Papo de Pai… escolhas e lições do cotidiano

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Andar de ônibus pode ser bom, por Carlos  Wagner JotaGuedes

Às vésperas de completar 18 anos encaminhei algumas questões importantes na minha vida. Decidi ali que não queriam servir às forças armadas, não queria ser padre e a mais importante, não queria tirar carteira para dirigir carros. Esta última decisão é aquela que efeito concreto tem na minha vida ainda hoje. Todos os dias tenho que justificar para um sem fim de pessoas o motivo que não me faz ter carteira. E o motivo é simples, eu não quero.

Imaginei naquela época, que nos dias de hoje poderia apenas me deslocar através de caronas, de táxi, andando bastante à pé e pegando ônibus de quando em vez, mas não é a realidade que vivo. Tirando as caronas que são frequentes, ando de taxi menos que gostaria e ando muito de ônibus e a pé. Boa quantidade destes deslocamentos é feito com o João. Andamos muito de carona, menos que gostaríamos de táxi e muito de ônibus, e o João adora isso. Nas últimas férias o João me pediu como passeio andar de ônibus executivo e micro-ônibus. O transporte coletivo fascina e é funcional ao João.

É funcional porque o João aprende inúmeras coisas importantes ao seu cotidiano. Por exemplo, ele sabe qual o passo a passo para sairmos de casa e irmos para a reabilitação. É necessário sair de casa, ir ao ponto do ônibus, saber o nome e o número do ônibus que vamos usar. É necessário também saber mostrar ao motorista do coletivo que queremos pegar aquele ônibus e não outro. Uma das atividades fundamentais que ele gosta de exercer é a de avisar ao trocador que vai descer no próximo ponto. Quer sempre apertar a campainha e ver que a luz de sinal dado ascendeu perto da porta. Quando não ascende, grita com a força plena de seu pulmão: “trocador, é no próximo”. O João também aprende a usar o transporte coletivo, aprende qual o lugar de sua cadeira de rodas dentro do ônibus, a exigir o seu direito de uso do elevador, de ter cintos que não estejam sujos, das coisas mais raras que têm. Ele sabe também reclamar bem, quando o ônibus demora, está cheio, ou não está preparado para recebê-lo. E quem vê o João pagando um pito pro trocador, acha que o João está contando uma piada, tamanha a ironia de sua fala.

Quando está dentro do ônibus João se torna ainda mais sociável que o normal. Sai conversando e perguntando sobre tudo com todos: pergunta por que tal pessoa é negra? a outra branca? a outra gorda?e a outra baixa? pergunta por que aquela moça está de braços dados com outra moça?porque a aquele casal se beija tanto? porque aquela pessoa está pedindo algo? João quer conversar e conversa com todos, quer saber e procura os meios necessários para saber. Interessante é que ele me sonda com seus olhos e palavras sobre as explicações que outras pessoas dão. Toda vez que uma conversa não soa plausível o João pergunta:”como assim”? Muitas vezes, simplesmente não sei o que dizer.

Poderia dizer claramente que o João, naquilo que concerne o uso do transporte publico, exerce bem aquilo que na reabilitação se chama de autonomia e independência. No primeiro caso na capacidade de reconhecer a si é ao próximo como sujeitos legítimos, no segundo caso, na habilidade de ter decisões razoáveis dentro do contexto em que está inserido. Assim, apesar da péssima qualidade das carroças, opa!!!, quero dizer, ônibus que temos, andar de ônibus pode ser bom. Pode ser uma possibilidade de aprender a dividir espaços e histórias, uma forma de ocupar a cidade de pessoas. Isso fascina o João e a mim.

 

*Carlos Wagner é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia. É entre outras coisas pai do João. Assina a Coluna Papo de Pai, publicada toda quarta-feira em http://www.tudobemserdiferente.com

 

 

 

 

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