Comportamentos e castigos na escola e em casa: o depoimento de uma leitora sobre os repetidos castigos do irmão com TDAH

  • Por Sônia Pessoa

    Pessoal, tenho discutido bastante o tema ‘castigo’, ‘punição’, seja lá o nome que você quiser dar… Publico o depoimento de uma leitora, que me pediu para retirar o nome dela e do irmão porque ainda hoje ele vive os fantasmas de uma infância que deixou marcas… Que tal refletirmos todos? Escola e famílias? Que tal conhecermos a pedagogia do incentivo e irmos substituindo a pedagogia da punição, que me parece tão arcaica e inócua?

    “Olá Sônia, tudo bem?

    Quero falar sobre o meu irmão… ele tem um pouco de vergonha da infância e não gosta que conte, mas eu acho importante compartilhar…

    Ele começou com uma psicóloga duas vezes por semana bem cedo, devia ter entre 4 e 5 anos porque era muito agressivo, agitado, não prestava atenção em nada e dispersava com facilidade na escola, em casa, no futebol, na natação, etc. Quando ele entrou na primeira série do ensino fundamental (que eu te confesso que não sei mais como chama hoje), com 7 anos, foi qdo o TDAH e dislexia ficaram mais evidentes e foram diagnosticados. A psicopedagoga que acompanhava ele desde cedo foi na escola diversas vezes, conversou com a pedagoga, a professora, todo mundo, onde foi explicado como ele era, porque ele era e etc.

    Meus pais acharam que com a medicação (eu lembro de um remédio, não sei te dizer qual era) e o trabalho da psicopedagoga as coisas melhorariam, mas ele passava a maior parte da aula, todos os dias, de castigo. No final do ano, entre trancos e barrancos e muitos bilhetes de advertência a escola chamou meus pais e pediu que eles tirassem meu irmão da escola porque eles “não sabiam lidar com ele”.

    Meus pais tiraram e o colocaram em outra escola, indicada por uma pedagoga, onde eles saberiam lidar com crianças com TDAH. A escola foi tão ruim quanto e meu irmão perdeu completamente o gosto pelos estudos porque era pressionado e castigado o tempo todo.

    Na realidade eu fico muito triste em constatar em um mundo onde todos lutam por igualdade e inclusão os passos sejam tão lentos. Veja, esse episódio que te contei aconteceu há exatos 20 anos.

    Na época do os meus pais achavam “certo” porque na realidade não sabiam o que fazer. Hoje minha mãe já vê com outros olhos. Ela acha que em alguns casos, onde a dispersão não é culpa da criança não resolve nada porque nem ele entende porque está sendo castigado. Fica uma interrogação na cabeça da criança “mas o que eu fiz?” o que compromete/eu a vida acadêmica inteira dele.

    … o preconceito da família.

    Meu irmão hoje é um homem de 26 anos, faz faculdade de educação física em viçosa, é super bem resolvido e luta um bocado contra as “limitações”. Ele tem dificuldade de memorizar, lembrar, ele fica muito tenso até na faculdade porque ele acha que sofrerá alguma opressão sempre. (Ele fazia acompanhamento psicológico até o ano passado). Ele tem uma reserva enorme com a minha família materna porque eles nunca entenderam o transtorno dele.

    Minha avó queria colocar o filme e que todos os netos assistissem e como ele não conseguia ficar literalmente 5 minutos quieto, ela colocava de castigo, dava palmada, etc. se alguma coisa quebrasse, todo mundo dizia que com certeza foi ele… ele foi culpado de coisas quando nem mesmo estava lá. Quando um tio ou até minha avó inventava de levar as crianças para o zoológico ou uma praça, levava todo mundo, menos ele. Eu deixei de ir em vários porque ficava com o coração destruído de ver todo mundo entrar nos carros e ele ouvir um “você não, você não obedece”. Meu pai virava um leão, pegava a gente e levava e sempre comentou que nessas ocasiões ele tinha comportamentos exemplares.

    Eu não sei se estou conseguindo chegar no ponto que eu quero: não apenas as escolas parecem não estar preparadas para algumas situações. na minha família, pelo menos, sofremos preconceito inclusive de dentro”.

    A autora do texto é jornalista e irmã de um jovem com TDAH.

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