Papo de pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

Se for pra sentir náusea, vamos sentir!!!!!

Há um filme que acho precioso e do qual costumo usar para falar da dimensão trágico-cômica da existência humana, do engajamento pessoal no mundo em que vivemos e sobre como é difícil o fardo de ser, ser humano. É um filme ainda do século passado e tem como nome “Antes da Chuva”.

Gosto de tempos em tempos de rever este filme dividido em três partes: a primeira parte tem o nome “words”, com uma fotografia linda e um silêncio retumbante. É a pequena história de um monge cristão ortodoxo e uma jovem leiga e os desdobramentos de um encontro afetivo que mudará a história dos dois. A segunda parte tem o nome “faces” e conta a história de um relacionamento extraconjugal e seus desdobramentos na vida dos envolvidos. A terceira parte, chamada “pictures”, coloca em rota de colisão as duas partes anteriores, expressando os sentimentos de identificação, de repugnação, de intolerância e empatia. É daqueles filmes que não dá para comer com uma pipoquinha junto, eu não consigo. porque a náusea pode te pegar.

Além de toda sua beleza fotográfica, de suas palavras tão próximas das coisas que elas significam, “Antes da chuva” trabalha com a sensação de náusea para contar sua história. Vários sãos os personagens que vomitam ao longo do filme tão grande é o peso da realidade que os cerca. E a melhor forma de por para fora, expressar intensamente a tensão de um contexto é o vômito. Quando o João nasceu e logo na sequência do tempo foram várias vezes que tive ânsia de vômito. E foi assim que muitas vezes consegui caminhar até aqui.

Neste ano de 2013 tenho tido náusea diversas vezes. O cotidiano com o João é intenso, o papel que me coloco como pai é intenso e vários foram os momentos intensos. Questionamentos de toda ordem sobre essas intensidades foram feitos. E essas intensidades acabam muitas vezes gerando náuseas e algumas vezes engajamento da minha parte.

Um dos engajamentos que tenho assumido é pelo direito de ver meu filho tendo a melhor educação possível. Não gosto da palavra/conceito inclusão, me sugere algo muito normativo, mas é ela que vou utilizar aqui. Para que meu filho tenha a melhor educação é preciso acontecer à inclusão escolar. Um dos elementos para que possa acontecer a inclusão escolar é que nenhuma palavra com duplo sentido (tipo, preferencialmente) seja expressa na legislação educacional, caso contrário, inclusão escolar só vai acontecer quando o rei (o prefeito, o diretor da escola, o juiz, o médico, etc) quiser.

E os pais que entenderem que seu(s) filho(s) precisa(m) de educação escolar numa escola especial? Acredito que eles podem ter seu querer atendido, mas em escolas especiais que executem seu papel educacional definido em legislação, que sejam escolas que potencializem competências e habilidades das crianças, adolescentes, muitas vezes adultos, em outras palavras, uma escola que seja igual àquela que uma escola deve ser.

Alguém poderia dizer que isso é impossível legalmente, contemplar dois princípios opostos (da inclusão escolar e da escola especial), numa mesma legislação. Então tenho que afirmar que quem é insuficiente é o sistema simbólico (a moral, por exemplo) que é substrato de nossa legislação.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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