Emprego especial: recrutadores têm dificuldades para encontrar pessoas com deficiência

Um dos principais entraves que dificultam a contratação de pessoas com deficiência é a baixa escolaridade

Priscila Chammas / Correio 24h
priscila.chammas@redebahia.com.br

Suponha que o RH de uma empresa seja obrigado a optar entre dois candidatos com igual qualificação para uma mesma vaga, sendo que um é portador de necessidade especial (PNE) e o outro não. Quem seria selecionado?

“Contrato o deficiente, não tenha a menor dúvida”, responde a gerente de Desenvolvimento Humano da Unijorge, Daniela Andrade. “Como somos uma empresa de grande porte, somos obrigados, pela legislação, a ter 5% do quadro composto por pessoas com necessidades especiais, mas é muito difícil preencher essas vagas”, conta a recrutadora, fazendo eco à queixa de boa parte do mercado.

“Estou com duas vagas em aberto desde o final de maio. A gente divulga, procura, mas é muito difícil encontrar. Numa seleção para pessoas sem deficiência, aparecem de 10 a 15 candidatos. Para uma vaga de PNE, aparecem dois ou três”, compara a supervisora de RH da faculdade Área1, Ariele de Oliveira Andrade.

Segundo ela e os outros profissionais de RH, há dois entraves principais que dificultam a contratação de pessoas com deficiência: “O primeiro é a escolaridade. Geralmente, pedimos segundo grau completo para os candidatos a uma vaga. Mas, no caso de pessoas com deficiência (PcD), a gente até abre mão. Se tiver ensino fundamental, já contrata”, relata a gerente de RH do GBarbosa, Jaqueline Fontes.

O segundo entrave, completa, é que no momento em que o funcionário tem a carteira assinada, ele perde o benefício de um salário mínimo, pago pelo governo”. Por isso, as vagas para salários menores são dificílimas de aparecer interessados”, completa Ariele. Considerando-se que as vagas para maiores salários exigem uma maior qualificação, dá para ter ideia do problema que o mercado enfrenta para preencher as cotas definidas pela lei.

Conceição Veloso, consultora de capital humano do Walmart no Nordeste, completa: “O que justifica o fato de estarmos sempre em busca dessas pessoas é a concorrência em geral. A lei de cotas de PNEs aquece ainda mais o mercado. Em alguns casos, há também a falta de informações por parte dessas pessoas, que por desconhecimento não sabem que possuem potencial e condições para estar no mercado de trabalho”.

Autoestima
O assistente administrativo Rangel Camilo Farias, 27 anos, é uma exceção. Vítima de um AVC em 2007, ele ficou com um lado do corpo paralisado. Mas, desde 2011, abriu mão do benefício do governo e trabalha na Unijorge.

Lá, além de ganhar um pouco mais, tem 90% de uma bolsa para cursar Direito. “Não me vejo na condição de incapaz. Trabalho, estudo, posso fazer tudo o que as outras pessoas fazem”, justifica ele, que é natural de Governador Mangabeira e divide apartamento com um primo.

Morar longe da família também não assusta Thamires Leite Pedreira, 21 anos, que ocupa a mesma função que Rangel, só que em outra faculdade, a Área1. Com um encurtamento em uma das pernas, ela saiu de Feira de Santana em busca de uma oportunidade de emprego. Por enquanto, está hospedada na casa do namorado, mas se prepara para se mudar para um pensionato. “Não tenho medo não. Saio sozinha, resolvo minhas coisas…”, conta.

O cargo que Thamires e Rangel ocupam é um dos que mais empregam pessoas com deficiência. “Geralmente, é o cargo que conseguimos preencher com mais facilidade, porque não exige muita qualificação”, explica Daniela, da Unijorge.

Com a dificuldade de ter candidatos prontos nas seleções, muitas empresas optam por fazer o treinamento por conta própria. É esse o caso dos supermercados, por exemplo. Trabalhando como empacotador há oito anos no Bompreço, Alan Almeida da Paixão, 27 anos, não viu na síndrome de Down um entrave para trabalhar.

Ele recebeu o treinamento junto com funcionários sem nenhuma deficiência, e hoje desempenha com facilidade a função que lhe foi atribuída. “Eu chego 7h, bato meu cartão e começo a trabalhar”, conta o jovem, ao ser perguntado sobre o trabalho. “Ensaco tudo e boto no carrinho”, completa. “Ele é muito disciplinado. Vem para o trabalho sozinho, é muito inteligente e adora dançar”, conta a chefe de Alan, a gerente Rita Pinheiro.

Colega de profissão, o empacotador surdo-mudo do GBarbosa Jocimário Neri

da Costa, 36 anos, também é elogiado. Os colegas dizem que ele é bastante dinâmico, animado e se dá bem com todo mundo, PcD ou não. “Me sinto útil”, resume ele sobre o trabalho.

Lei estabelece cotas a depender do número total de funcionários
A Lei de Cotas (art. 93 da Lei nº 8.213/91) estabelece um percentual obrigatório de funcionários com deficiência, a depender do tamanho da empresa.

Instituições que tenham de 100 a 200 empregados precisam ter 2% do quadro composto por pessoas com deficiência. Já as com 201 a 500 funcionários devem ter 3%; as com 501 a 1 mil, 4%; e as com mais de 1 mil funcionários precisam ter 5% da folha composta por pessoas com deficiência.

Segundo a advogada trabalhista Ariadne Santana, da BCM Advogados, a lei não estabelece para que cargos essas pessoas precisam ser contratadas, nem o tipo de deficiência delas, o que leva muitas empresas a procurarem limitações leves, apenas para não ter problemas com o Ministério Público. “Também não se pode exigir experiência do candidato com deficiência. Antes de ser instituída a obrigatoriedade, raras eram as empresas que as empregavam. Portanto, a elas não foram dadas oportunidades para terem em seu currículo experiência profissional”, acrescenta.

No caso de as empresas não encontrarem pessoas capacitadas para as funções, Ana Patrícia Dantas, também advogada trabalhista, diz que se a empresa comprovar que divulgou as vagas e fez a seleção, ela não pode ser punida. “Ela tem que oferecer a vaga”, diz ela, que é diretora da Escola Superior de Advocacia Orlando Gomes.

Faculdade promove curso gratuito de qualificação para deficientes
“As empresas se queixam de falta de qualificação e, em parte, é verdade. Mas isso começa lá na escola, a sociedade não foi construída para a acessibilidade”, avalia Jaqueline Viana, professora de Psicologia e responsável pelo projeto Novo Olhar, da Faculdade Ruy Barbosa.

Querido pelos colegas, Alan (centro) posa com a chefe Rita (de colete) e o melhor amigo Raul (atrás dele). (Foto: Almiro Lopes)No projeto, alunos, funcionários e professores trabalham capacitando pessoas com deficiência para o mercado de trabalho (veja quadro). Jaqueline critica os gestores das empresas. “Muitas vezes, há uma resistência dos chefes de setor, que acham que uma pessoa com deficiência ali irá atrapalhar a produtividade. Mas, na verdade, ele não perde nem ganha nada. É apenas mais um funcionário que tem coisas a aprender e a ensinar”, resume.


Serviço

Cursos disponíveis: Auxiliar Administrativo (I e II), Contas a Pagar e Receber, Informática Básica e Avançada, Relações Interpessoais e oficinas.

Quem pode participar:  Pessoas com deficiência física, auditiva, visual ou mental, com escolaridade mínima de 1° grau.

Local: Faculdade Ruy Barbosa (Rio Vermelho)
Inscrições: (71) 3205-1745 ou projetonovoolhar@hotmail.com

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