Papo de pai: “Do acesso ao cuidado, do cuidado aos direitos”, por Carlos Wagner Jota Guedes

convenção

Preciso começar pedindo desculpas aos leitores que acompanham o papo de pai. Na semana passada não consegui escrever. Tentei, tentei, tentei, mas não consegui. Não consegui escrever uma linha em que o fígado não estivesse presente. Preferi assim, não expor os leitores ao meu mau humor. Essa semana volto com o vigésimo primeiro texto desta coluna.

Tenho um amigo que é verdadeiramente filósofo, ama profundamente o conhecimento. Avesso às formalidades da vida acadêmica só este ano entrou para o mestrado. Nos quase dez anos que temos de convivência, ele deve ter produzido ao menos 8 trabalhos pessoais, que nunca foram publicados, que deveriam ter no mínimo o título de dissertação. Esse ano ele entrou para o mestrado e seu tema é de um pathos que o atinge desde a sua infância roceira: a dignidade dos animais. Têm os animais direitos? Devemos continuar enquanto civilização a comê-los? Por que não um churrasco de beringela? Essa é a tradução vulgar de seu sério tratado sobre a vida dos animais. Na história de nossa convivência com comilança onívora agora temos rituais de separação dos que continuam onívoros e dos que se tornaram veganos. Mas ele quer mais, ele quer que os animais sejam reconhecidos em sua dignidade como seres que também sentem dor, medo e prazer e por isso não deveriam ser assassinados para refestelar nossas mesas. Há uma encenação do grupo “porta dos fundos” que representa bem algumas das discussões que tenho com ele. Episódio “garçom vegetariano”: http://m.youtube.com/watch?v=NTE5j-qnpwo

Em casa temos hoje dois animais que fazem parte do meu cotidiano, o Portinari e a Janelinha. Ele um cão vira lata que adotamos há 1 ano e 1/2 e ela uma gatinha que adotamos há uns quatro meses. Tenho carinho por ambos e honestamente, não consigo pensar minha vida hoje sem a sua presença. Principalmente o Portinari que tem uma história de superação das piores doenças caninas e que como eu, tem um humor que parece perguntar incessantemente: “o que estou fazendo aqui? De onde vim? Para onde vou? Qual o sentido da vida?” Foi com o Portinari que vi o João fazendo um esforço enorme para acarinhá-lo com seu braço esquerdo. O braço “preguiçoso”. Hoje, quando o João se interessa, me ajuda a dar banho nos animais, na verdade, uma massagem dos deuses.

Hoje, com seis anos o João formula algumas perguntas que são do Portinari e minhas. O João é também um animal, mas além de sua animalidade é construído nele uma coisa para o qual ele não nasceu biologicamente para ser: humano. A humanidade é uma construção da cultura e da linguagem, que se inicia quando nascemos e termina quando morremos. Ela ocorre através da socialização. É uma coisa que sempre exige um algo mais, um desejo a mais, por isso só tem fim quando nos tornamos carne sem ânimo.

Da mesma forma que a humanidade, todo sistema simbólico que nos rodeia é produto da cultura e da linguagem. A política, a educação, o ser feliz, nossa violência, são construções. A ideia do que é belo, do que é feio, do que é saudável, doente, eficiente e deficiente. Nada é de verdade verdadeira, ou seja, nada é em si mesmo capaz de dizer a que veio sem a cultura e a linguagem.

Reconhecendo isso, podemos reconhecer também que quando alguém diz que ocupa a vaga de estacionamento destinada a pessoas com deficiência e/ou idosos só por um minuto, elas são pessoas mal educadas (para expressar educadamente o que pensei). Podemos dizer que ela não entendeu ainda que existem pessoas diferentes dela e que isso dá a elas exclusividade, uma discriminação positiva, para que conquistem algo com o mínimo de equidade.

Assim é o direito à escola, a escola de qualidade, à escola em que se sente bem. Enquanto continuarmos colocando as planilhas econômicas e nossos medos e preconceitos à frente do direito a educação, enquanto não colocarmos o cuidado como elemento chave das articulações entre pessoas, enquanto ignorarmos que a ideia do conceito de humanidade foi construída para dar aos seres de linguagem uma complexa visão do mundo, pouco adianta sermos piedosos. Pouco adianta professarmos fé e direitos. Por que o nosso Senhor será apenas o dinheiro e não o ambiente em que estamos inseridos.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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