Pet Terapia: a experiência de uma escola especial

Aprendendo a viver

A fase escolar é um período especial para a construção de conhecimento e convivência social das pessoas. Crianças e adultos especiais, como as que tenham síndrome de Dow, e as autistas, nem sempre podem ter essa experiência na vida. Graças as escolas que trabalham apenas com essas pessoas, a realidade pode mudar. O cotidiano com outras crianças e animais melhora a qualidade de vida e proporciona muitos benefícios a essas crianças. A melhora pode ser perceptível no estado físico, mental, social e emocional dos alunos.

Uma dessas escolas, que fica em Goiânia no setor Jardim América, tem o auxílio da mascote Lola, uma cadelinha da raça labradora que convive diariamente com os 15 alunos. Além de ser especial pelo trabalho desempenhado, Lola consegue distrair e desestressar as crianças, que por vezes travam em algum exercício por conta do nervosismo.

Para a proprietária da escola Karla Ismaragda Franco Lage, as crianças especiais, se sentem mais felizes pela convivência que tem entre os colegas de classe e com a Lola. “Sou apaixonada por criança, sempre trabalhei com elas, mas de uma forma voluntária. A missão da nossa escola é justamente dar oportunidade para a criança que não tem condição de ter uma vida inclusiva normal. Buscamos dar a oportunidade de viverem como as outras crianças. Trabalhamos com adolescentes e adultos que já não teriam mais a possibilidade de estar no ambiente de uma escola normal”, ressalta.

A felicidade explícita no rosto de cada um, demonstra como o convívio com outras pessoas os fazem bem. “A felicidade deles de pegar um caderno, de escrever, nossa é uma coisa incrível, conseguir sair da escola, chegar a uma lotérica e pagar uma conta, parece algo normal para nós, mas é uma superação para eles. É diferente quando eles estão com os pais e quando estão conosco. Oferecemos a eles toda a liberdade, e com essa liberdade eles têm autonomia, segurança. Podemos fazer uma comparação de quando nós éramos mais novos, tínhamos os nossos grupos, e os nossos meninos não tem isso, a escola, hoje, é o grupo deles, diferente daquele que convivem em casa que também é importante claro, mas é preciso mudar os ares. Queremos mostrar a eles do que são capazes”, diz a educadora.

Karla esclarece que na escola não há distinção dos alunos, desde a criança mais nova, de nove anos, até o Rafa, de 44 anos, são todos iguais do portão para dentro. “A diferença de idade é cronológica, a mental é que influencia, o Rafa é nossa criança mais velha, então quando vamos fazer uma caminhada, tem toda uma situação diferente, a gente tem que parar um pouco porque o Rafa não consegue caminhar como os outros caminham, e eles são muito solidários uns com os outros, perguntam a ele se está tudo bem, se ele quer que parem para ele descansar. Toda vez que vai entrar uma criança nova, ou um adolescente novo na escola, sentamos com os meninos e fazemos a apresentação do novo aluno. Na minha concepção uma criança especial não é sinônimo de uma síndrome, nossos meninos na verdade são muito mais sensíveis, e a compreensão deles vai muito além do que imaginamos. Um bom exemplo é quando eles dão a mão para o Rafa, perguntam se ele está cansado, se quer se sentar, eles se ajudam. O que acontece muito e acaba se tornando uma dificuldade, é quando eu saio com os meninos, e os olhares das pessoas mudam quando os vêem, não acho positivo para eles”, relata.

Outro fator importante é fazer com que os pais não subestimem seus filhos pelas dificuldades que possam ter. A vivência com outras pessoas também os ensina a lidar com diversas situações. “Aqui dentro da escola, no aprendizado, tentamos fazer com que os pais entendam que os alunos vão aprender uns com os outros, cada um da sua maneira e no seu tempo. Então na escola o curriculum é individual, você conhece a criança, persiste com ele e tenta introduzir ele naquele grupo, essa é a diferença para com as escolas convencionais, além de terem um plano de aula fechado desde o início das aulas, o que nós também não temos. As quatro turmas que temos, não são engessadas, existem momentos em que o Arthur, um dos nossos alunos, não quer ficar com sua turma convencional, então ele vai para a outra. Ele não está ali para aprender leitura e escrita, ele está socializando, e isso também é muito importante. O Arthur gosta do Mateus, um amiguinho da escola que é da outra turma, então eles brincam com a calculadora, com a Lola, enfim, socializam. Como em qualquer outro lugar, aqui eles também precisam de regras, que são as seguintes: eu não posso me machucar, não posso machucar um amigo e não posso quebrar material. Em todo caso conversamos com os meninos e mediamos às situações, então às vezes ele não quer participar de uma atividade, para ele não é interessante, ele tem a liberdade para busca outros amigos, fazer outra coisa que queira desde que siga aquelas regrinhas”, explica Karla.

Pet Terapia

A aluna Luana Pereira Carvalho, 24, é autista, convive bem com as outras crianças e aprendeu a lidar com o medo pelos animais com a ajuda da mascote Lola. Durante uma caminhada nas redondezas da escola, ela começa sendo guiada pela labradora, depois de pegar confiança nas próprias pernas, ela começa a se soltar, passa na frente de Lola e toma o comando da situação. Um pequeno buraco sendo ultrapassado, descer da calçada, subir uma rampa, cada obstáculo é um sorriso mais largo que outras cenas lindas que inspiram perseverança e vontade de viver. Podem parecer coisas simples, porque para muitos, são ações desempenhadas facilmente, mas para ela é um desafio, no qual luta para vencer com êxito dia após dia.

A mãe dessa menina tão especial se chama Luiza Frauzino, e tem muito orgulho da filha. “A Luana já passou por diversas escolas, até encontrar uma na qual ela realmente quisesse ficar, foi difícil, mas conseguimos. Hoje ela não reluta para ir à aula, muito pelo contrário. Acho que o importante mesmo é ela se sentir bem, até por que o autismo quase nunca vem sozinho, além do autismo clássico, ela também tem deficiência mental, minha filha está conseguindo se superar”, ressalta.

A ajuda da labradora Lola é de suma importância para o convívio das crianças, além de deixá-las mais calmas, como no caso da Luana. “Ela morria de medo de cães, eu moro próximo ao Parque Areião, não conseguia caminhar com ela por lá e era difícil até para sair de casa, ela ficava muito nervosa quando via um animal, não só cachorro, mas qualquer um que aparecesse. Depois que ela passou a conviver com a Lola, as coisas mudaram completamente, conseguimos passear na rua, e sair para outros lugares, ela já está se acostumando com a ideia de que eles não fazem mal a ela. Fiquei muito emocionada em um dia que fui até a escola e a vi deitada em cima da Lola, acho que foi uma das cenas mais lindas que já presenciei na vida. Ela não permite que a beijem, mas a Lila a lambe toda e ela acha o máximo”, diz Luíza.

Capoeira Angola

A professora Ana Paula Maluf, dá aula de Capoeira Angola, em uma apresentação da turma, durante a visita da equipe do DM, os aluno ficaram tímidos, mas mesmo assim percebíamos a vontade que eles tinham de interagir  com a Ana Paula e se divertirem. Alguns alunos faziam questão de dar golpes e gingar com a professora, se sentiam os melhores capoeiristas do mundo, o que para ela e quem presenciava a cena, realmente era verdade. As crianças conseguiam acompanhar a música que Ana Paula cantava na roda, além de estimular a fala dos alunos, ela consegue a interação e desenvolvimento motor deles.

Anúncios