Papo de pai: Desde que… por Carlos Wagner Jota Guedes

Desde que o João nasceu o mundo é sempre mediado pela expressão desde que. Para outros, sempre foi assim, para os deficientes de toda forma, para os pobres, negros, comunidade homoafetiva, “loucos” de toda espécie, os estigmatizados. Para esses, o acesso aos objetos legítimos da sociedade só ocorrem desde que os pobres deixem de ser pobres, as relações homoafetivas sejam discretas e bem comportadas. Os que têm sofrimento mental, precisam se tornar normais e os deficientes, pessoas que enxergam, que andam, que ouvem….. O acesso ao mundo simbólico e material é sempre formulado pela tônica: desde que… Mas o que isso pode significar? Aos meus olhos sugerem três tipos de argumentos.

         expressa o abismo moral que está enraizado em nosso projeto de sociedade de que aquele que é diferente é ruim, é problemático, é doente e que precisa ser consertado.

a ideia de que diferente tem que se tornar igual para ser conhecido e reconhecido, perdendo assim, sua singularidade diferencial.

significa que podemos ser diversos, politeísmo de valores, mas não podemos ser diferentes, ou seja, apenas um outro ponto o espaço que não está reduzido pela norma, não pode.

Assim, um gordo deve se sentir mal por ser gordo. O seu prazer e seu desbunde alimentar é comumente visto como falta de amor à vida saudável, desleixo. Mas quem disse que todos têm o desejo de viver muito tempo? viver o tipo saudável?. Aos olhos da sociedade saudável, ele pode existir desde que sempre seja um adepto de dietas de emagrecimentos, desde que seja um infeliz, desde que concorde em pagar um acréscimo na passagem aérea. Fora isso é um anormal. Gordo é o amigo gente boa, mas infeliz.

De forma diversa, uma pessoa que usa cadeira de rodas passa por toda a sorte para não ser infectada num banheiro publico inicialmente destinada a ela. A situação é assim, existe o banheiro adaptado, existe a placa dizendo que é banheiro especial, mas isso só vale se estiver sendo usado por uma pessoa com deficiência. Portanto, desde que a pessoa com deficiência não esteja fazendo uso, qualquer um usa.

A mesma coisa acontece nos discursos de inclusão escolar que estão espalhados por aí. Uma grande fábrica de dinheiro e de manutenção de muitos em situações desumanas. Dizer que é inclusivo é a nova moda do ambiente escolar, mas quantas são realmente capazes de executar a inclusão. As crianças neste processo estão ali para serem vistos (como objetos) ou para aprenderem e socializarem como qualquer outra criança? Desumanas também são as demais segregações escolares. Assim, desde que a criança não atrapalhe o andamento da escola ela é bem vinda. Desde que os pais fiquem no seu lugar, tudo bem. Certa vez um pai partilhou comigo que foi a escola de seu filho perguntar sobre o material didático (livros) a ser comprado para seu filho com paralisia cerebral. Todos na sala já tinham recebido a lista, menos o seu filho. A coordenadora ao ser indagada sobre a lista disse algo como: “para quê você vai gastar esse dinheirão com o seu filho que não vai aprender nada”?

Inúmeros são aqueles que sofrem o desde que, essa entidade normativa que nos põem alabastros próprios aos asnos e cavalos. É o trabalhador que tem direito ao seu salário desde que cumpra as metas de produtividade. É o manifestante que só é manifestante desde que fique em silêncio com as desigualdades. É o pesquisador que só consegue progredir na carreira desde que seu currículo lattes seja um amontoado de publicações. É a vida do João, desde que ele tenha uma paciência de Jó e um esforço hercúleo, pode vir a crescer e viver.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

 

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