Questionando Diagnósticos de Dificuldades Escolares

por Beatriz de Paula Souza, Portal do Educador

Trabalho há 15 anos como psicóloga de um serviço que realiza atendimentos psicológicos a crianças e adolescentes (e às vezes adultos) que passam por dificuldades e sofrimentos em suas vidas escolares. Há cerca de cinco anos, chamou-me a atenção o aumento imenso da frequência com que os pais que nos procuravam tinham entre suas explicações para essa situação de seus filhos, uma suspeita ou uma certeza de que eles eram portadores de distúrbios neurológicos, principalmente o Transtorno do Déficit de Atenção (TDA), com ou sem hiperatividade (TDAH), e a dislexia.

Muitas vezes essas explicações vinham acompanhadas de laudos médicos ou de equipes multidisciplinares. Em outras, professores as tinham levantado e, em outras ainda, haviam encontrado informações e listas de sintomas de tais supostas doenças na mídia, principalmente na internet.

Nos atendimentos destas crianças e adolescentes, buscávamos construir relações significativas e de aposta, com o foco na identificação e fortalecimento de suas potências, construindo o trabalho de modo a que essas crianças ocupassem um lugar de sujeitos, protagonistas. Ouvíamos sua versão sobre o que produzira seu encaminhamento ao atendimento e qual era seu pedido. Juntamente com a família e a escola, resgatávamos sua história de escolarização, atentando para as condições de ensino e não apenas para como esses meninos e meninas se comportavam, de maneira descontextualizada, como se as pessoas se comportassem do mesmo modo em quaisquer circunstâncias. Promovíamos, atentos à ética, a circulação das informações e versões sobre o que ocorria, entre os principais envolvidos na situação (geralmente criança/adolescente, pais ou responsáveis e educadores), propiciando que todos tivessem uma visão mais complexa e rica do que ocorria e do processo de produção dela, buscando sentidos e caminhos de superação conjuntamente.

Nunca confirmamos tais diagnósticos. Nunca. Emergiram, sim, histórias de crianças que não aceitavam ficar meio período sentadas, paradas e quietas. Que não conseguiam conter sua vivacidade, sua necessidade de se movimentar e de se relacionar. Que quando tinham a oportunidade de passar férias em espaços abertos, apresentavam-se de modo muito diferente daquele ser “infernal” da escola. Que, no atendimento, mostravam-se inteligentes e capazes de passar um encontro inteiro, de uma hora, atentas e quietas montando um quebra-cabeças, por exemplo, em flagrante contradição com seus laudos de déficit de atenção e hiperatividade.

Emergiram, ainda, muitas crianças que haviam tido tropeços em seu processo de alfabetização e foram passando de ano sem ter quem as alfabetizasse, transformando-se não raro em exímias copistas, para disfarçar sua humilhante e dolorosa condição de não saber ler e escrever.

Algumas apresentaram sim deficiências orgânicas. Síndrome de Down, anóxia no parto que lesara significativamente o cérebro e outras, que afetavam seu desempenho escolar e relacionamentos. Mas eram pouquíssimas. E o diagnóstico não era TDAH ou dislexia.

Analisando a maneira como os laudos haviam sido construídos, verificamos que em nenhum deles encontramos registros de uma pesquisa mínima das condições de ensino pelas quais estas crianças e adolescentes haviam passado e passavam. No máximo, descrições descontextualizadas de como eles se apresentavam na escola. Quando presentes. Nem mesmo uma pesquisa atenta das relações familiares havia sido feita.

As listas de sintomas tão consultadas eram genéricas e extremamente subjetivas. Não consideravam circunstâncias, processo, nem mesmo idade! Ora, se alguém tem dificuldade de esperar sua vez para falar e tem seis anos, não é o mesmo do que se faz isso com 12. Ter dificuldade para brincar de maneira calma: e um temperamento extremamente vivaz e estilo de estar no mundo muito corporal pode ser patologizado? Parecer não ouvir quando falam com ele: mas quando falam o que? Para escovar os dentes ou para tomar sorvete? Sei que a questão é o conjunto. Mas o conjunto é tal que é muito fácil qualquer pessoa se encaixar, principalmente se analisado por alguém com um olhar patologizante.

Consultando a literatura científica, deparei-me com estudos que mostram o quanto os diagnósticos de TDA/TDAH e dislexia são, ao contrário do que é o mais divulgado, controversos. Não há unanimidade no campo da Medicina sobre se realmente existem. Pesquisas que supostamente os comprovam têm sido apontadas como tendo problemas metodológicos e de interpretação de resultados.

O que posso dizer, por experiência própria com diagnosticados, é que o resgate da normalidade dessas crianças e adolescentes e a busca conjunta de soluções nos âmbitos familiar e educacional para questões que produziram dificuldades e sofrimentos que nos chegaram, tem produzido avanços e grandes melhoras. Não só para essas crianças e adolescentes, mas para todos os outros principais envolvidos: pais e educadores, transformando, assim, não só a criança e ajustando-a a ambientes adoecidos e adoecedores, mas aproveitando seu potencial de desvelar o que há de doentio a ser transformado à sua volta. Trazendo, enfim, mais saúde a todos.

Estas experiências indicam que a medicalização (termo que designa a operação de conferir uma aparência de problema de saúde, individual, a questões de outra natureza, geralmente coletiva, social e institucional) da Educação aponta para a necessidade de se repensar a Educação que temos. Ela nada mais é do que uma estratégia de manutenção e ocultamento da imensa precariedade do nosso ensino que, entre outros, afeta duramente mesmo seus agentes mais diretos, os professores, produzindo adoecimento em massa desses profissionais.

E, para além desta precariedade, indica a crise de modelo de escola que enfrentamos. Evidencia-se que, nos marcos de uma Educação que tem na homogeneização um dos seus pilares estruturantes, não há solução real para a rica diversidade das possibilidades de ser do gênero humano possa encontrar lugar e ser vivida como riqueza. Será transformada, ao invés, em estorvo e doenças.

 

Beatriz de Paula Souza é psicóloga e Mestre em Psicologia Escolar pelo Instituto de Psicologia da USP, onde coordena o serviço de Orientação à Queixa Escolar. É membro do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade e do Grupo Interinstitucional Queixa Escolar -GIQE. Organizou os livros “Orientação à Queixa Escolar”, “Medicalização de Crianças e Adolescentes” e “Saúde e Educação: muito prazer!”.
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