Papo de Pai, Carlos Wagner Jota Guedes

Fechando o ano

Chegamos a mais um final de ano. Mais uma vez é a hora ritualizada de fazer a prestação de contas do ano, quem sabe de um período maior que o ano. O mais provável para nós aqui em casa, é de fazermos o balanço dos últimos 6 anos e quem sabe, na corda bamba da vida, projetar desejos para mais algum tempo futuro.

Tendo em vista o que ouvi/vi quando o João nasceu, só posso ter a tranquilidade de que o acaso nos “permitiu” que o João sobrevivesse. O mesmo acaso “poderia” ter-nos dado outra sorte. A chegada em casa, o amadurecimento gradual do João, também nos permitiu que chegássemos em nossa casa. Com todos os desafios que tivemos e ainda temos que enfrentar podemos dizer que conseguimos, eu e minha companheira, chegar a nossa casa. Habitá-la e ter nosso espaço nela.

Começamos completamente perdidos, completamente bêbados pelo consumo excessivo de CTI e a cada dia nos intoxicamos com outras drogas. A resposta positiva do João aos tratamentos, sua força diante das três operações que já realizou, sua alegria de viver, seus medos de perder e separar, tudo isso me faz acreditar que esses 6 anos foram muito bons.

No início do ano para escrever João, o mesmo usava uma folha inteira de A3. Precisava da ficha, de orientação para cada letra. Hoje, João escreve João Francisco em espaço limitado de uma linha. Sua letra que varia conforme sua preguiça/boa vontade é inteligível e mostra que cada vez mais tem consciência da forma/significado da letra. No inicio do ano o João entendia cada letra isoladamente, hoje ele já faz a aglutinação de letras e consegue produzir sons consequentes da aglutinação. Já “compreende” o que é uma silaba. Já sabe contar com auxilio até 100. Escrever sozinho até 10, por enquanto, é o que temos.

João se desenvolve musicalmente. Cada vez mais melodia, ritmo e outros elementos musicais fazem parte de sua vida. É entrar no carro e pedir para ligar o rádio, sabe qual rádio interessa e qual o horário dessa e não daquela rádio. CD e pen-drive sempre são complementos da audição. É ir dormir e pedir um som. É ficar só e começar a cantarolar alguma música.

As pernas e o tronco estamos trabalhando com pequenas metas semanais. Depois da cirurgia do meio do ano o João evoluiu muito, embora reclame do aumento de demandas e responsabilidades que a cirurgia permitiu, já faz uso do andador, consegue “tomar banho sozinho”, escova dentes sozinho, consegue saber e determinar a hora de usar o banheiro. Para realizar estas atividades ele, por vezes, apenas precisa das orientações de voz.

De forma geral ele já entendeu os horários e as atividades corriqueiras que tem ao longo do dia. É daqueles que sabe e faz com que aconteça, que depois de terminado o sítio do pica-pau amarelo, às 20h, é hora de dormir. Só mesmo quando tem futebol é que pede para ficar até mais tarde. Se se mostro para ele que fica muito tarde, ele já sabe que no dia seguinte pode contar com o youtube.

Um dos grandes dilemas que ainda temos para o futuro e esperamos resolver é a permanência do João em instituição escolar regular por um longo tempo. O João entrou para a escola com um ano e desde lá já se foram três. Estamos indo para a quarta escola. O João começa em 2014 o primeiro ano do ensino fundamental. Se não fomos claramente expulsos das três escolas até agora, é certo que foram criadas barreiras suficientes para que a permanência dele fosse impossibilitada. Nada que não esteja na legislação educacional ou constitucional, nada que não esteja em qualquer manual de pedagogia e que orienta a condução da educação em ambientes plurais. É sempre a redução da educação à mercadoria ou o mero preconceito com a diferença que faz com que fiquemos órfãos de uma escola para chamar de nossa escola.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

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