O que tem no céu? Morte, pessoas queridas, fantasias infantis… Papo de Pai

Night skyPor Carlos Wagner Jota Guedes

Em abril de 2012 mudei de um prédio, três andares da garagem e sem elevador, para uma casa geminada. Com esta casa ganhamos também um quintal. Para quem sempre morou em apartamento como eu, morar numa casa com quintal acabou ressignificando o meu sentido de lar. Hoje passo boa parte do meu final de semana é na área externa de casa, cuidando da horta, dando banho na “criação”, varrendo quintal, embolado na rede, recebendo os amigos e deitado no chão olhando para o céu.

Foi assim, deitado no chão olhando para o céu que eu e João descobrimos que as nuvens “caminhavam”, que alguns aviões deixam rastro no azul celeste, que de dia o céu é azul e de noite escuro. Que a lua namora o sol quando fica de dia e que existem as estrelas. Foi neste contexto que descobri que o João já possuía algum entendimento do que seja a morte. Hoje, inclusive tenho que fazer toda uma negociação com o João para ele olhar para o céu. Ele fecha os olhos, diz que não quer olhar. À minha insistência para que ele olhe, ele me responde algo próximo a: “não vou olhar, porque não quero morrer”, “tenho medo de morrer e quem morre vai para o céu, então não vou olhar”.

Acredito que meus leitores já tenham compreendido que sou agnóstico, quase um ateu. Todavia não tenho problema em conviver com religiosos de diversas matrizes, até gosto muito dos debates teológicos, dos problemas clericais e de alguns ritos.

Nesta última semana vivi esse sentimento com o João novamente. Estávamos deitados no chão do quintal e ele não queria de forma alguma apreciar o movimento e formas das nuvens. Então decidi enfrentar essa situação e conversar com o João, mais dedicadamente sobre morrer e consequentemente para onde íamos depois que morríamos. É um papo escatológico que muitos filósofos e teólogos enfrentam diariamente em profundidade que nunca vou conhecer, mas ali eu era um pai vendo o filho desenvolver sua própria escatologia e com ela perdendo a possibilidade de enxergar o belo. Com medo da morte, ele apresenta uma reação que é a própria morte. Em outras palavras, a possibilidade de viver em abundancia a vida que ele tem.

O João há bastante tempo pergunta se eu vou morrer? Eu digo que um dia eu vou. Ele pergunta, quando isso vai acontecer? Eu digo que não sei, mas que o importante é que estamos vivos agora. Ele pergunta se crianças também morrem? Eu digo que sim. Ele pergunta se ele vai morrer criança? Eu digo que não sei. Mas que agora estamos vivos e podemos fazer várias coisas.

E o que acontece quando a gente morre, é outra pergunta que o João me faz. Eu respondo: a gente é levado para o cemitério e enterrado. Ele pergunta: papai quando você morrer eu não vou ver você nunca mais? Eu digo que não, mas falo com ele que possivelmente ele vai se lembrar de várias coisas minhas, e isto será a minha presença, a memória que ele fará de mim.

Por outro lado, o João diz com certa frequência que quando morrermos vamos para o céu. Que lá estão pessoas que ele conheceu e já morreram. Que lá também mora o papai-do-céu. É o ensinamento que extrapola o lar e que chega a ele. Ele estuda numa escola católica, os avós são católicos, parte dos padrinhos protestantes históricos, etc. Isso sem contar os desenhos animados, filmes, músicas e outras artes que acabam formando valores como este com ele.

Não tenho problemas que o João viva essa pluralidade. Que conheça valores e regras diferentes, que faça e viva seus conflitos, que resolva alguns e que não resolva outros. Mas entendo que não dá para não conversar, mesmo que meu filho seja uma criança de 6 anos. sobre esses valores. Parece-me tolo acreditar que crianças são seres tolos.

Enfim, na conversa que tive com ele recentemente sobre este assunto e sobre olhar ou não olhar para o céu tentei não desfazer os valores outros que ele vinha trazendo. Apenas tentei levar o debate para a estética e para a memória. Perguntei a ele se as pessoas que ele conhece que foram para o céu eram boas. Ele disse que sim. Perguntei se a ideia que ele tem de papai do céu é de uma pessoa boa ou ruim, ele me disse de uma pessoa boa. Então afirmei: se isso tudo é bom olhar para o céu deve ser bom. Ele me olhou desconfiado e vagarosamente voltou a olhar para o céu, agora não mais com medo, mas com a ideia de que é bom e belo.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

 

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