Papo de Pai, por Carlos Wagner Jota Guedes

Depois de 6 anos…. BBB continua uma bobagem

Há quase seis anos não consigo ver TV, melhor, quase não consigo ver o que gosto de ver direito. Como muitos sabem adoro novela e desde que o João nasceu novela das 9h foi o pouco que consegui acompanhar. Estes dias, porém, tenho visto o tal do Big Brother Brasil e ficado feliz em ver que o “ibope” do programa tem sido ano após ano pior. Exceto o primeiro, novidade para a turma de amigos que gosta de sub-celebridades (aí flávia, devo essa a você), poucas vezes me diverti vendo este programa. Aliás, o melhor de todos foi aquele em que uma empregada doméstica, virou o jogo e colocou um bando de coxinha para ralar. Por outro lado, temos a surpresa de lá sair um dos melhores deputados federais da atual legislatura e de lá também sair um dos indivíduos que depois de um acidente tornou-se cadeirante (embora não goste do estilo de vida dele, devo reconhecer que ele deu a volta por cima e anda mandando bem por aí). Mas na noite passada fiquei me perguntando, por que não deixaria o João ver esse programa? Sempre acabo fazendo esse tipo de pergunta, pois tenho dúvida se aquela tabela indicativa de programas de televisão presta para indicar algo. 

Por exemplo, não deixo o João ver o desenho do papa-léguas e o coiote, embora a indicação seja livre. Igual a ele existe um número enorme de desenhos infantis a ensinar a intolerância, o pensamento perverso, a crueldade como valor positivo e etc. Embora ele assista o backyardigans, acabo, algumas vezes, discutindo se aquelas práticas apresentadas ao longo do desenho são boas. Com todo respeito, entendo que não tenha nada melhor para crianças e para seus pais que Cocoricó.

Da mesma forma que papa-léguas não deixo meu filho ver BBB. E vou tentar explicar por quê.

  1. Não é possível uma criança (acho que também um adulto) ver gente que não tem vergonha nenhuma em dizer que está usando o outro (e esse achar bonito) para ganhar dinheiro;
  2. Não é possível uma criança (acho que também um adulto) ver gente que separa corpo e espirito sem dó, nem piedade; 
  3. Não é possível uma criança (acho que também um adulto) ver um programa em que se diz amor, amizade, lealdade, como sinônimos de sexo, possuir, ganhar.
  4. Não é possível uma criança (acho que também um adulto) ver um lugar totalmente planejado para excluir pessoas;
  5. Não é possível uma criança (acho que também um adulto) ver um programa feito de pessoas que não existem no mundo em que elas estão inseridas.

Se a novela das 9h trata, mal ou bem, questões relativas à visibilidade de pessoas com deficiência (ver o fantástico texto de Jairo Marques, “o cego da novela”, http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br/2014/01/20/o-cego-da-novela/) o BBB é feito de pessoas “saudáveis”, intocáveis heróis fracassados. Corpos de silicone (nada contra, mas apenas peito e bunda, não dá), barrigas tanquinho (provavelmente, invejando as lavadeiras do mundo), cérebros “véi” (aquele em que a sinapse é só descarga elétrica). A casa (o local em que o gado fica confinado) é deficiente ao extremo: cheia de degraus, lugares apertados, segundo andar sem elevador, banheiros sem barras, chão sem piso tátil, tradutor de libras etc. Por isso não deixo o João, e por isso vejo apenas os comentários e alguns pedaços de episódios. Ali não tem gente, ou melhor, tem gente que prefere ser menos gente.

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira emhttp://www.tudobemserdiferente.com

** As opiniões aqui publicadas são de responsabilidade do colunista.

 

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