No Recife, cego volta a pedalar com ajuda de amiga e bicicleta dupla

‘A limitação está na cabeça das pessoas’, diz Renata, amiga e ‘anjo’ de Milton.

Para eles, cidade deveria passar a valorizar outros meios de transporte.

A bicicleta de Milton tem dois quadros, dois pedais e permite que ele, deficiente visual, pratique exercício. (Foto: Lorena Aquino/G1)A última vez que Milton Carvalho pedalou tinha sido ainda na adolescência (Foto: Lorena Aquino/G1)

Dezessete anos depois da última vez que andou de bicicleta, o publicitário pernambucano Milton Carvalho, 32 anos, voltou a usar o meio de transporte. Comprada na semana passada, a ‘magrela’ faz parte de um projeto duplo: tornar regular a prática de exercícios físicos e refletir sobre a mobilidade no Recife, tema que faz parte da programação da Semana Nacional de Trânsito, que culmina no Dia Mundial Sem Carro, celebrado no domingo (22). Vale a pena mencionar mais um detalhe: Milton Carvalho é cego desde que nasceu.

A nova bicicleta de Milton tem dois assentos e dois pares de pedais. Apesar de saber andar desde o tempo da adolescência, por causa do trânsito de hoje Milton conta com a ajuda de uma amiga de faculdade, a publicitária Renata Gabriella, 26 anos, para se locomover pela cidade no novo equipamento, que acomoda dois ciclistas. Ela é quem fica na frente, direcionando o guidão. “A limitação está na cabeça de cada um. Não é porque você não vê que vai deixar de pedalar”, defende Renata.

Milton ainda não tem a pretensão de utilizar o meio de transporte para ir ao trabalho, mas já se sente vitorioso com a possibilidade de se movimentar. “Eu sempre tive o desejo de praticar exercícios físicos. Ficar em casa em cima de uma bicicleta ergométrica, suando e sem sair do lugar, é muito frustrante. Não me adaptei”, lamenta.

Mesmo não usando a bike no dia a dia, Milton também não anda de carro frequentemente. Para ele, o transporte público lhe oferece independência para fazer todos os trajetos sozinho, sem precisar da ajuda de ninguém a não ser da sua cão-guia, Shiva, de 5 anos – algo que a bicicleta dupla e um carro, por exemplo, não permitiria. “Não quero que ninguém viva em função de mim”, diz.

Na mesma semana em que comprou a bicicleta, Milton participou do Desafio Intermodal, um evento organizado por voluntários com a ajuda do grupo Direitos Urbanos e do Observatório do Recife. Voluntários se candidataram para fazer um mesmo trajeto por vários meios de transporte diferentes. Milton foi o único deficiente visual participante. Ele fez o trajeto do Centro da cidade à Zona Sul, combinando metrô e ônibus, em 1h20. “Outra pessoa que não era deficiente visual fez o mesmo trajeto, pelos mesmos caminhos, em 1h. Meu grande dificultador são as calçadas, um fator extremamente limitante”, explica Milton, relatando a quantidade de comerciantes, vendedores ambulantes e lixo que estão nas calçadas e ruas da cidade. “É difícil para mim e também para o meu cão-guia. Mas o desafio veio apenas comprovar certezas que eu já tinha. Existe gente com a mente completamente absurda. Não há convivência entre carros, pedestres e bicicletas, há muito individualismo e desrespeito”, define.

A bicicleta nova de Milton tem dois pedais, dois quadros e dois guidãos. (Foto: Lorena Aquino/G1)A bicicleta nova de Milton tem dois pedais, dois
quadros e dois guidões (Foto: Lorena Aquino/G1)

Bike Anjo
Renata Gabriella é uma das recifenses que utiliza e incentiva o uso da bicicleta e também grande apoiadora de Milton no projeto do amigo. Ela até tenta animar o filho dele, de 11 anos, a aprender a andar de bicicleta e se tornar um companheiro em potencial do pai. “Se você estiver pensando ‘poxa, não tenho ninguém para andar de bicicleta comigo’, eu digo que nós estamos aqui para isso”, diz a jovem, se referindo ao Bike Anjo, grupo de voluntários de que faz parte. O próprio Milton tinha medo de comprar a bicicleta – um gasto aproximado de R$ 1 mil – e não usá-la. “Mas eu e Renata estamos aqui e nos damos muito bem. A gente se comunica, ela é experiente, me passa muita segurança e tranquilidade. Isso é indispensável”, garante.

Renata anda de bicicleta diariamente para ir de casa, na Zona Norte do Recife, até o trabalho, no Centro da cidade. Quando atua pelo Bike Anjo, ensina pessoas a andar de bicicleta, sinalizar adequadamente, se comportar no trânsito e mostrar as melhores rotas para evitar caminhos difíceis. “A ideia é saber combinar modais. Não queremos que todo mundo fique andando de bicicleta o tempo todo, mas não é possível que as pessoas se divirtam dentro de um carro, no engarrafamento. Vivemos em uma cidade solar, o custo-benefício de um carro não compensa”, afirma. “Eu digo para os meus colegas: ‘quando você chegar no trabalho e tiver uma vaga para o seu carro, lembre de mim. Ela está ali porque eu escolhi vir de bicicleta’”.

O serviço funciona pela internet e as pessoas pedem ajuda a um anjo que vai ensinar a fazer trajetos na cidade e entender como funciona o deslocamento para quem está sobre duas rodas — e sem motor. “Eu vou na minha bicicleta, a pessoa vai na dela e vamos juntas. Também mostramos as melhores maneiras de combinar modais, porque sabemos que a bicicleta nem sempre é vantajosa. Podemos, por exemplo, ver o melhor caminho até a estação de metrô mais próxima e, de lá, seguir adiante. Somos anjos mesmo, pau para toda obra”, brinca. No último domingo de cada mês, o Bike Anjo também ajuda pessoas que não sabem andar de bicicleta com aulas no Parque da Jaqueira, Zona Norte do Recife.

A publicitária Renata se dispôs a andar de bicicleta com o amigo e colega de profissão, Milton. (Foto: Lorena Aquino/G1)A publicitária e ‘anjo’ Renata se propôs a andar de bicicleta com o amigo Milton. (Foto: Lorena Aquino/G1)
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