Papo de pai: Can-can, futebol e o aprendizado da vida social pela brincadeira, por Carlos Wagner Jota Guedes

image-1Ao completar os 6 anos em Setembro o João ganhou um interessante jogo, enfim alguém dá um brinquedo que não precisa de pilha, televisão e/ou computador, que fez parte da minha infância e que parece ser uma das poucas coisas que ele se interessou que não estão no mundo virtual. Quando criança eu chamava esse jogo de mau-mau e jogava com cartas comuns. Hoje, com a indústria do brinquedo a coisa ficou mais “sofisticada”. Veio um baralho dividido em 4 cores, com números, letras e figuras impressos. Na embalagem está escrito que o nome do jogo é Can-Can.

O primeiro dia em que propus ao João brincar com as cartas, ele não quis. Minha proposta era que enquanto preparava o almoço ele separasse as cartas pelas cores. Sem chance, ele nem encostou no baralho. No mesmo dia à noite voltei com a ideia de jogarmos o can-can, mas agora eu, ele e a mãe estávamos juntos na brincadeira. Foi ótimo!!! Jogamos umas três partidas e ele adorou. De lá para cá temos com certa frequência brincado desse jogo. Nessa brincadeira uma coisa chamou minha atenção, o estrito seguimento das regras do jogo pelo João. Ele entende quando começa e termina, qual a sua vez e o que precisa fazer com as cartas que estão na mesa e sua relação com as cartas que possui nas mãos. Como é um jogo que tem um ganhador e você pode “sabotar” os demais jogares fazendo-lhes ter que comer mais cartas, saltar jogadores etc, João costuma pedir desculpa toda vez que “sabota” alguém. É como se dissesse, “sei que o jogo tem vencedor, mas nem sempre vencer é o que importa e muitas vezes vencer pode ser chato”. Conversando com ele sobre isso, ele me disse algo como, “uma vez que alguém vence o jogo acaba”.

Esse ano o João despertou para o futebol. Não sei por que isso aconteceu agora, mas acho que tem relação com ter ido ao estádio para assistir uma partida de futebol pela primeira vez, ao fato de com frequência o João ter visto a família torcendo e alegre com o Atlético Mineiro na Libertadores. Pode ser futebol de areia, futebol de salão, showbol, não importa a variação, ele quer ver. Assim parece que o futebol se tornou algo significativo para ele. A partir desta significação o João tem construído uma espécie de moralidade.

Uma das primeiras perguntas que o João formulou quando viu o futebol pela televisão foi: “como os jogadores sabiam que o jogo começa e termina?”, apresentei para ele a figura do árbitro. Depois vieram perguntas diversas, para se situar: o que é impedimento, o que é escanteio, tiro de meta, lateral, falta……Posteriormente nasceram as perguntas sobre o goleiro: por que ele podia colocar a mão na bola, sem ser falta?, se ele podia fazer gol?, se o goleiro podia sair da área e chutar a bola com os pés? Etc, etc, etc.

Quando ele já achava que o goleiro poderia tudo, sem ser nunca advertido pelo arbitro, veio a expulsão do Vitor (goleiro do atlético) no jogo do galo contra o Criciúma pelo campeonato brasileiro. Vi naquele momento a cara de desilusão do João. Parecia que o fundamento moral dele – o goleiro pode tudo – havia sido destruído. Ele me perguntava angustiado “como podia o goleiro ser expulso”? “O juiz não sabe a regra? – goleiro pode tudo.”

Já conhecia literatura que afirma que brincar, principalmente para as crianças, não é um ato qualquer. Que a brincadeira é embutida de significados e da seriedade das coisas do mundo. Por isso uma das importâncias de brincar, além do ato de fazer de conta, é aprender como fazer de conta. Saber contar uma história dentro do campo de significados daquele contexto. Neste caso as crianças são expostas para apresentar ao outro e conflitar com ele suas representações de mundo.

Brincar com o João ou ver o João brincar é uma condição privilegiada. Por causa de suas limitações corporais ele questiona se aquela forma como está exposto o jogo inclui ou não sua participação – isso necessariamente não é feito com muita educação. Por outro lado, a dependência de alguém para empurrar sua cadeira fez com que ele arranjasse uma forma pessoal para jogar futebol: ele é arbitro e/ou narrador. Nos dias de brinquedo na escola leva uma corneta e colore uns papéis para serem seus cartões.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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