Papo de pai: Razões e sensibilidades, por Carlos Wagner Jota Guedes

O que mais me espantou ao longo do meu curso de Ciências Sociais é como um mundo unificado (visão que me cercava até então) se tornou plural. Ficou quase impossível falar deste ou daquele fenômeno sem utilizar o S ao final das palavras. É por isso que esse texto chama-se razões e sensibilidades. Não sei se isso é melhor ou pior, mas pode permitir mais complexidade ao olhar os fenômenos e assim, ao meu olhar, mais dignidade na relação entre os sujeitos envolvidos.

Na semana passada assisti a uma audiência publica na Assembleia Legislativa de Minas Gerais sobre educação inclusiva. Lá estavam vários militantes de direitos das pessoas com deficiências, pessoas com deficiência, pais de pessoas com deficiências e representantes da casa. Eu como pai de uma pessoa com deficiência vi pela primeira vez o movimento social desta minoria agindo. Fiquei com os olhos de um novato bebendo das falas, das articulações e dos olhares naquele contexto. Há muito não via os interesses de uma minoria ser tão plenamente exposto e colocado em conflito como ali. Foi um momento muito interessante. Aqui vai o link da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa com Deficiência.

Das diversas questões que foram lá discutidas uma caminhou comigo por muitos dias. Como um herbívoro, engoli e regurgitei por várias vezes essa questão. Só os pais de pessoas com deficiência são capazes de falar sobre essa experiência? Só a eles é legitimo o saber e o falar sobre a experiência? Uma resposta ainda ruminante e sem muita certeza: não.

Razões e sensibilidades aparecem aqui como elementos para a compreensão de minha resposta temporária, mas para mim claramente direcionada: a dignidade humana como valor, a ideia de que a empatia colabora na luta e por fim, a capacidade de cada um de nós desenvolvermos afeto e, portanto, sermos afetados por questões que não vivemos no nosso dia-a-dia.

A dignidade humana como valor é o palco em que essa discussão é feita. Não estou falando apenas de legislações e declarações de órgãos oficiais, estou dizendo também da compreensão de que, uma vez colocado no mundo, todo humano deve ser atendido para que se realize ao máximo. Para que tenha vida e vida em abundância. Esse elemento me conecta àqueles que sofrem injustiças, aos que precisam  todos os dias dizer quando vão dormir: apesar de tudo, hoje eu consegui sobreviver!

A empatia permite que possamos ir além de nossas singularidades, de nossos limites linguísticos. É a ideia que nos joga para fora, que nos leva a assumir compromissos públicos com questões/debates que aparentemente não são nossas. É a possibilidade de aprender novas linguagens e formas de se comunicar. De entender daqueles que sofrem e daqueles que são felizes. De não se acostumar com as diferenças se tornando desigualdade e das desigualdades que procuram se legitimar.

Os afetos são aqueles capazes de fazer o fígado derramar um gosto amargo em nosso corpo. São os afetos que tiram  nossas noites de sono e nossa tranquilidade diária com histórias de pessoas que não conhecemos. São os afetos que fazem meu amigo baiano ser reconhecido onde for por sua virulência e assertividade contar histórias de poderosos.

Enfim, razões e sensibilidades tencionam entre si para dar a cada um que quiser a possibilidade de se sentir pai de uma pessoa com deficiência e se sentir empoderado para dizer basta para as desigualdades.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

 

 

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