Papo de Pai: Quando a curiosidade vira má educação, por Carlos Wagner Jota Guedes

Marta-1-17

Todos os dias somos parados, abordados na rua por inúmeras pessoas que querem conversar com o João. Idosos e mulheres são os que mais abordam. Querem saber o nome dele, quantos anos têm, se tem irmãos…… e o que ele tem? Muitas vezes essas perguntas são feitas para mim e eu digo: “ei João, responde!”. E ele começa a conversar. Quando perguntado sobre o que ele tem, às vezes eu, às vezes ele diz: paralisia cerebral. As pessoas ficam espantadas, às vezes colocam seu espanto para fora: “como pode esse menino ter paralisia cerebral”? Ele é quase normal!!!!

Via de regra, quando dá tempo, procuro explicar que existem muitas formas de sequelas da hemorragia cerebral, um dos fenômenos que causam a paralisia cerebral. Assim, existem pessoas ao seu lado, que tem paralisia cerebral e você nem percebe. Você pode ir a uma clínica de reabilitação de pessoas com paralisia cerebral e nem ver estas pessoas. É que muitas vezes habitam nossas mentes os estereótipos preconceituosos, malformados dessa sequela. Esperamos pessoas tristes, sem nenhuma forma de higiene… Existem sequelas diversas, mas as sequelas maiores são o preconceito, as barreiras sociais, culturais e estéticas.

Conheço algumas crianças e adultos com musculatura totalmente enrijecida, com enorme dificuldade de produzir palavras, algumas que babam, várias que se debatem em suas cadeiras e outras que são imóveis, mas que são boas de prosa, boas de afeto, boas de trabalho, algumas praticam esportes. Uma, em específico, que conheci em uma clinica de reabilitação escreveu um livro, e foi um bom livro para mim.

Na última semana de outubro fomos abordados duas vezes. Uma situação positiva e outra negativa.

Comecemos com a negativa: estávamos no ponto de ônibus e um rapaz de aproximadamente 40 anos se aproximou. Perguntou pelo nome, idade, time que o João gostava. O João conversou enquanto a conversa aconteceu. Num dado momento o rapaz perguntou o que ele tinha, em voz baixa, quase conversa ao pé de ouvido. Eu respondi normalmente, como sempre faço. Ele perguntou se o João ia andar. Quando comecei a responder o João disse: “pode ser que sim, pode ser que não. Não sabemos ainda”. O rapaz, constrangido com a resposta que o João deu, começou a querer “motivar” o meu pequeno. Disse de sua fé no poder de Deus em colocar o João em pé, mal sabe ele que o João já fica em pé no andador, que era para o João acreditar que iria andar, porque quem acredita consegue…… e lá vai borracha. O João sem entender o inconveniente rapaz, olhava para mim e eu tentando ser gentil e escapar da conversa. Mas ele era persistente e tive que agir. Dizer de sua falta de respeito, do tão ignorante era sua argumentação, uma vez que meu filho não precisa ser curado de nada, já que ele não era doente. A curiosidade dele era na verdade fruto de sua má educação.

Agora a positiva: eu, minha companheira e João estávamos numa praça jogando conversa fora, quando um casal chegou perto. Eles pararam e disseram que nunca tinham visto cadeira de rodas tão pequena, disse a eles que existem cadeiras de rodas ainda menores. Falaram que a cadeira era bonita e o João uma gracinha. Perguntaram se era só para deslocamento ou de uso constante. Achavam que era só para deslocamento, como uma criança em seu carrinho de “bebê”. Sanada a dúvida e a curiosidade, deram tchau e foram embora.

A curiosidade é um dos elementos que mais procuro estimular no João. Não há nada demais em ser curioso, isto é um valor que entendo como positivo. O problema é quando a curiosidade não vem acompanhada pela capacidade de escuta e de observação, pois ela deixa de ser curiosidade para ser apenas má educação.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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