberá a vocês buscar tratamento para ele’. E foi o que nós fizemos”, relembra Marcos.

Com a descoberta da doença começou a luta da família em em busca de tratamento para Rafael. Ele conta que procurou ajuda em Goiânia, em Manaus, e em um hospital especializado no Distrito Federal, mas algumas burocracias impediram a marcação das consultas.

“Neste período recebemos um telefonema de uma prima minha que trabalhava no Centro Integrado de Reabilitação, o Ceir de Teresina. Ela nos contou que aqui o tratamento era de graça e tido como referência na região”, contou Marcos.

Marcos Davi relembra que na época ficou muito feliz e não pensou duas vezes na hora de voltar à capital piauiense. “Larguei tudo para trás, vendi tudo o que tínhamos inclusive os móveis da casa, e viemos no ano de 2011 em busca do tratamento para meu filho. Na bagagem trouxemos apenas roupas e minha caixa de ferramentas de mecânico”, destacou o pai.

Fotos da família em casa e também durante o tratamento do Rafael no Ceir em Teresina (Foto: Gil Oliveira/ G1)Fotos da família em casa e também durante o tratamento do Rafael no Ceir (Foto: Gil Oliveira/ G1)

Trocando de ofício
Ao chegar ao Piauí, a família conseguiu o tratamento para Rafael. Já o pai decidiu retornar ao trabalho de mecânico para garantir a renda da casa. “Voltei a ser mecânico, mas como tinha que levar todos os dias o Rafael para o Ceir, muitos clientes já não me procuravam mais, porque eu não conseguia entregar o serviço no tempo previsto. Sempre tive o Rafael como prioridade”, diz Marcos.

Certo dia, durante o tratamento a fisioterapeuta de Rafael pediu que os pais dele comprassem um aparelho, o parapódio, para ajudar no tratamento durante o período que ele estivesse em casa.

Essas criações são motivadas pela vontade de ver o Rafael e as outras crianças felizes simplesmente por conseguirem ficar em pé”
Marcos Davi, pai de Rafael Jeferson, 5 anos que tem paralisia infantil

“Eu estava sem emprego e não tinha dinheiro para comprar o equipamento, que na loja custava mais de R$ 1.500. Foi quando, de tanto ver o aparelho na loja e no Ceir, disse a minha esposa que conseguiria fazer um parecido. Ela contou à médica e disse que nós não tínhamos condições de comprar o material e as ferramentas, mas a doutora quis emprestar o dinheiro. Foi quando consegui fazer dois aparelhos”, conta Marcos.

A esposa de Marcos lembra que quando ele fez o primeiro aparelho, demorou um tempinho para conseguir vender. “Ele estava até desanimado, mas logo surgiu a primeira compra e não parou mais. Os pais de outras crianças começaram a nos procurar e foi aí que o negócio começou”, disse Rosete Aires. Após o parapódio, outras invenções surgiram de acordo com as necessidades de seu filho.

“O Rafael precisou de uma cadeirinha de posicionamento e eu novamente consegui fazer. Nunca trabalhei como marceneiro, apenas já sabia soldar porque aprendi com meu pai que fazia adaptações mecânicas em veículos. Por isso, digo que essas criações são motivadas pela vontade de ver o Rafael e as outras crianças felizes simplesmente por conseguirem ficar em pé com o aparelho, esse dom é com certeza obra de Deus”, destaca.

Pai produz os aparelhos para o filho no quintal de sua casa em Teresina (Foto: Gil Oliveira/ G1)Pai produz os aparelhos para o filho no quintal de
sua casa em Teresina (Foto: Gil Oliveira/ G1)
Rafael apresentou melhoras significativas com tratamento e ajuda dos aparelhos produzido pelo pai (Foto: Gil Oliveira/ G1)Rafael apresentou melhoras significativas com
tratamento e ajuda dos aparelhos produzido
pelo pai (Foto: Gil Oliveira/ G1)

O pai também destaca a importância de toda família na nova fonte de renda. “Aqui todos têm o seu papel. Eu produzo as peças, a minha esposa faz os acabamentos e foi quem teve a ideia de colocar cores novas e desenhos personalizados de acordo com a personalidade das crianças. Já o Rafael é o modelo para as peças e o mais velho ajuda a cuidar do irmão, brincando com ele, enquanto a mãe também trabalha como manicure”, disse.

Para conseguir também se destacar no mercado, Marcos revela que o produto que produz é vendido abaixo do preço das lojas. “Nas lojas um aparelho como os que eu fabrico, não custa menos de R$ 1.500, já eu cobro apenas R$ 800. A maioria das vendas são feitas para pacientes do Ceir, mas também recebemos encomenda por uma página que temos na rede social, com o nome de Rafael Adaptações”, disse.

Depois do tratamento e da fabricação dos aparelhos, a fisioterapeuta de Rafael confirma a melhora do garoto. “Quando chegou aqui, o Rafael não conseguia falar, comer sozinho, mas quando começamos o tratamento tudo começou a mudar. Recomendamos que o pai dele comprasse um parapódio para o tratamento em casa. Ele nos disse que não tinha o dinheiro, mas que poderia fazer”, disse Raquel Azevedo.

Dedicação com resultado
A fisioterapeuta relembra que auxiliou o pai do garoto com dados e informações sobre os aparelhos. “Hoje o senhor Marcos consegue atender a demanda e sempre é muito procurado pelos pais de outros pacientes”, disse Raquel.

O pai espera ainda realiza mais um sonho. “Sempre quando saímos não há aqui em Teresina brinquedos adaptados para crianças com deficiência. Quero construir um playground infantil adaptado para meu filho e disponibilizar o produto para que restaurantes e parques possa adquiri-los”, revela Marcos Davi.

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