Da lama ao caos, do caos a lama…. que eu me desorganizando posso me organizar, Papo de pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

No natal de 2010 ou 2011 o João ficou encantado com uma maleta que o primo dele ganhou. Dentro dela vários apetrechos “médicos” de brinquedo. Meses depois, demos (eu e minha companheira) a mesma maleta para ele, entendemos que o melhor nome para ela, era maleta de exames. Por que fizemos isso, já que na própria papeleta do brinquedo vinha dizendo maleta médica? Simples, porque quem usa aquela maleta não é só o médico, são vários profissionais do campo da saúde, entre eles, os médicos. Minha companheira que é enfermeira também faz uso de vários utensílios que tinham naquela maleta, fisioterapeutas também, dentistas alguns deles…. Procuramos reforçar a utilidade/função daqueles objetos e não a posição supostamente superior de um membro do campo da saúde sobre outros. Dizer que aquela maleta era de médico era mentir para o João e dar a ele uma visão hierárquica e equivocada do que é o campo da saúde.

 

Desde que o João nasceu, temos uma rotina de acompanhamentos com profissionais do campo da saúde. Seria inútil e injusto tentar listar quais já tiveram contato com o João. Alguns doutores de título, outros por se acharem merecedores de serem tratados de doutores. Fisioterapeutas o João já teve/tem duas com titulação de mestre e elas nunca se importaram com o título. Muito pelo contrário, a preocupação é com o João. Cuidadoras, nas primeiras noites do João em casa, técnicas de enfermagem. O neurologista que acompanha o João, tratamos como se estivéssemos numa conversa de amigos. Nunca fez questão de título. Com isso o João aprendeu que não precisa chamar ninguém pelo título que tem ou quer ostentar. A psicanalista que trabalha com ele, chamamos pelo primeiro nome sem estresse. Embora ainda vacile, é de uma criança de 5 anos que estamos falando, o João tem o costume de tratar os profissionais de saúde que o atendem pelo nome e sempre procurando saber qual a profissão deles e o que eles vão fazer com ele. Assim, se usa jaleco branco ou de outra cor, gravata, roupa mais esportiva, bermuda, pouco importa, o importante é ser responsável com o outro. É isso o que entendo quando vejo o João estabelecendo essa rotina.

 

Raras foram às vezes vi o João permitir ser tocado por um profissional do campo da saúde sem saber o nome, sem sua autorização para ser tocado e sem saber o que irá acontecer. O fato de ser desta ou daquela área dentro do campo da saúde nunca deu mais ou menos importância. Todos são iguais em suas diferenças e isso, reforçamos no nosso dia a dia com ele. O fato de ser médico ou enfermeiro não faz para ele (ao menos é isso que percebo) a menor diferença. O médico e os demais profissionais são iguais em suas diferenças.

 

Como já disse nesta coluna várias vezes, eu não tenho problema com as escolhas que o João vai fazer ao longo de sua vida. Profissão, orientação sexual, vida religiosa, o time que vai torcer etc. Tenho algumas expectativas, é claro, e trabalho para que elas possam se tornar referencia para ele, mas expectativas que vão ter que dialogar constantemente com o desejo dele. Dentro destas expectativas a mais importante é que o João seja capaz de estruturar um arranjo de ser e ter que seja capaz de respeitar a si e ao outro. Que reconheça que este respeito não é subserviência ou peleguismo; que muitas vezes são necessários os conflitos, mas que mesmo em conflito possa ocorrer cuidado com o outro e com ele mesmo. Desejo que o João seja cidadão e que essa cidadania seja executada de forma republicana. Em suma, não quero que ele seja um “homem cordial” como escreveu Sérgio Buarque de Hollanda.

 

Por que disse isso tudo? Para dizer: sejam bem vindos médicos de toda a parte do mundo que estão ancorando suas vidas no Brasil. Que sejam bem acolhidos por aqueles que são constantemente esquecidos e por aqueles que de fato querem um país sem misérias. Não se importem com os corredores poloneses que nos fazem sentir vergonha (vejam o que fizeram os supostos médicos, esses sim, vândalos, no Ceará); cuidem daqueles que agora precisam do básico e que tem isso negado todos os dias, seja pela miséria, seja pela distância dos grandes centros, seja porque alguns só balbuciaram seu juramento, sem ter efetivamente construído pensamento sobre as consequências dele, seja porque, passamos a acreditar que conhecimento só existe quando há uma tecnologia de última geração e esquecemos que muitos ainda morrem ou vivem doentes porque não fervem a água de beber. Não os chamarei de doutores, mas reconheço sua importância.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com. As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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