Papo de pai: Pequenos, médios e grandes passos, por Carlos Wagner Jota Guedes

fotoO João fez neste inicio de setembro seis anos. São seis anos tensos, intensos e de alegrias. Anos em que tive que aprender o que ensinei muitas vezes em sala de aula. Tive que praticar e criar métodos e antídotos para poder oxigenar o pulmão e o cérebro, mesmo quando só tinha ar para o João. Poder partilhar a vida com o João nestes seis anos foi e é sem dúvida uma experiência para aprender e reaprender a humanidade que habita em mim. Aprender a dar pequenos, médios e grandes passos.

Os pequenos passos são aqueles que colocam em dúvida as minhas maiores convicções. São aqueles constantes questionamentos, intencionais ou não, que o João me faz. Você quer que eu ande? Por que você quer que eu ande? Você gosta de mim assim como sou? Você queria ter outro João ou esse João que você tem? Pra que você quer que eu aprenda as letras? Por que você quer que eu respeite os outros? Por que sou importante para você? Ficaria aqui dias e linhas escrevendo essas pequenas e essenciais perguntas que o João faz todos os dias, milhares de vezes ao dia e que colocam várias interrogações na minha própria existência.

Procuro ser claro, isto é, o mais didático possível com ele, mas nem toda clareza e didática podem colocar para mim chão firme frente a simples presença dele. Um dia com o João é o momento em que viro seu aluno, descubro mundos e histórias. Ele me permite acessar partes de mim que não conhecia, jogar fora o que era penduricalho, reciclar interrogações e respostas, estabelecer vínculos até então impensáveis.

Os passos médios são as conquistas e derrotas de quem anda tateando. Se meu filho (ainda?) não anda ele é o que melhora os meus olhos, meu paladar, meu tato, meu olfato, minha memória e meu caminhar. Os passos médios também se referem ao reconhecimento de quem fez e faz o que é possível. E é tenso poder saber que existem coisas que são possíveis e que dou conta de fazer outras que não dou. É reconhecer que tenho limites, que tenho outras vidas que não são apenas as de pai. Acho que hoje, depois de seis anos começo a sair da gaiola da paternidade.

Os passos grandes se referem ao fato de eu, a minha companheira e o João termos sobrevivido, termos conseguido chegar até aqui, ainda acreditando que existe algo que podemos dar, que podemos receber e que podemos retribuir. Nada que seja infinito, mas que por enquanto vem sendo bom.

E imaginem o que o João nos pediu de presente de aniversário… Basta dar uma olhadinha na foto…

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

Anúncios