Compasso de espera, cirurgia e cura, Mamãe Down Up, Ana Flávia Jacques

Foram cinco meses e 15 dias convivendo com o coraçãozinho doente. Durante este tempo de incertezas não foi fácil pensar que tudo que estávamos construindo pudesse acabar na sala de cirurgia. Será que toda a dedicação seria em vão? Será que ela sofreria muito? Mas mesmo que tivéssemos convivido apenas por um curto espaço de tempo já teria valido a pena. Mas não foi curto, não. Ela resolveu ficar. Ela lutou bravamente contra diagnósticos, previsões, estatísticas e, por fim, o maior obstáculo de sua vida: a cirurgia cardíaca. E foi sofrida, mas linda a luta dela. “Maria heroína”, disse uma enfermeira do CTI pediátrico ao vê-la recuperada.

O período do nascimento até a cirurgia foi cansativo para a Maria Fernanda. Ela foi apresentando, aos poucos, os sintomas por ter o órgão vital cansado. A pequena não conseguia mamar no peito, apesar da fartura que a minha natureza a ofertava. Ela ficava ofegante ao tentar abocanhar e sugar o bico e o expulsava devido à falta de força na língua. Nestes casos, o uso da mamadeira já era indicado desde cedo para não descompensar o coração. O choro era fraco e ela suava bastante enquanto se alimentava. Os sinais foram aumentando até chegar ao quadro de insuficiência cardíaca, que era o indício de que a intervenção cirúrgica estava próxima.

Não nos faltou nada. A equipe que a acompanhou (e a acompanha até hoje) foi maravilhosa e a saúde da Cerejinha foi sendo monitorada de tempos em tempos até ser definido o melhor momento para operar. As perspectivas eram animadoras, sim. As chances de sucesso eram altas, mas era difícil explicar isso ao meu próprio coração de mãe. Aflita e nervosa, as minhas noites de sono, geralmente, eram interrompidas por sonhos ruins, e não por ela (que sempre dormiu como uma bela adormecida).

belaadormecida

Cerca de 40% dos bebês com Síndrome de Down (SD) nascem com cardiopatia congênita, mas muitos não precisam de intervenção cirúrgica. Algumas anomalias são curadas por cateterismo, outras são tratadas com remédios e há ainda aquelas que somem com o tempo. No caso da Maria Fernanda, desde a gravidez já sabíamos que o peito dela teria que ser aberto, pois ela tinha o Defeito do Septo Átrio Ventricular (DSAV) com válvula única, bem comum na SD, mas nem por isso um problema simples. E para complicar um pouco mais, após o nascimento também foi confirmada a Persistência do Canal Arterial (PCA).

Eu queria adiar ao máximo o momento de entregá-la ao bloco cirúrgico. Queria apertar, morder, beijar, curtir e não pensar em nada ruim. Queria levá-la para longe, fugir, mas sabia que era a única chance para ela sobreviver e ter uma vida com qualidade. Com apenas um relógio e um terço no bolso, seguimos com ela pelos corredores frios do hospital. Ela no colo do pai e eu segurando firme a sua mão. Eu olhava para ela e pensava “Filha, fiz o que pude até aqui. Agora é com você. Confio em você. Vá lá, guerreira. Vença mais esta por nós!”

Vestida com a roupinha do hospital, lá se foi a pequena Cereja nos braços da anestesista. As notícias na sala de espera eram atualizadas de hora em hora. Eu não conseguia me aquietar, mas senti muito forte a energia positiva da corrente de orações que se formou em prol da vida da nossa pequena. Quatro horas e poucos minutos se passaram até o último e definitivo boletim médico. Tinha acabado. Em breve, Maria Fernanda estaria na UTI novamente. A expectativa pelas 48 horas seguintes foi grande. Era um tempo crucial para o sucesso do pós-operatório.

Apenas no dia seguinte pudemos vê-la. Entubada, sedada, inchada. Nem parecia que era ela. Mas, aos poucos, a pequenina vitoriosa se recuperou e pude, mais uma vez, sentir a deliciosa sensação de tê-la em meus braços saindo de um hospital. Tínhamos ainda pela frente um período de recuperação, mas o maior obstáculo havia sido vencido. Cerejinha estava, finalmente, curada.

E para quem ainda não conhece o sorriso mais lindo do mundo, esta é a Cerejinha poucos dias antes da cirurgia.

cherry

* Ana Flavia Jacques, jornalista e mãe de primeira viagem da Maria Fernanda, a Cerejinha Baby, uma linda e doce garotinha com síndrome de Down. As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

Anúncios