Jornalista com paralisia cerebral fala sobre o dia a dia e como driblou o preconceito de colegas e professores

SY5_4221_okPor Sônia Pessoa

Bernardo Fróes Bicalho foi meu aluno de Jornalismo. É do tipo comunicativo, risonho, animado e sempre dá um jeitinho de resolver os problemas que vão surgindo. Se não estou enganada, dei aula de rádio para o Bernardo. Alguns colegas de turma chegaram a me questionar, em particular, como ele faria a disciplina de rádio já que apresentava dificuldades para falar. As aulas foram cursadas normalmente e as atividades de gravação foram substituídas por produção, intensificando um trabalho que é comumente realizado na redação e nos bastidores das emissoras de rádio.

Anos depois reencontro Bernardo na rua… Ele passeava sozinho perto de casa e tivemos a oportunidade de trocar algumas ideias, ainda que rapidamente. Bernardo se tornou colunista do blog Eficiência Especial. Hoje ele está em Tudo Bem Ser Diferente e nos conta um pouco sobre a sua rotina, como driblou o preconceito de professores e colegas e alguns casos que considera inusitados. Confira o texto redigido pelo Bernardo.

O cotidiano de um jornalista com paralisia cerebral, por Bernardo Fróes Bicalho

“Sou Bernardo Fróes Bicalho, tenho 28 anos, sou jornalista e nasci com paralisia cerebral. A minha teoria (nunca comprovada e nem desmentida) é que minha mãe levou um susto com a morte de tios e primos, em um acidente, por que foi ela quem atendeu ao telefone da polícia, fazendo essa comunicação. Eles tinham vindo do interior esperá-la, pois, depois de quatro anos morando na Inglaterra, estava voltando definitivamente.

Nasci com oito meses e, segundo minha mãe, demorei um pouco para chorar. Fiquei algumas horas na incubadora, só depois pude ir embora da maternidade.

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No primeiro dia de aula em todas as escolas por onde passei, sofri preconceito de alunos e, principalmente, de professores que não sabiam lidar com as minhas dificuldades (na fala e no caminhar). No entanto, com meu bom humor e minha inteligência, não deixei isso transparecer para essas pessoas e as cativava tanto que, nos dias seguintes, elas viam que eu era como todos os outros, mas tinha algumas limitações.

Junto comigo, sempre, nessa caminhada da vida, estava minha família e meus amigos. Um anjo que caiu na minha vida foi Marcos Noronha, que era casado com a irmã da minha mãe. Ele me apoiou em tudo e, como os outros da família, me tratava de igual para igual, e não como um adulto e uma criança.

Casos inusitados:

Uma vez, no Hospital Semper, um homem perguntou para minha mãe: “Ele é tetraplégico?”

Eu fui com meu pai e minha mãe em um barzinho perto da minha casa. Como sou muito comunicativo, sentei-me à mesa de um casal, ao lado da nossa, para conversar com eles. Ao voltar para a minha mesa, a mulher foi até lá e comentou com minha mãe: “Tenho dois primos que nasceram com esse problema e um deles até morreu”. Depois perguntou: “Você tem só ele de filho?” Minha mãe falou: “Não. Tenho mais um, mais novo” e ela perguntou: “Ele é normal?” Um detalhe: Ela manca. Então eu fiquei pensando: o que é ser normal para ela?

Estava na casa de uma amiga, com Marcio Levy, meu professor de música. Depois de cantarmos, eu tocar e conversar, um parente da dona da casa (que nunca tinha me visto) perguntou para o Marcinho: “Qual o problema dele?” e ele, que é cruzeirense, respondeu: “É atleticano”.

Almoçando com o Adriano, meu irmão, em um restaurante perto de casa, eu pedi algo para beber e a garçonete perguntou para ele: “Ele vai querer copo?” Depois que ela saiu, eu perguntei para ele: “Será que ela achou que eu sou mudo?”

A minha maior dificuldade, hoje, é não poder andar sozinho pela cidade, por causa dos passeios irregulares, degraus existentes e atravessar a rua. Eu caminho aqui perto de casa e só vou pelo lado direito quando estou sozinho, pois o passeio do lado esquerdo é mais irregular. Adoro caminhar, mas raramente encontro pessoas que gostem de andar a pé. Dentro de casa, só tenho dificuldade de mexer no fogão e, por exemplo, tirar um prato de vidro do micro-ondas, porque tenho medo de me queimar e quebrar o prato.

Já consigo calçar sapato sozinho (o que até pouco tempo era um empecilho), pois esse novo possui velcro.

Evito pegar táxi de pessoas desconhecidas, pois tenho receio de que eles não me ajudem a descer quando chego ao destino.

Atualmente, sou colunista mensal do blog “Eficiência Especial”, da jornalista Márcia Francisco. O link para vocês acessarem, é: http://eficienciaespecial.blogspot.com.br/p/coluna-do-bernardo-froes.html“.

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