Em Defesa da Educação Inclusiva é o tema da minha entrevista ao site Caderno de Educação

O site Caderno de Educação nos convidou para um bate-papo sobre educação inclusiva. O resultado foi a entrevista publicada nesta quarta-feira, 18.09.2013. Bacana passar pelo Caderno de Educação e  acompanhar temas interessantes, especialmente voltados para os jovens. Espero que gostem da entrevista, publicada a seguir…

Em Defesa da educação inclusiva, Caderno de Educação

Mais do que garantir o acesso de toda criança à escola, a  educação precisa ser abrangentemente inclusiva. Embora esse panorama venha mudando, ainda há muito a caminhar. É o que mostra e o que sente Sônia Caldas Pessoa, mãe, professora, jornalista e criadora do blog “Tudo Bem ser Diferente”, que começou como um espaço para falar sobre uma experiência pessoal e se tornou um interessante espaço para trocar ideias e informações sobre diversidade e inclusão.

Na entrevista ao Caderno de Educação, Sônia fala claramente sobre as dificuldades e preconceitos enfrentados por quem tem alguma síndrome, necessidade especial ou somente foge dos padrões considerados “normais”. E isso vai do acesso de um deficiente físico ao preconceito estético que causa o bullying.

Crédito da Foto: Euler Júnior / Estado de Minas

A seguir, Sônia, que se diz inquieta e incomodada com o preconceito em geral.

Ótima entrevista para ler, refletir e decidir fazer parte da mudança.

Caderno de Educação – O que é “educação inclusiva” afinal?

Sônia Pessoa – A educação inclusiva pressupõe o direito de toda criança à educação. Mas é importante ressaltar que essa educação deve ter qualidade em uma escola regular e deve ser garantido o atendimento especializado complementar, de acordo com as especificidades da criança, e com as necessidades identificadas por profissionais que a assistem e pela própria escola. A Declaração Universal dos Direitos Humanos e diversos outros documentos prevêem essa educação de qualidade e, aos poucos, os países vão adequando as suas legislações.

Entendo que toda criança tem o direito de aprender e toda criança aprende independentemente de suas particularidades e das adequações que são necessárias para que a aprendizagem seja efetivada.

CE – Muito se fala sobre aceitar a diversidade nas escolas, mas até onde vai essa inclusão?

Sônia – São muitos desafios para atingirmos uma educação inclusiva plena, ou seja, não só matricular a criança com deficiência e permitir que ela frequente a aula. É preciso que a comunidade escolar se envolva com o processo de inclusão, adaptando, se for o caso, estratégias e materiais, permitindo que a criança se desenvolva e dando a ela condições de sociabilidade com os demais. Um dos problemas básicos é a resistência de algumas escolas em aceitar a matrícula de uma criança com deficiência. Diariamente, através do blog www.tudobemserdiferente.com eu recebo reclamações nesse sentido em diversas cidades brasileiras. Vencida essa barreira, existe a resistência de alguns professores que, muitas vezes por falta de informação e de conhecimento, não conseguem ter uma postura pró-ativa a favor da criança e ela acaba se tornando um problema. Existe a resistência de algumas famílias de alunos que não acreditam na inclusão e não gostariam que seus filhos, ditos normais, convivam com os diferentes. A maioria das barreiras é de origem atitudinal e reforça o preconceito. Mas felizmente esse cenário está mudando, muito lentamente, e já apresenta exemplos positivos e indica caminhos a serem seguidos.

CE – Em que fases da vida – pré-infância, infância ou adolescência – a questão do “ser diferente” precisa ser mais trabalhada?

Sônia – Acredito que a temática da diferença faça parte da vida em sociedade e deve ser tratada em todas as etapas da nossa vida, do nascimento à fase adulta, incluindo os idosos. A diferença está entre nós de diversas maneiras, com alguns casos graves e permanentes, e, por isso, não é possível separá-la por fases ou etapas. Mas, certamente, se abordarmos abertamente a diferença em casa, na escola e nos diversos espaços de convívio social, ela será cada vez mais naturalizada. Será percebida, abordada e compreendida como uma questão social e não como um problema individual de determinado cidadão ou de uma família.

Gosto sempre de lembrar que as crianças que convivem com a diferença desde bem pequenas entendem o que isso significa, são solidárias, na maioria das vezes, e contribuem para a socialização do diferente. Torna-se algo normal, rotineiro na vida delas. Aquelas que estão em guetos dos iguais, ou seja, em escolas ou ambientes que só aceitam um modelo, um padrão, terão mais dificuldade na vida adulta. E quanto mais há melhora na qualidade de vida, mais idosos teremos. Ou seja, essa compreensão da diferença se faz urgente. É uma construção social necessária. Precisamos percorrer um caminho que parece simples, mas que é extremamente delicado e cheio de desafios: casa, escola, empresas, governo, sociedade… É preciso pensar na formação dos professores. Eles são multiplicadores cotidianos e têm muita influência na formação do cidadão.

CE – Como você avalia a inclusão do jovem na educação hoje?

Sônia – O jovem talvez seja o grupo que mais sofra com a falta de inclusão. A partir da adolescência as comparações são muito frequentes, existem muitos casos de preconceito que podem gerar bullying e depressão. É uma fase na qual a pessoa busca liberdade, autonomia e um lugar de cidadão, com a garantia dos seus direitos. Em uma sociedade complexa, com tanta diversidade e ao mesmo tempo tanta intolerância, é preciso um olhar atento aos jovens. São muitas as cobranças do próprio jovem, dos familiares, da escola, da sociedade, em geral… Além de políticas públicas voltadas para os jovens, especialmente aqueles considerados diferentes, é preciso que família e escola acompanhem de perto o que se passa com eles.

CE – O seu blog “Tudo bem ser diferente” parece abordar os mais variados temas. Como nasceu a ideia e como você avalia hoje esse trabalho?

Sônia – A inspiração veio das dificuldades enfrentadas pelo meu filho na escola. Ele teve hidrocefalia quando bebê e ficou com sequelas de coordenação motora. Nada que o impeça de andar, brincar ou até correr, mas que provoca dificuldades para atividades como desenhar, escrever, entre outras que exigem muito equilíbrio e velocidade. Se os professores não se envolvem e não adaptam a atividade, ou não criam alternativas para que a criança se interesse em fazer o exercício, é muito comum surgirem dificuldades, dispersão e fuga. E aí surgem os rótulos e os estereótipos.

Quando publiquei os primeiros textos e recebi muitos retornos e pedidos de ajuda sobre assuntos variados que dizem respeito à inclusão, percebi que falar sobre inclusão é abrir o ‘leque’, é pensar em diferença e deficiência sob a ótica da diversidade e não da patologia. Não é possível pensar em inclusão plena se abordamos apenas uma determinada síndrome ou deficiência. É claro que é muito importante o trabalho direcionado de diversas entidades e blogs. Mas eu entendo que ao discutir amplamente o tema, conseguimos atingir o objetivo que é ter a diversidade na escola e na sociedade.

Os leitores do blog são familiares de pessoas com deficiência, pessoas ‘diferentes’ (que têm transtornos mentais, são hiperativos, foram diagnosticados com síndrome do pânico, com depressão, entre outros), profissionais de educação e de saúde, pesquisadores e interessados pela temática da inclusão, em geral. Há muitas pessoas interessadas em ampliar o debate sobre inclusão para que ele abranja a orientação sexual, crianças adotadas, enfim, minorias que normalmente são vítimas de preconceito.

Sônia Caldas Pessoa é professora universitária de Jornalismo, doutoranda em Estudos Linguísticos na UFMG, com projeto de pesquisa “Transgressão nas redes sociais: a estética contemporânea do discurso da diferença”.

Leia mais: http://cadernodeeducacao.com.br/news/em-defesa-da-educa%C3%A7%C3%A3o-inclusiva/

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